VELOCIDADE EM SINGAPURA NÃO É SÓ F1


por Allan Bastos
Olá amigos! Em breve teremos a décima quinta etapa da F1 em 2019, o GP de Singapura, no circuito de Marina Bay, situado na área central de Singapura, uma zona administrativa e econômica no sul da península da Malásia (inclusive é a capital do país).
Durante os anos de 1920, conseguimos encontrar algumas atividades automobilísticas na região. Vale dizer que, neste período, o país era colônia britânica e, assim como na metrópole, também passou pelo período de desenvolvimento de corridas. O Automóvel Clube de Singapura (ACS) já realizava competições de trilhas de motos, juntando europeus e nativos, no ano de 1927. Ainda na península da Malásia, encontramos no mesmo período a competição de Selangor Hill Climb, onde havia corridas de motos de 250 cc, além de carros de turismo e esporte. Durante os anos 20, havia competições automobilísticas no estado de Johor, parte da Federação Malaia, com o apoio do Sultão da região. Ainda na região, curiosamente durante a 2ª guerra mundial, foi organizado o GP do Esforço de Guerra, em 1940, em contramão a tendência de extinção das corridas que houve na Europa no período.
Outra categoria bem famosa na região é o rally. Em 1969 foi feito o Asian Highway Rally indo de Laos ao Singapura. O evento também passava pela Tailândia e Malásia. Contou com 155 veículos largando e 136 completando a prova. Há de se notar que neste período o Laos passava por perturbações devido à guerra em seu vizinho, o Vietnã. No ano seguinte, o rally passara por rotas diferentes do Irã até Bangladesh, passando pelo Afeganistão, Paquistão e Índia. Os dois últimos territórios com a tensão de um conflito iminente. Um rally impactante, segundo as fontes jornalísticas (pois em diferentes períodos de tempo era referenciado) foi Singapore Airlines London-Sidney Rally (a primeira edição disputada em 1968, embora não passasse em Singapura), patrocinado pela companhia aérea singapuriana em 1977. Este passava pela Índia e posteriormente na Malásia, alcançando também a Singapura. Tivera como vencedor o piloto escocês Andrew Cowan e o britânico Colin Malkin, para fechar o trio tínhamos Mike Broad como navegador. O carro vencedor foi um Mercedes-Benz 280E. Em 1993 foi disputado rally entre Singapura e Malásia de carros antigos dos anos 1910 e 1920, contando com 70 carros antigos.
Apesar do que as pessoas possam acreditar, o GP de Singapura não começou com a história mais recente da F1 no país em 2008. Entre 15 e 17/09/1961 foi disputado o 1º GP da Singapura, na verdade, com o nome de GP do Oriente. O evento fazia parte de uma campanha de turismo governamental “Visite Singapura – Ano do Oriente” planejada pelo ministro da cultura Sinnathamby Rajaratnam em conjunto com demais países orientais como Indonésia, Malásia, Vietnã, Taiwan e Coreia do Sul. A campanha reunia diversos setores da sociedade e planejava shows internacionais, exibições de rádio e televisão, festivais culturais e eventos esportivos.
A corrida foi organizada pelo ACS no circuito urbano de Thomson Road e o evento deu cerca de 100 mil espectadores. Era um circuito temporário com ruas aptas para corrida tanto de motos quanto de automóveis. Atualmente, Upper Thomson Road é uma das estradas principais próximo a Seletar, onde tinha uma base da Força Aérea Real britânica (Royal Air Force). Algumas empresas de vendas de carros, como a Eastern Autos, aproveitar-se-iam do crescimento automobilístico na região para adquirirem carros considerados exóticos (Aston Martin, Lola e Lotus principalmente). Isto seria importante por alguns motivos: os carros seriam utilizados nas competições regionais e, no caso da Eastern Autos, o dono era David Chan e seu sobrinho Chan Lye Choon seria uma das estrelas do automobilismo singapuriano do período, vencedor do Grande Prêmio de Macau de 1958 e do Grande Prêmio de Johor, em 1961. Não somente de nativos, mas o ACS convidou também pilotos reconhecidos na Europa e Ásia naquele período e ofereceu prêmios de 1000 dólares ao vencedor, além de troféus tanto para vencedores nos carros quanto nas motos.
