ALFA ROMEO E RENAULT: F1 EM DISCUSSÃO


por Sergio Milani

Dois meses atrás, este site escreveu sobre a situação econômica mundial vir a afetar a F1 (ver aqui). E até foi tachado de “alarmista” por alguns. Mas nos últimos tempos, algumas notícias vindas de fora nos fazem questionar a continuidade de dois nomes peso da indústria automobilística na principal categoria: Alfa Romeo e Renault.

ALFA ROMEO

No caso italiano, as dúvidas começaram a surgir por conta dos resultados de vendas. Dentro do desenho estratégico ainda bolado por Sergio Marchionne, a Alfa foi colocada como a marca “premium” do grupo, para se bater principalmente com as alemãs Audi, Mercedes e BMW. Um dos objetivos também era que a marca fosse uma das principais armas da “invasão” ao mercado americano. 

Para aumentar a visibilidade, o uso da marca fazia todo o sentido na F1. Inicialmente, ela veio como  patrocinadora e a partir deste ano, assumiu a responsabilidade. Estima-se que a montadora gaste cerca de US$ 80 milhões/ano na equipe. 

Tudo pareciam rosas. Mas como dizia um antigo gerente, planos existem para não serem cumpridos.  Quando se anunciou o retorno da Alfa após 23 anos, esperava-se que os italianos fossem entrar com alguma tecnologia. Entretanto, o que se viu foi a antiga Sauber (que ainda existe na parte de engenharia – os trabalhos de desenvolvimento do carro de 2021 pela F1 foram realizados no túnel de vento em Hinwill - e tem um programa de desenvolvimento de pilotos paralelo nas equipes de base) se tornar uma simples satélite da Ferrari, que fornece todo sistema de trem de força, suspensões, câmbio, parte da área técnica e pelo menos uma das vagas de pilotos.

Tal situação faz o clima dentro da equipe não ser dos melhores. Afinal, boa parte do desenvolvimento vem sendo feito na Itália ou ainda por técnicos vindos de Maranello. A maior prova disso é a volta de Simone Resta para a Ferrari, após ter chegado em meados de 2018 e ter ajudado no desenvolvimento do C37 e na concepção do C38. Coincidentemente, a Alfa não tem tido um bom desempenho na segunda parte da temporada. 

Além disso, as vendas da Alfa Romeo não tem sido as esperadas. A luz amarela acendeu quando na semana saíram dados de que a Lancia, que também faz parte do grupo FCA, vendeu mais carros na Itália (seu único mercado) do que a Alfa em todo continente europeu. E os resultados nos Estados Unidos não tem sido dos melhores. Diante do quadro, voltam a tomar forma os boatos de que a Casa de Arese seria posta à venda para capitalizar o grupo diante da necessidade de investir em uma nova gama de veículos e se posicionar na onda elétrica que varre a Europa e onde parecem estar atrás diante de seus concorrentes.

A vinda da Alfa para a F1 foi uma jogada bem feita à época. Mas será que os aludidos US$ 80 milhões anuais hoje fazem sentido ? Afinal de contas, a montadora em si só empresta a marca, mas nada desenvolvido em suas fileiras. E as vendas não reagem....Restando hoje ser um peão do “mundo Ferrari” no tabuleiro da política da F1.

E se a Alfa sair? A Sauber ficaria numa situação parecida com a acontecida no final de 2009, quando a BMW resolveu abandonar a F1. Mas desta vez, as coisas são diferentes. Não podemos esquecer que, formalmente, a equipe ainda está nas mãos dos misteriosos investidores trazidos por Marcus Ericsson. Frederic Vasseur era um homem Renault quando os franceses resolveram voltar em 2015 e tem uma boa relação com Toto Wolff. Mas isso não seria uma certeza de continuidade..... 

RENAULT

O protesto apresentado pela Racing Point no GP do Japão questionando a existência de um sistema automático de regulagem da frenagem baseado em GPS é mais um ingrediente na receita que um chef de alta cozinha vai tentando salvar, mas vai se transformando em um engrulho digno de um boteco de quinta categoria...

Desde quando voltou em 2015, a Renault sempre colocou que seu projeto era de longo prazo. Tal qual um certo país sul-americano, é uma equipe de futuro. E nos últimos anos, veio investindo pesadamente em recompor a sua infra-estrutura, bem como em pessoal. E as melhorias vinham vindo. Para este ano, deu a cartada de contratar Daniel Riccardo e esperava que o R.S.19 se colocasse em posição de ser “o melhor do resto”.

Só que não se sabe se o que vai pior: se é a equipe na pista ou é a performance corporativa. No fim de 2018, o CEO Carlos Ghosn foi preso no Japão acusado de fraude em impostos, justamente em um momento crucial em que se discutia a situação da aliança Renault/Nissan. Thierry Bolloré foi nomeado para o posto em caráter provisório. E foi sob sua batuta em que foi analisada uma proposta de fusão com o grupo FCA, que não foi aprovada graças às pressões do governo francês, ainda dono de 15% da empresa (abordamos este assunto aqui em maio).

Não bastando a confusão, as vendas foram abaixo do previsto até agora, o fluxo de caixa foi negativo no primeiro semestre do ano e houve uma nova troca de comando: saiu Bolloré e entrou Clotilde Delbos, que até então respondia pela área financeira do grupo. E em um vídeo aos funcionários transmitido na terça-feira passada, Clotilde falou em “temos que ajustar a estratégia”.

Tudo isso acontece em um momento em que a equipe não entrega os resultados esperados e até o momento só fornece Unidade de Potência para ela mesma, já que a McLaren recusou uma proposta de “compartilhamento de desenvolvimento” e fechou acordo com a Mercedes a partir de 2021.

Todo este caldeirão faz a posição de Cyril Abiteboul ficar mais ainda em xeque. Ainda mais após a oficialização de Alain Prost como “diretor não-executivo” e das declarações de que o carro de 2020 deve ser baseado no atual e o foco será em 2021. Para ajudar, mesmo com o aumento de receitas com patrocínios, pelos resultados de 2017 e com um gasto de US$ 75,8 milhões por parte da matriz, a equipe fechou com um prejuízo de US$ 9,5 milhões...

Como já se falou, a história se repete como farsa. E nas últimas 3 saídas da Renault da F1, 2 delas foram por conta de ajustes corporativos. Diante de tudo que se fala e em um momento em que a F1 discute novos arranjos técnicos e econômicos, é justo sim pensar que os franceses possam considerar uma nova saída (até hoje não está claro se o contrato fechado com a F1 vai até o fim de 2020 ou 2024).

E a FIA e a FOM se veem numa sinuca de bico caso a Renault esteja mesmo fora do regulamento. Como os franceses estão em duvida, vale a pena fingir que nao viu e perder a credibilidade (ilegalidade limitada ataca de novo?) para mante-los ou cumprir a lei e ter o risco de uma retirada?

O fã de F1 deve sim ficar atento ao que acontece ao seu redor. E esperar os acontecimentos.

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