MERCEDES E O FUTURO

por Sergio Milani
Na última semana, tivemos algumas informações que fazem pensar quais serão os próximos passos da Mercedes na F1. No meio do reboliço que se tornou o futuro da categoria, podemos ver algumas situações que valem prestar atenção.
Inicialmente, tivemos na sexta feita do GP´de Singapura o anúncio de que a McLaren voltaria a receber os motores alemães por 4 temporadas, a partir de 2021. Após uma das mais duradouras relações entre equipe e fornecedora da categoria (20 temporadas) e um fim de relacionamento não tão bom, as partes voltaram às boas.
Esta conversa não era tão recente e vinha se avolumando nos últimos meses. E foi considerada no fim de 2017, quando o divórcio McLaren e Honda era mais do que uma certeza. Mas naquela época, houve um veto da própria Mercedes e os ingleses fecharam com a Renault, que estava deixando o "mundo Red Bull".
O anúncio deixou muita gente em polvorosa. Pelo quadro atual, a Mercedes estaria fornecendo para 4 equipes : ela mesma, McLaren, Williams (até 2025) e a Racing Point (em negociações. Alguns falam que um acordo até 2027 estaria sendo costurado). Mas o regulamento atual prevê que cada fornecedor possa ter acordos com, pelo menos, 3 times. A partir daí, deve ter uma autorização da FIA para novos contratos.
Este acordo deu a entender que a Mercedes poderia considerar uma saída como equipe após 2020 e só ficar como fornecedora. Exatamente como fez a Renault alguns anos atrás. Mas Toto Wolff tratou de desmentir isso, dizendo que os alemães tem um compromisso de longo prazo com a F1 e está trabalhando para garantir a continuidade com as novas regras de 2021.
Outro fato foi o anúncio dos dados financeiros da equipe Mercedes em 2018. O site motorsport.com publicou que o time teve receitas de 338 milhões de libras (cerca de R$ 1,7 bilhões) e um lucro de 13 milhões de libras (um pouco mais de R$ 68 milhões). Do ponto de vista contábil, significaria um retorno de 3,8%. Mas o dado mais impressionante é que a Daimler (holding controladora) bancou cerca de 64 milhões de libras (mantendo praticamente o nivel de 2017, ficando em torno de 20% do total) e teve um retorno de exposição de 3,4 bilhões de dólares para ela e seus parceiros.
É o nirvana para uma equipe: vencendo na pista e tendo bons resultados financeiros. Seriam motivos mais do que suficientes para garantir a permanência. Mas não é tão simples assim...
A Mercedes é uma daquelas que vem se preocupando em garantir que as mudanças de 2021 não a atinjam. E foi uma do que aprontaram para que as novas regras de motor não fossem implantadas com as demais mudanças. Afinal, o objetivo é continuar na frente. Mas o risco não está na pista...
Como este site postou em maio, a Daimler mudou seu CEO (ver aqui). Ola Källenius, o primeiro não-alemão (é sueco) a assumir o comando na história da empresa, é uma cria da empresa e vem com uma gama de desafios para atacar. Um deles: tornar a Daimler uma montadora neutra em emissão de carbono até 2039 (ver a declaração oficial aqui). Para tal, prevê uma feroz eletrificação de sua frota e um amplo investimento em células de combustível. Nesta linha, já anunciou que desenvolverá motores a combustão até 2026 (ver aqui). Depois, não mais.
Diante deste quadro, uma equipe de F1 não se enquadra totalmente na visão estratégica da montadora em um médio prazo, embora hoje a unidade de potência desenvolvida seja reconhecida por ter atingido um dos maiores niveis de aproveitamento energético de um motor à combustão.  Mas uma equipe de F-E faz todo o sentido neste quadro...e ela virá agora oficialmente nesta temporada 2019/2020.
Não a toa que as discussões da futura F1 são no sentido de se tornar mais "verde" e relevante para a indústria automotiva. Também abordamos este aspecto aqui e em uma matéria neste final de semana, Cyril Abiteboul, o chefe da Renault, e o próprio Toto Wolff falaram neste sentido (ver aqui).
A preocupação hoje de Toto Wolff não é só ganhar na pista e manter a dominância. 2019 já é favas contadas. Mas sim garantir a  sobrevivência da equipe para o futuro. Bons resultados não só bastam. A conferir.


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