EVOLUÇAO NA CONTINUIDADE (OU PORQUE A HAAS MANTEVE SUA DUPLA)


por Sergio Milani
Quem disse que uma permanência não pode ser uma surpresa? O anúncio feito mais cedo pela Haas da manutenção de sua atual dupla de pilotos, Kevin Magnussen e Romain Grosjean, para 2020, pegou muita gente desprevenida, embora esta possibilidade fosse considerável.
Tal decisão levou boa parte do público a querer bater em Gunther Steiner, chefe da equipe, com um gato morto até miar. Afinal de contas, vimos os dois aprontando ao longo do ano e não foram poucas vezes as demonstrações de raiva e insatisfação do ítalo-alemão. O franco-suiço estava na mira e a escolha de Nico Hulkemberg para um dos postos era dada como certa (eu incluso). 
Mas o que poderia levar a Haas a permanecer com a sua dupla, especialmente Grosjean? Podemos abrir algumas linhas de raciocínio e assumir o posto de “advogado do diabo” para ajudar a entender a decisão:
- Benefício da dúvida: Não é de hoje que a Haas diz que não entende o que acontece de errado com o VF-19. Ao longo da temporada, os carros se caracterizaram por ter desempenhos razoáveis em treinos, mas se afundarem nas corridas. Tanto que antes das férias, reverteram o carro para o ponto do início da temporada para fazer comparações.
Diante desde quadro, não poderia se descarregar toda a culpa nos pilotos. Steiner deu uma declaração mais cedo dizendo que a culpa é do carro. E que não adiantaria trazer gente de fora para ajudar a entender e buscar a evolução. Desta forma, não adianta fazer omelete sem ovos. Embora possa se questionar se os pilotos não podem interferir efetivamente neste processo de desenvolvimento, há limites para tal. Na criticidade atual dos carros, os sensores e computadores acabam sobrepujando bastante a palavra de quem comanda. Mas um piloto de fora teria condições de comparar a evolução
- Finanças: Embora Gene Haas seja podre de rico, dinheiro não aceita desaforo. Embora estime que o orçamento da equipe seja o menor da categoria (“somente” US$ 150 milhões), os americanos terão, em princípio, que enfiar a mão no bolso com mais intensidade para o próximo ano por conta da piora da posição no campeonato, impactando no valor de premiação, e a perda do patrocinador master.
Querendo ou não, Hulkemberg tem um bom nível salarial e não estava claro se aceitaria uma possível redução. Não ficou claro se a Haas chegou a fazer uma proposta firme para que o alemão pudesse ir para as hostes americanas. Hoje, Magnussen tem a cobertura da rede de vestuário Jack & Jones e Grosjean é algo que já se conhece.  Em um quadro deste, a manutenção faz sentido.
Abrindo um parêntese: o perfil da Rich Energy, ex-patrocinador da equipe, declarou que a Haas estaria negociando para ser vendida a investidores sauditas. Será?
- Estabilidade: Em um momento em que o foco principal das equipes em 2020 será o carro dentro das regras de 2021, estabilidade é importante. Grosjean está na equipe desde a primeira temporada e conhece bem tudo e a todos. 
Grosjean leva paulada por demais. Algumas vezes até merecidamente. Mas é melhor do que pensam. Uma renovação talvez fosse saudável, ainda mais quando se vê pilotos americanos de qualidade em condições de preencher este posto. Mas não vejo Hulkemberg em condição tão superior à Grosejan para assumir este posto. Inegável que é um piloto de altos e baixos e precisa sim ver a questão mental. Mas a Haas decidiu dar um voto de confiança.
Pode até chamar a Haas de covarde e de pensar pequeno em não mudar. Mas razões para permanecer existiam, são palpáveis e compreensíveis. Jogar pedra é muito fácil. Mas ninguém se coloca na situação para tentar entender. Neste ponto, eu entendo a posição de Gunther Steiner e Gene Haas, mesmo sem concordar. Usando uma frase cunhada em uma campanha eleitoral passada, a manutenção de Grosjean foi a escolha pela “Evolução na Continuidade”. Mas o conservadorismo pode cobrar a conta depois. Aguardemos.

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Por questões particulares, este protótipo de colunista vai dar seus pitacos neste espaço de forma mais espaçada para alegria de alguns e tristeza de outros. Espero em breve voltar a ser mais constante aqui. Obrigado pela atenção e pelos puxões de orelha.



Comments

  1. A Haas está corretíssima. Quando um regulamento como 2021 promete, a Haas está desde já se adequando para tal momento.
    Pelo menos é o que tende a acontecer, com as declarações de membros da equipe, e com essas renovações. Mas 2021 será a prova dos nove, até lá, muito provável o resultados dos negócios com os árabes já tenha saído, e vamos ver...

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    1. Exato. A logica deles eh correta por varios aspectos, embora conservadora.

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  2. Gostei da visão de fazer o "advogado do diabo" rs

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