Ao longo do fim de semana ocorreram diversas corridas, tanto de motos quanto de automóveis. A corrida não era regulamentada pela Federação Internacional de Automobilismo (FIA) no período e acontecia com as regras da F2 australiana e Fórmula Libre (com diversos carros de categorias diferentes correndo juntos). O evento foi disputado em baterias: 7 corridas no primeiro dia (3 de motos, 2 de carros de motores diferentes, 1 de carros antigos e 1 de carros de salão/turismo) e 2 corridas no segundo dia (1 de motos e outra de carros). A vitória nas motos ficou com o britânico Chris Proffitt-White, conduzindo um Honda. Já nos carros, o vencedor foi o britânico Ian Barnwell, pilotando um Aston Martin DB3S, embora o malaio Saw Kim Thiat tenha liderado boa parte da corrida com sua Lotus-Climax 11, e caído nas tabelas devido a problemas no carro. Outros pilotos importantes do contexto oriental encontravam-se na corrida, como: “Fatso” Yong Nam Kee (dirigindo um Volvo naquele período, e vencedor do GP da Malásia de 1962); Rodney Seow (também dirigindo um Volvo, e vencedor do GP da Singapura de 1967 e do GP de Selangor do mesmo ano, o VI Tunku Abdul Rahman Throphy) e Lim Peng Han (filho de Lim Boon Keng, intelectual chinês ativo nos anos 1920, apoiador da República nacionalista chinesa de Sun Yat-Sen, dirigindo um Saab, empresa sueca).
Em 1962, o evento foi renomeado como GP da Malásia. Naquele período, Singapura fazia parte da Confederação Malaia, portanto ainda não era um país independente. O GP ganhou este nome para diferenciar-se do evento feito em Selangor. Também fora disputado em baterias, com predominância de corridas de motos. Entre os carros de Fórmula Júnior (categoria de acesso que permitia utilizar componentes mecânicos de automóveis de rua), a principal disputa foi entre os Lotus 22 e os Jaguar E-Type, tendo o último vitorioso com o piloto Yong Nam Kee. Dinâmica parecida teve o GP do ano seguinte, somente com a adição de outra construtora, a Mitsubishi (com os carros 600 cc). “Fatso” Young Nam Kee disputou a primeira posição durante a metade da corrida, mas foi superado pelo honconguês Albert Poon (vencedor do GP de Macau de 1964, além do GP da Malásia de 1965 e do GP de Selangor de 1968).
No ano de 1964, o GP da Singapura passa por uma fase de internacionalização e recebe diversos pilotos estrangeiros inscritos. Ficava cada vez mais nítido que havia uma vida automobilística entre a Europa e Austrália, e que passava por Singapura, Malásia, Macau e Japão. Entretanto, a corrida foi disputada no período de monções, contando com uma forte chuva e sendo interrompida na sétima volta após os 3 carros mais rápidos quebrarem e um acidente que vitimou um auxiliar de pista. Já no ano seguinte, em 1965, o país ficou independente da Malásia e o GP foi renomeado para GP de Singapura. Neste período, a corrida teve um caráter de participação mais nacionalista, sem a inscrição de muitos pilotos estrangeiros (somente os honcongueses Albert Poon e Steve Holland). Estima-se que o governo da Singapura estivesse com pouco interesse de manter evento de alta publicidade devido ao confronto com a Indonésia (os “Konfrontasi” que termina em 1966 com a queda do presidente indonésio Sukarno).
