TV: PORQUE A F1 PRECISA DO BRASIL


por Sergio Milani
Como escrevi algumas vezes, a F1 é um transatlântico em movimento. E é complicado dar um cavalo-de-pau em um mastodonte deste. Chase Carey, o CEO da FOM, tem sentido na pele a dificuldade.

A Liberty Media assumiu a F1 com grandes planos. Um deles era aumentar e renovar o público que acompanhava a categoria e assim, aumentar as receitas. Basicamente era mudar a abordagem de “criar dificuldades para vender facilidades” de Bernie Ecclestone, que apostava em cobrar valores altissimos e restringir acessos, dando a aura de "exclusividade".

As políticas foram sendo mudadas: O envolvimento nas redes sociais explodiu (de praticamente zero a uma das categorias esportivas com maior crescimento de público, embora ainda tenhamos vídeos no You Tube bloqueados a torto e a direito), eventos de rua foram feitos e o paddock se tornou mais acessível até certo ponto, mesmo que via virtual.

Mesmo assim, os efeitos dessa mudança não deram todos os frutos planejados. As receitas nao aumentaram como esperado, os anunciantes não vieram e os custos aumentaram, reduzindo o valor a ser rateado pelas equipes (que teve uma ligeira recuperaçao em relaçao a 2018, de acordo com a Liberty Media na divulgação dos resultados do primeiro quadrimestre deste ano).

Um dos aspectos cruciais encarados pela F1 no canpo das receitas na é a cobertura de TV. Boa parte dos acordos vigentes ainda foram fechados na gestão Bernie Ecclestone. O inglês fazia uma mudança para os canais por assinatura em detrimento das transmissões de TV aberta, exigindo mais e mais dinheiro para que as empresas pudessem passar a F1. Os ganhos aumentaram, mas o efeito colateral é que canais como a BBC (Reino Unido) e RAI(Itália) deixaram de passar a temporada integralmente inicialmente e depois cessaram totalmente.

A FOM vem aos poucos mudando a abordagem, mas sem perder de vista o caixa (os direitos de transmissão são uma parte considerável das receitas da F1). Dados publicados pela Forbes através do ótimo Christian Sylt (aliás, uma boa pedida para ficar por dentro da parte econômica da F1 é seguir o Formula Money no twitter - @FormulaMoney) dão conta que, somente com os direitos de transmissão, a F1 faturou cerca de US$ 603 milhões em 2018. Alguns países europeus estão retornando aos poucos a ter F1 na rede aberta, mas de forma limitada (França e Inglaterra só tem 4 GPs ao vivo por ano na grade, incluindo os locais). O foco tem sido expandir para mercados como Rússia e China (que passou a ter transmissao em TV aberta no ano passado). E manter um vital: o Brasil.

Embora tenha indicado que o futuro da transmissão da F1 resida em plataformas de streaming em apresentação feita mês passado (incluindo a F1 TV), Chase Carey tem contratos de TV aberta importantes vencendo no próximo ano. Entre eles, o da TV Globo, que garante uma audiência estimada de 115 milhões de telespectadores, segundo a própria categoria, garantindo o posto de primeiro lugar em público no mundo (Em audiência acumulada, a F1 alcançou o número de 1,7 bilhão de telespectadores). 

Isso dá um peso para que a Globo consiga negociar melhores condições. Afinal de contas, um mercado desse não se joga fora tão fácil e tem apresentado melhora nos últimos anos (a F1 diz que a audiência ano passado aumentou 20% em relação a 2017). A Liberty Media vem sendo fustigada por seus acionistas para aumentar as receitas, mas não pode também matar “a galinha dos ovos de ouro”. Prova disso vem sendo a renovaçao de contratos com is promotores de GPs.

Muitos questionam a qualidade da transmissão e a última grita tem sido em relação ao corte da transmissão do pódio ao final da corrida. Neste ano, a emissora tem colocado no seu portal globoesporte.com as imagens do pré-corrida uma hora antes da corrida, a prova em si e ainda fica mais uma hora depois, mostrando o pódio e comentando o que aconteceu (coisa inimaginável na época de Ecclestone). Sem contar a já tradicional transmissão dos treinos livres na Sportv (canal por assinatura do grupo Globo).

Muitos defendem que as transmissões sigam logo para a TV fechada para que se tivesse um tratamento diferenciado. Entretanto, o alcance de audiência diminuiria drasticamente, perdendo o apelo ao grande publico e sem garantia efetiva de um “aumento de qualidade” das transmissões. Pode se questionar muita coisa sobre a Globo. Mas ela conseguiu, de algum jeito e motivada pela existência de brasileiros vencedores em um período de 30 anos, fazer com que a F1 caísse no gosto do brasileiro. Voltar aos níveis anteriores, talvez somente se tivemos pilotos em condições de disputar vitórias. Mas há um público consolidado e, principalmente, apaixonado e de bom poder aquisitivo. Isso justifica a F1 ser uma das principais cotas publicitárias da TV brasileira.

Algumas fontes que conhecem o processo dão conta que a renovação do contrato, que vence no próximo ano, está bem encaminhada e mantém o formato atual. Alem dos valores, um dos pontos pendentes é a plataforma F1TV que a FOM está tentando promover e que por força do contrato em vigor, não pode ser totalmente disponibilizada ao público brasileiro (atualmente, conseguimos ter acesso ao acervo integral das corridas a partir de 1981, com som ambiente e os resumos das provas, além de programas que estão disponíveis no canal oficial da categoria no You Tube).

Este é um dos motivos que fazem a F1 considerar o Brasil estratégico e fazer questão de sediar uma etapa aqui. Claro que o fato de ser a principal economia da América Latina ajuda. Mas não se pode deixar um público deste à deriva. Americano pode ser muita coisa, mas ser bobo e rasgar dinheiro, isso ele não faz mesmo. Hoje, a F1 precisa mais do Brasil do que o Brasil da F1.


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