ENFIM, DEU LECLERC


por Felipe Quintella
O GP da Bélgica de 2019 resultou em dois importantes marcos nessa temporada. Um foi a primeira vitória da carreira de Charles Leclerc na Fórmula 1. O outro foi a primeira vitória de sua equipe Ferrari no ano. Em um ano dominado pela Mercedes, com pitadas de Max Verstappen, isso era para ser comemorado pelo fã da categoria. Contudo, esse final de semana não teve um clima favorável para grandes comemorações no pódio. A morte do promissor piloto francês Anthoine Hubert, em um terrível acidente na corrida da Fórmula 2 no sábado, foi o motivo da festa comedida.

Hubert era amigo próximo de Leclerc, ambos integrantes de uma das mais novas gerações de pilotos a chegar nos altos escalões do automobilismo. E, de alguma forma, esse fator engrandece a primeira vitória do monegasco. Assim como fez em 2017, quando venceu em Baku logo depois de perder o pai, Charles deixou sua dor para fora do cockpit. Largando da pole, fez seu trabalho bem feito, manteve o carro em bom estado e se aproveitou da vantagem que o carro vermelho tinha em Spa.

Contudo, toda essa determinação poderia muito bem ter terminado em outra bola na trave para Leclerc. Em outras duas oportunidades, no Bahrein e na Áustria, o jovem piloto dominou as provas, apenas para ser superado no final. Em Spa o roteiro poderia ter se repetido, não fosse a estratégia da Ferrari. Sim, isso mesmo. A Ferrari tinha o carro mais veloz do final de semana, isso era claro. Tanto é que dominou todos os treinos livres e fez a primeira fila na classificação. Mas quem acompanhou o time italiano nos últimos anos sabe que essa vantagem poderia ser jogada fora com uma simples resposta impulsiva a um blefe da Mercedes.

Mas isso não aconteceu. Pelo contrário, a equipe funcionou como não funcionava já há algum tempo. As paradas nos pits foram certeiras, e os pilotos não cometeram erros graves. Porém, nem a vantagem nem o trabalho da equipe foram suficientes para derrotar a Mercedes. Como preço a pagar por ter o carro mais rápido, a Ferrari sofreu com o desgaste de pneus. E o jeito que ela resolveu esse problema pode não ser muito popular, mas foi efetivo. 

Esse jeito foi a tradicional ordem de equipe. Motivada por uma decisão estritamente racional e justificada dessa vez. Uma decisão que aceitou uma condição para a vitória: não havia como garantir uma dobradinha. Como Vettel havia parado mais cedo, seus pneus começaram a reclamar também mais cedo. Depois das paradas, o alemão liderava, com Leclerc em sua cola. 

O monegasco era bem mais rápido, e teria que passar pelo companheiro para poder garantir a ponta contra Hamilton, que também vinha forte. Dessa forma, a ordem foi dada. Charles abriu caminho e Vettel ficou para brigar com o inglês. Eventualmente foi ultrapassado, mas retardou o pentacampeão por tempo suficiente para que ele não conseguisse alcançar e passar Leclerc até o final da prova. 

Com certeza seria mais empolgante ver Leclerc partir para cima de Vettel. Isso daria um bom material para ficarmos comparando os dois. Porém, da perspectiva da equipe que não havia vencido no ano até agora, a melhor escolha foi mandar o garoto passar o veterano e resolver o problema. Depois, Sebastian compareceu à celebração da vitória de Charles, onde recebeu o devido agradecimento por parte do companheiro e da equipe. 

Se a Ferrari vencer apenas essa prova no ano, está de bom tamanho, considerando as circunstancias do campeonato. Fato é que é bom para a categoria ter a equipe trabalhando bem como trabalhou na Bélgica, potencializando o que tinha a sua disposição e passando longe da avacalhação italiana.

Com Monza pela frente, a Ferrari tem condições de brigar pela vitória em casa. Contudo, depois disso será difícil segurar Hamilton como Vettel fez ontem na pista. O hexa campeonato do britânico só não é certeza porque não estamos falando de matemática. Mas virá. Assim como sabíamos que a primeira vitória de Leclerc viria. Só não sabíamos que em um dia tão triste para todo o esporte. 


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