O grande prêmio retorna com potência no ano de 1966, tanto nas categorias disputantes quanto que pela primeira vez seria reconhecido pela FIA e ganharia status de grande prêmio internacional. Torna-se efetivamente a principal corrida do calendário local. Os singapurianos dominariam 2 das 4 corridas do fim de semana, vencendo uma bateria de corridas de carros esportivos e gran turismo, além da corrida de carros de fórmula, ambos com Lee Han Seng (na primeira pilotando um Lotus-Ford Twim Cam e na segunda um Lotus 22). Outros vencedores do fim de semana foram Albert Poon, vencendo uma bateria de corridas de carros esportivos e gran turismo (com um Lotus Cortina 1500) e o japonês Mitsuo Ito, pela categoria de motos (com uma Suzuki 125 cc). Não demoraria muito para que o GP voltasse a ter seu caráter internacional, isto aconteceu a partir de 1968 e duraria até o fim das corridas em Thonsom Road em 1973, com predomínio dos pilotos australianos (Garrie Cooper, em 1968, Max Stewart, em 1972, e Vern Schuppan - piloto da F1, em 1973) e neozelandeses (Graeme Lawrence vencendo entre 1969-1971). Para além das competições europeias, estabelecia-se um circuito de competições asiáticas: GP de Macau + GP's Cingapura e Malásia + GP's australianos da Copa Tasmânia.
No período final do evento, entre 1972/1973, o GP ganha mais visibilidade da mídia internacional. Em 1972, o evento é mostrado como filme de meia hora em televisões na Ásia, Austrália, Nova Zelândia, Grã-Bretanha e Alemanha Ocidental. No ano seguinte, são veiculadas reportagens e transmissão ao vivo na Ásia, Austrália e Nova Zelândia. O formato do GP muda e passa a contar com corrida única de 50 voltas. 
O GP de Singapura é interrompido em 1973 devido à alguns motivos. Entre eles, a falta de apoio econômico do governo ao evento. Neste período o país sofre com alguns reflexos do choque de petróleo no mesmo ano e com a necessidade de afastar a crise econômica e o desemprego no país. Também devemos considerar a ascensão do GP de Macau como um evento diferenciado no oriente, tornando-se o principal extracalendário F1. Assim como a proposta de fazer um circuito permanente (que não saíra do papel), inclusive em 1976 o chefe da Royal Automobile Club Sir Clive Bossom visitou o Iran e Singapura para possível construção de circuito permanente, pois tinha como objetivo exportar motores de corrida e acessórios britânicos, aquecendo a indústria automobilística do país. No entanto, devemos ressaltar que um dos principais motivos era o perigo de morte ao longo das corridas. Ao longo de 11 anos foram 7 mortes. Entre elas as de maior destaque foram dos pilotos Lionel Chan (em 1962, singapuriano, apelidado de Speed King, sobrinho de Chan Lye Choon) ao bater na parte do grande Loop (parte mais rápida do circuito), perdendo o carro na ravina, e o suíço Joe Huber após bater seu carro em um poste.
CONTEXTO HISTÓRICO DO PAÍS
Singapura é um país insular que fica no sul da península da Malásia, no chamado sudeste asiático. Faz fronteira com a Malásia e é separado da Indonésia pelo estreito de Singapura. Ao longo da história fez parte do Império britânico, durante a expansão para Ásia no início do século XX e posteriormente foi invadido pelo Império japonês durante a 2ª guerra mundial, devido ao projeto de expansão de poder na Ásia continental e nas ilhas que cercavam o continente. Sempre bom lembrar que boa parte da guerra dos Estados Unidos neste conflito se dá no teatro de operações do sudeste asiático. Com a derrota do Japão, Singapura voltaria a ser colônia britânica, mas (assim como demais colônias na Ásia e África) ficaram insatisfeitas com a miséria que a guerra trouxe e lutou cada vez mais pela sua independência. O conflito também acontecia na região chamada atualmente de Malásia, e lá os comunistas chineses lutavam em guerrilha contra os britânicos da ilha. Gradualmente, tanto Malásia quanto Singapura foram ganhando mais autonomia dentro do Império britânico, até o momento que o Partido da Ação Popular (PAP) chega ao poder em Singapura, no ano de 1959. Singapura não é independente pois britânicos ainda controlavam relações externas, como assuntos militares e diplomáticos, mas era reconhecido como Estado.
