F1 2021: FINALMENTE, AS REGRAS.



por Sergio Milani

Hoje é o dia! O Circuito das Americas no Texas transmitiu uma coletiva a partir das 11 horas da manhã locais (13 horas pelo horário de Brasília - pelo canal oficial da F1 no You Tube) para anunciar as regras da F1 a partir de 2021.

Este site dedicou muito de seu tempo para tratar deste assunto e todas suas idas e vindas. Estas mudanças já estavam.no horizonte desde quando a Liberty Media assumiu o comando da F1 em 2017. Afinal, o famoso Pacto de Concórdia (acordo entre a FIA, F1 e equipes) vence em 2020 e toda a governança entre as partes teria que ser repactuada.

A Liberty chegou cheia de ideias. Mas o espírito americano bateu de frente com o pensamento europeu das equipes. A relação foi tortuosa em certos momentos, mas ambos resolveram fazer o casamento funcionar.

A conveniência era necessária. Afinal, a F1 estava em um momento de discussão de relevância de seu papel no automobilismo diante da "caça" à combustão e uma redução de público. 

Na busca de melhorar o "espetáculo", aproximando as equipes não só na pista como nas finanças, mudanças foram propostas nos seguintes eixos:
- introdução de teto orçamentário;
- redistribuição de premiação;
- mudanças nos carros, deixando o carro menos baseado em aerodinâmica para andarem mais próximos, permitindo mais ultrapassagens;
- novas unidades de potência, mais simplificadas e baratas;
- mudanças na governança.

Desde a apresentação das linhas gerais, um verdadeiro zigue-zague começou.O primeiro item que caiu foi a mudança das Unidades de Potência. A FIA queria uma situação mais simples do que a atual, para descomplicar o desenvolvimento e a construção, o que poderia trazer novos fornecedores. Parecia haver um acordo, mas as atuais construtoras fizeram uma série de considerações (leia-se chantagem) e uma possível mudança ficou para ser pensada a partir de 2024.
As discussões mais quentes foram em torno do teto orçamentário, redistribuição de premiação e o regulamento técnico. Após muita discussão, foi fechada uma proposta de US$ 175 milhões, excluindo valores com motores, pilotos, despesas de viagem e marketing. 2020 será um ano de transição, sem limite, mas com monitoramento para ajustes.
Um ponto que pretendida segurar custos era a padronização de peças. A FIA chegou a fazer concorrência para o fornecimento de câmbio (os internos seriam os mesmos para todos, mas cada equipe teria sua própria caixa), freios, sistemas de combustível e rodas. Entretanto, diante da reclamação das equipes, a ideia foi abortada. O que ficou é que a última versão preveja uma espécie de sistema de “código aberto”: cada equipe colocaria seus projetos de algumas partes disponíveis para todos e quem quiser, poderia fazer.
Onde houve a maior discussão foi na parte técnica. A equipe liderada por Ross Brawn fez um diagnóstico certeiro em eleger a dependência aerodinâmica como a vilã de menos ultrapassagens. Para diminuir um pouco o problema, fez alterações para este ano e 2020. Um “puxadinho” que reduziu a turbulência, mas não o atacou de frente.
Após muito estudo, a equipe técnica da F1 apresentou uma proposta que simplificava extremamente os aerofólios para reduzir a turbulência. E para recuperar parte do apoio perdido, traz de volta um velho conhecido da categoria: o efeito solo. Curioso que vai em linha com uma linha preconizada por Gordon Murray, ex-projetista da Brabham e McLaren, em entrevista ao Projeto Motor.
As equipes aceitaram até certo ponto, mas a principal reclamação é que não havia muita brecha para desenvolvimento dos carros no regulamento técnico. Alguns diretores técnicos chegaram a definir a proposta da FIA como um “grande GP1” ou um “Indy aumentado”. Algumas partes foram liberadas, mas o espírito principal permanece. Espera-se que haja mais uma concessão na parte final.
Os pneus também foram parte integrante das mudanças. A partir de 2021, os pneus passam a usar aro 18” (ao contrário das atuais 13” que vão até 2020). Além disso, a idéia é o uso de calotas para reduzir mais ainda a turbulência. A proposta inicial de banir os cobertores de aquecimento em 2021 foi postergada para 2023.
A redistribuição de premiação não foi abordada abertamente. Entretanto, essa parte foi discutida, bem como a permanência da possibilidade de veto que a Ferrari tinha anteriormente. O que se trouxe ao longo da semana era uma mudança grande especialmente na governança: o Grupo de Estratégia seria dissolvido e não seriam mais obrigatórias as tais unanimidades para uma série de assuntos. Entretanto, em declaração hoje, Chase Carey declarou que “não há pressa” para a assinatura do novo Acordo de Concórdia.

Muito será discutido ainda nos próximos meses e vocês ainda verão este assunto ser tratado com frequência.
Vocês poderão ler tudo que foi tratado nos links listados no fim do texto para saber mais. Mas a impressão que passa é que a F1 irá mudar bastante sua cara. Mas nem tudo que foi pensado, será implantado. E mesmo com as mudanças, deveremos ainda ver quem tem mais condições andando na frente e a relação de forças se alterando aos poucos. Como diria Lampedusa em “O Leopardo”: algo deve mudar para que tudo continue como está.
É importante o passo anunciado hoje e dá um fôlego para que se continue. Mas a FIA e a Liberty devem se preocupar ainda mais com o futuro, já que os motores à combustão estão sendo “caçados” pelo mundo e os híbridos não chamam a atenção como anos atrás. Hoje a F1 é refém das montadoras de automóveis e deve resolver isso logo para garantir sua sobrevivência e não ter mais uma crise de identidade, tendo o espectro da Formula E rondando sua porta.


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