RENAULT E OS FREIOS: SAIU BARATO (POR ENQUANTO)


por Sergio Milani

Nesta quarta-feira, em Genebra, a FIA apreciou o protesto impetrado pela Racing Point após o GP do Japão contra a Renault. Em um dossiê de 12 páginas, a equipe anglo-canadense descreveu o que seria um sistema de regulagem eletrônica do balanço de freios pelos franceses. Tal dispositivo seria um descumprimento claro ao regulamento, que não permite o uso de qualquer tipo de aparelho que auxilie o piloto.

Neste espaço, na última segunda, em um texto falando sobre a possibilidade da Renault sair da F1, foi dito o seguinte :
“E a FIA e a FOM se veem numa sinuca de bico caso a Renault esteja mesmo fora do regulamento. Como os franceses estão em dúvida, vale a pena fingir que não viu e perder a credibilidade (ilegalidade limitada ataca de novo?) para mantê-los ou cumprir a lei e ter o risco de uma retirada? “

E a FIA não fez por menos. Divulgou o resultado e fez uma saída digna da “ilegalidade limitada” das rodas das Mercedes em 2018: Após análises, declarou que o sistema, pelo aspecto do Regulamento Técnico, estava regular, reconhecendo que a Renault “usou soluções inovativas para explorar ambiguidades nas regulações técnicas e outros documentos de suporte”. Entretanto, os comissários reconheceram o sistema como “um auxílio”, o que vai contra o artigo 27.1 do Regulamento Esportivo, que prevê que o piloto deve pilotar o carro sozinho e sem qualquer auxílio.

Diante desta situação, os comissários decidiram pela desclassificação dos carros 3 e 27 do resultado final do GP do Japão. Basicamente a mesma ação tomada contra a Alfa Romeo no GP´da Alemanha pelo uso da embreagem fora do previsto.

Já quando o protesto foi lavrado, muitas perguntas surgiram: a Renault estaria somente utilizando este sistema agora no Japão? Como a Racing Point descobriu este sistema? E sabendo de tudo, por que só resolveu entrar agora? 

Uma matéria publicada agora pouco na Auto Motor und Sport lança algumas possíveis luzes em algumas perguntas. De acordo com o jornalista Tobi Gruner, o conhecimento deste sistema teria vindo com a chegada de um ex-engenheiro de Nico Hulkemberg na Racing Point antes das férias de verão. E não podemos esquecer que a Renault trouxe o Engenheiro Marcyn Budkowski no final de 2017, que ocupava um posto chave na FIA, fiscalizando os futuros projetos das equipes, verificando sua legalidade.

Em sabendo do programa antes das férias, porque não ter ajuizado o protesto no GP da Itália, onde a Renault conseguiu 22 pontos? Podemos pensar que a batalha política em torno das novas regras de 2021 e os valores de premiação nos Construtores tenham sido determinantes. As duas equipes estão em lados opostos, podendo considerar a Racing Point um “peão” no tabuleiro da Mercedes. 

Embora ainda caiba recurso por parte dos gauleses – o que farão – foi uma decisão extremamente acomodatícia: puniu a equipe e escapou de uma punição bem mais pesada, que poderia passar por uma possível exclusão do campeonato, caso se comprovasse o uso mais prolongado. Curioso que os freios era um dos pontos que Riccardo reclamava no início da temporada....

Tal ação vem em um momento que a montadora vem repensando seus planos e tem uma CEO nova desde a semana passada. Tal fato pode sim detonar mudanças que podem passar por trocas de nomes em locais chaves da administração como a confirmação dos boatos cada vez mais volumosos da saída da Renault da F1, numa espécie de profecia auto-realizável. 

A FIA sabe disso e muito mais, bem como a FOM. Neste momento, não podem deixar a F1 perder um nome de peso como a Renault. Desta forma, tomou-se uma ação dúbia e acomodatícia, dando a entender que não deixou passar em branco o “drible” ao regulamento, mas meio que “passando pano” pela solução. A fatura saiu muito barata para os franceses até aqui e mesmo assim, não é uma garantia de que a situação esteja remediada. Deveremos ver algum sangue na praça, com corpos empilhados. Torçamos para que o paciente não seja morto pela dose errada do remédio. 


PARA ENTENDER O TEXTO








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