Para um fortalecimento maior da região em questão econômica, a liderança do PAP, Lee Kuan Yew (1º ministro de Singapura) promove em 1962 um referendo no país para juntar-se à Federação Malaia. O projeto não anda muito a frente, apesar de aprovado. Em 1964 evidenciam-se as discordâncias entre as lideranças malaias e singapurianas acerca de questões políticas e econômicas. Singapura mantinha restrições em negociar com a Malásia e estouram conflitos raciais entre a população singapuriana majoritariamente chinesa, indonésia e malaia. Por isso, em agosto de 1965 o parlamento malaio vota para a expulsão de Singapura, é aprovada, e em 09/08/1965 o país torna-se uma República parlamentarista independente.
Após a independência, Singapura passaria por período de crescimento econômico com apoio empresarial. Se anteriormente a economia era baseada em manufaturados exportados para o exterior, aos poucos integraria os Tigres Asiáticos, conjunto de países que se industrializam com uma das maiores taxas de crescimento do mundo (Singapura, Coréia do Sul, Hong Kong e Taiwan). Sob aconselhamento do Banco Mundial, Singapura passaria por processo de substituição de importação, aumentando as tarifas para desestimular a importação e estimular desenvolvimento de indústria nacional. O principal investimento seria em indústrias de salário baixo e trabalho intensivo, como têxteis, para absorção da massa de desempregados. A industrialização foi financiada por investimentos estrangeiros, haja vista que Singapura não conseguia contar com relações comerciais regionais devido à alta barreira tarifária. Entre as principais táticas do governo para criar clima de investimento estrangeiro encontramos: a criação de incentivos fiscais e o endurecimento das leis trabalhistas (limitação do período de férias, aumento da jornada de trabalho, redução de pagamento para horas-extra, fim da negociação acerca entre trabalhador-patrão). Algumas concessões foram feitas aos trabalhadores: licença por motivos de saúde, pagamento na folga e aumento da contribuição do patrão no Fundo de Previdência Central e a expansão no sistema de poupança da aposentadoria.
Conjuntamente ao Fundo de Previdência Central funcionava o Conselho de Desenvolvimento habitacional. A finalidade era a construção de milhares de casas para as pessoas mais pobres e depois expansão para a classe média. Neste período do final dos anos 60/70 surgiram a construção de novas cidades. Tudo fazia parte de um projeto em que pessoas de diversas etnias eram integradas morando juntos, uma tentativa de superar diferença étnica e criar uma identidade singapuriana. 
Outra forma de tentar acelerar o desenvolvimento singapuriano foi a criação da Associação das Nações do Sudeste Asiático (ASEAN, em 1967), uma maneira de globalizar o país com objetivo comum de lutar por criação de desenvolvimento econômico comum e segurança regional, combatendo o tráfico de drogas e à pirataria no estreito de Melaka.
Uma das principais fontes de renda do país no período foi o petróleo. Ao aproveitar que a Grã-Bretanha anunciou que retiraria as bases do exército e navais em 3 anos, a partir de 1968, os britânicos deram concessões aos singapurianos e governo ganha controle de escolas, hospitais, portos, aeroportos, sistemas de defesa. Isto tudo seria utilizado para desenvolver sua economia (Ex: Base Naval de Sembawang torna-se polo das indústrias de reparo e construção de navios). Com o aumento da exploração do petróleo no sudeste asiático, Singapura aproveitaria estar entre os fornecedores de petróleo do oriente médio e os principais usuários na Ásia, assim como utilizaria de seu porto e infraestrutura para armazenar petróleo, enriquecer e se tornar um centro de petróleo na região. A demanda por petróleo e produtos derivado era grande devido à guerra do Vietnã (1969) e preocupações com a guerra árabe-israelense, além do trânsito no canal de Suez aumentar demanda de apoio naval na Ásia (transporte, construção e reparo). 


Politicamente, a independência pouco mudou para Singapura. A assembleia legislativa tornou-se um parlamento e apontou um chefe de Estado. Lee Kuan Yew continuou como 1º ministro e Yusof bin Ishk como presidente. O principal partido político era o PAP. Eles advogavam o socialismo, mas de forma diferente da pensada no ocidente. Acreditavam que o assistencialismo estatal minaria a ética de trabalho do cidadão e a família como unidade básica da sociedade (responsabilidade do bem-estar por todos os membros da família). Dentro do partido, existia o conflito entre a ala mais liberal (que liderava o partido) e a ala considerada comunista. A repressão acontecia não somente ao partido rival, o Barisan Sosialis (BS), contrário ao novo Estado independente, mas também à ala comunista do PAP. A democracia era vista como uma ferramenta dos comunistas e dos que advogavam divisões étnicas, prejudicando o desenvolvimento nacional. Era a ideia de que, diferentemente da mentalidade ocidental que valorizava demandas individualistas, a cultura oriental estaria mais voltada ao interesse coletivo e isto justificaria a repressão aos que fossem contrários ao desenvolvimento nacional. Neste aspecto, as acusações de abuso aos direitos humanos aconteciam regularmente e era difícil diferenciar o que era Estado e o que era PAP (inclusive, esta é uma das principais características de regimes totalitaristas). O partido controlava instâncias das vidas sociais das pessoas, comitês que deveriam ser independentes, controlava a mídia televisiva e reprimia a mídia escrita (considerada, à época, nas mãos dos comunistas). Utilizavam de leis do período colonial com o objetivo de cooptar ou intimidar oponentes políticos. Vale dizer que, até hoje o PAP é o partido dominante na política singapuriana.
Em 1990, Goh Chok Tong é escolhido como 1º ministro de Singapura (do PAP) e lança o plano “A próxima volta” (The Next Lap) buscando: Aumentar investimentos na educação para promover crescimento econômico; expandir força trabalhista aumentando a população via imigração e incentivando o aumento do núcleo familiar; e incentivar a autossuficiência, reduzindo os planos governamentais de bem-estar social. É um período de abrandamento da repressão à mídia não-política (vista como estrangeira), e de implementação de uma política de ideologia nacional singapuriana dos “Valores Compartilhados”: aqui seriam valorizados a nação acima da comunidade, assim como a sociedade acima de si; a valorização da família como unidade básica da sociedade; o apoio da comunidade e respeito pelo indivíduo; o estabelecimento de consenso e não do conflito; assim como a harmonia religiosa e racial. Os críticos viam esse programa como uma maneira de justificar o rígido controle político governamental na sociedade.
Discutiu-se também, politicamente, uma mudança no peso de importância em relação às nomeações da presidência. Em uma república parlamentarista, há um presidente que é o chefe de Estado, mas internamente, quem governo é o chefe do legislativo, o 1º ministro (chefe de governo). Dessa forma, em muitos casos o presidente torna-se um caso “meramente decorativo”. O objetivo era tornar os cargos da presidência elegíveis, ao invés de indicações de cargo de confiança, dessa forma evitando casos de corrupção, fosse de nepotismo ou gastos inadequados dos recursos públicos. Em 1993 é feita uma eleição, mas como o critério para participar era tão específico em suas qualificações, estimava-se que cerca de 400 pessoas no país, somente, poderiam se eleger. Por isso, o projeto é abandonado.
O país passa por algumas crises ao longo dos anos 90-2000. Entre elas, a crise econômica asiática, que começa na Tailândia, espalhando para Indonésia, Malásia e Singapura, além de outros países. Os singapurianos possuíam diversos investimentos nestes países e o enfraquecimento das moedas geraria uma crise forte no sistema econômico asiático. Durante este momento, o governo optou por uma política de corte de custos da máquina pública em determinados setores e de direitos trabalhistas, cortando salários de empregados públicos e reduzindo a contribuição do patrão no Fundo Previdenciário Central, mas continuou investindo em programas de educação que pudessem dar benefícios econômicos à longo prazo. A economia recuperar-se-ia em 2001, e o país aproveitaria para consolidar alianças com países emergentes e competidores globais para desenvolvimento das tendências industriais do novo milênio, principalmente na área de telecomunicações.
O ataque de 11 de setembro foi sentido na comunidade singapuriana pelo seguinte motivo: era o único país da região que não era muçulmano, bem desenvolvido, e temia que a chamada guerra ao terror levasse o país ao conflito com os grupos radicais dos vizinhos, principalmente o Jemaah Islamiyah, grupo indonésio que buscava a concretização de um Estado islâmico na região da Indonésia, sul de Filipinas e península malaia. Entre dezembro de 2001 e setembro de 2002, 36 cidadãos singapurianos foram presos acusados de planejar ataques terroristas, levando a preocupação sobre o antigo problema racial existente entre os diferentes grupos étnicos habitantes em Singapura e como estes povos ficariam integrados em conflitos eminentes com os países vizinhos.
A insegurança gerou impactos econômicos, por exemplo, com a redução do turismo, que também fora prejudicado pela crise da Síndrome Respiratória Aguda Severa (SARS), uma pneumonia atípica passa através da ingestão ou respiração de gotículas de saliva ou secreção nasal direta ou indiretamente de pessoa contaminada, matando 33 singapurianos. Outra preocupação foi a gripe aviária em 2004, e a possibilidade de infecção via turismo. A região também ficou estigmatizada neste período pelos tsunamis que afetaram partes da Indonésia e da Tailândia, prejudicando a economia regional do turismo.
Em 2004, ascende em Singapura Lee Hsien Loong (o filho de Lee Kuan Yew, e também do PAP) na posição de 1º ministro. Investiu em áreas como o turismo médico, reduzindo os custos de exames médicos e atraindo população que não consegue pagar tratamentos em países mais desenvolvidos. Outra área de investimento é o setor de educação no ensino superior, capitalizando centenas de milhares de estudantes estrangeiros para estudarem em Singapura. E, ainda mantiveram o turismo (buscando sair da crise financeira global de 2008), incentivando-o através da criação de resorts onde o jogo de apostas fosse permitido, a partir de 2010. Este caso é curioso pois, historicamente o governo do PAP era contrário à política de incentivo de jogos de apostas na sociedade singapuriana, criaria regras para que os cidadãos nativos não tivessem acesso tão fácil às áreas frequentadas pelos turistas, cobrando entradas para os resorts, ao passo que os estrangeiros entravam de graça, ou proibindo apostas no cartão de crédito para singapurianos.

HISTÓRIA DA F1 NO CIRCUITO
Na metade dos anos 90, encontramos matérias jornalísticas abordando Singapura como um destino possível da F1 caso os países europeus acirrassem a legislação antitabagista. Era coerente com a emergência do país como um dos tigres asiáticos, embora a F1 tenha preferido ir para a Malásia e China, quando da mudança.
Apesar da história do automobilismo ter suas raízes mais profundas no país, a história da F1 no país é mais recente e começa em 2007 quando Bernie Ecclestone (chefe da F1 no período), Ong Beng Seng (empreiteiro singapuriano) e o Conselho de Turismo singapuriano articulam-se para sediar um evento no país. O circuito seria desenhado pelo engenheiro Herman Tilke e utilizaria as vias públicas em Marina Bay. Seria o primeiro circuito que suportaria uma corrida noturna (posteriormente, em 2014, Bahrein faria o mesmo, mantendo a tradição até atualmente) inteiramente com luzes artificiais. Isto aconteceria não somente para vender uma outra dinâmica de corridas e imagens, mas também para manter o horário padrão de corridas das televisões europeias.
O GP de 2008 é marcante dentro da história da F1 (e principalmente da história do automobilismo brasileiro) devido ao escândalo Nelsinho Piquet – Fernando Alonso – Flávio Briatore. O caso ficou conhecido como “Singapuragate” e resulta da manipulação de resultados na corrida, arquitetado pelo chefe da equipe Renault, Flavio Briatore, adjunto do então diretor de engenharia de equipe Pat Symonds, em que ambos convenceram o piloto brasileiro Nelsinho Piquet a bater o seu carro Renault na 14ª volta do GP em um ponto difícil de retirada do carro (em troca de renovação de contrato), obrigando a colocação do carro de segurança (safety car). Isso beneficiaria seu companheiro de equipe, Fernando Alonso, que teria parado 2 voltas antes (volta 12) e relargaria na primeira posição, conquistando a vitória. No ano seguinte, Nelsinho Piquet denunciou a farsa nos tribunais do Conselho Mundial da FIA, e articulado com seu pai, Nelson Piquet, e o jornalista Reginaldo Leme, o caso veio à tona durante o GP da Bélgica de 2009. Após comprovado o acidente proposital, o ex-diretor Flavio Briatore foi banido dos esportes motores, o ex-diretor de engenharia Pat Symonds foi suspenso por 5 anos, o piloto brasileiro Nelsinho Piquet foi livrado de punição devido a sua colaboração com o caso (e posteriormente substituído por Romain Grosjean no meio da temporada de 2009, devido ao fraco desempenho em pista, partindo para novos rumos na NASCAR) e Fernando Alonso foi considerado inocente por desconhecer a farsa.
Em 2009, o circuito passou por modificações nas primeiras curvas para garantir uma saída de boxes mais segura. Em vez de sair na primeira curva (curva Sheares), uma linha conduz para a saída na curva 2. Também é feito um estreitamento da curva 1 para criar oportunidades de ultrapassagem e mexe-se da mesma forma na área de entrada do pitlane, para evitar colisões entre freadas fortes de quem entra no boxe e carros pegando a tangência na curva final, desta forma colocou-se uma linha de pits na penúltima curva. Outra mudança ocorre em 2013, na chicane “Singapore Sling”, eliminando-a devido aos riscos trazidos por ser uma chicane alta, podendo fazer com que o carro perca o controle e decole. O que era a chicane tornou-se uma curva rápida à esquerda. A última mudança ocorre nas curvas 11-12-13 (após a Singapore Sling, próximo ao Teatro Vitória, o museu das civilizações asiáticas e o hairpin Ponte Anderson), com o realinhamento da curva 11 à direita para diminuir a velocidade em próxima curva 12, pegando a linha esquerda na Anderson Bridge. O hairpin teve seu ângulo mais aberto para permitir mais ultrapassagens.
Os maiores vencedores da pista são Sebastian Vettel (2011-2013 e 2015) e Lewis Hamilton (2009,2014,2017-2018), ambos com 4 vitórias. Nenhum piloto brasileiro venceu o GP de Singapura, fosse a antiga ou a nova versão. O melhor resultado veio com Felipe Massa na 5ª posição, durante o GP de 2014, quando corria pela Williams. As equipes mais vencedoras são a Mercedes, com 4 vitórias (2014,2016-2018), seguido de Red Bull, com 3 vitórias (2011-2013) e Ferrari, com 2 vitórias (2010 e 2015).
Por ser um circuito de rua adaptado, não são muitas categorias que correm lá ao longo do ano. Entretanto, no fim de semana de F1 temos outros eventos automobilísticos adjuntos. Entre eles a Porsche Carrera Cup Ásia, que conta com os pilotos singapurianos: Yuey Tan e Graeme Dowset. A Ferrari Challenge completa o circuito de campeonatos que utilizam a pista.
Este circuito possui poucas curvas nomeadas. Desta forma, aproveitei que ele é urbano para nomeá-lo tanto com os nomes das ruas quanto de prédios públicos que possuem lá perto, reservei algumas curvas com o nome de pilotos históricos do país. A pista começa em uma reta na linha de largada que não é muito extensa até chegar a frenagem no complexo Sheares (curvas 1-2-3), primeiramente para a esquerda, depois para a direita, e finalizando na esquerda. Logo após caímos em uma pequena reta e na curva da Boulevard República (curva 4), pegando novamente uma pequena reta até a curva da Raffles Boulevard, à esquerda. Entramos na reta mais longa do circuito, cortada por uma curva suave à direita, a curva Chan Lye Choon (piloto singapuriano de destaque nas corridas dos anos 60, curva 6), acelerando até chegarmos na curva Memorial (curva 7), virando à direita, adentrando mais uma pequena reta até o hairpin Stanford Road (curva 8), virando à esquerda até chegarmos na curva Padang (curva 9). Aqui pegamos mais uma reta propícia à ultrapassagem (reta St. Andrews) e uma bela frenagem na Singapore Sling (curva 10), virando à esquerda e entrando no complexo de curvas do Teatro Vitória (curva 11) à direita, e depois a curva do Museu das civilizações asiáticas (curva 12) à esquerda, o setor acaba com o hairpin da Ponte Anderson (curva 13). Entramos em mais uma reta, a da Esplanada Drive, que acaba na curva Connaught (curva 14), de angulação fechada e reduz bastante a velocidade. Aqui entramos na Avenida Raffles, que possui 2 curvas, chamemos de “Primeira Raffles” (curva 15), curva suave à esquerda, e “Segunda Raffles” (curva 16), reduzindo bastante a velocidade e entrando à direita. Pegamos um miolo mais lento da pista com a curva Esplanada (curva 17) à direita, uma pequena reta até a curva da Baía (curva 18), à esquerda, passando por uma passarela, e virando na curva “Fatso” Young (curva 19, homenagem ao piloto singapuriano vencedor do GP da Malásia de 1962) à direita. Pegamos uma pequena reta até chegarmos à curva da Nova Ponte (curva 20) à direita, seguido da curva Rodney Seow (curva 21, homenagem ao piloto singapuriano vencedor do GP da Singapura de 1967) à esquerda. Entramos no último setor que possui uma reta e o complexo de curvas da Roda Gigante (curvas 22 e 23), ambas para a esquerda, cruzando a linha de chegada/largada.
O circuito de Marina Bay não possui histórico de mortes.
EXPECTATIVAS
Pelo fato do circuito de Marina Bay ter entrado no calendário da F1 em 2008 não e eu ter parado de assistir a categoria no final do mesmo ano (e voltado em 2017), posso dizer que sinto um apego a pista. Há uma certa beleza nas corridas noturnas e na visão arquitetônica futurista de Marina Bay que deixam o espetáculo bem interessante.
Acredito que veremos um embate entre Mercedes e Red Bull, com predomínio de Lewis Hamilton. Seria bacana ver mais uma prova consistente de Alexander Albon e desejo que Charles Leclerc possa estar combativo em pista, embora não tenha muita certeza sobre o desempenho que a Ferrari conseguirá imprimir na corrida. Deve-se destacar que, apesar da vitória no GP de Monza, caracterizado por ser um circuito de muitas retas, é notável a pressão que Lewis Hamilton conseguiu exercer no final e me pergunto se o resultado da corrida seria o mesmo com mais 2 ou 3 voltas.

Bibliografia:
ABSHIRE, Jean. The History of Singapore. The Greenwood Histories of the Modern Nations, 2011.

- Referências e fontes automobilísticas
https://www.motorsportmagazine.com/archive/article/february-1927/8/motoring-sportsmen
https://www.motorsportmagazine.com/archive/article/july-1927/29/recent-successes-overseas
https://www.motorsportmagazine.com/archive/article/may-1966/22/rally-review-east-african-safari
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https://mothership.sg/2017/09/spore-grand-prix-in-60s-70s-saw-crashes-deaths-and-then-it-was-discontinued/
https://www.racingcircuits.info/asia/singapore/marina-bay,-singapore.html#.XXqwl-KJJPb
http://www.enciclopediaf1.com.br/por_dentro_da_f1/cingapura
https://www.singaporegp.sg/en/event-info/event-schedule

Mapa do circuito de Thomson Road

Mapa do circuito de Marina Bay

Material de apoio histórico





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