EM SPA, A FERRARI PODE SER CHAMADA DE EQUIPE



por Sergio Milani
Desta vez, não foi blefe de Toto Wolff. Dados os prognósticos, a Ferrari finalmemte conseguiu sua primeira vitória no campeonato e consequentemente, de Charles Leclerc. O jejum de quase um ano foi quebrado (Kimi Raikkonen, nos Estados Unidos).

Quem acompanha a categoria sabia que Spa seria uma das pistas em que o SF90 conseguiria mostrar a sua total capacidade. A filosofia de investir em um projeto que privilegia a velocidade e a força de motor em prol de apoio aerodinâmico deu resultado.

Mas nao basta só ter um carro sólido. Era preciso que o box funcionasse direito. Nos últimos tempos, a equipe de estratégia comandada por Iñaki Rueda tem se caracterizado por decisões equibocadas e o gabinete técnico recebendo diversas críticas por não conseguir fazer o carro desenvolver satisfatoriamente, fazendo que os italianos brigassem mais com a Red Bull do que com a Mercedes.

Mattia Binotto terminou a primeira parte da temporada extremamente pressionado. Sua liderança foi extremamente questionada e nao foi pouca gente que colocou na mesa a pergunta: qual é o papel de Binotto? Chefe de equipe ou Diretor Técnico?

O fato é que Maranello veio navegando em mares revoltos. E se preparou para a volta. A Ferrari que apareceu na volta das férias parecia calma e, principalmente, sabendo o que fazer.

Desde os treinos, ficou claro que a SF90 seria o carro a ser batido. E chamou a atenção a diferença estabelecida por Leclerc na qualificação, lançando sete décimos de diferença sob as Mercedes. Para Hamilton & Cia, a visão que se tinha era o trunfo da melhor gestao de pneus. A estratégia seria a principal arma. Ou torcer para que o acaso funcionasse a seu favor.

O domingo chegou, com todo o peso dos acontecimentos do dia anterior. Havia a ameaça de chuva rondando e a temperatura caiu bastante em relaçao aos treinos. Mas mesmo assim, a Ferrari ficava como a favorita.

O fato se impôs com a largada perfeita de Leclerc e a rápida recuperação de Vetel sob Hamilton, se colocando em segundo. E era impressionante a velocidade da SF90: mesmo com Hamilton usando o DRS, a queda de tempo era muito pequena.

Cabe registrar que os italianos usaram a segunda versao de sua PU no fim de semana (Haas e Alfa usaram a versão mais nova). Enquanto a Mercedes estreou a nova versão da PU, com alguns analistas dizendo que poderia estar "amarrada" por conta das falhas de Perez e Kubica.

O blefe da Mercedes parecia entrar mais uma vez entrar em ação. A equipe foi para o box e os italianos chamaram Vettel na décima sexta volta. O objetivo sim era evitar que a Mercedes ganhasse as posições quando no final das paradas.

Mas a Ferrari resolveu não seguir o script que havia feito até agora. Ficou claro que o foco era Leclerc. E Vettel cumpriu bem o papel de escudeiro, fazendo a estrategia funcionar. Seja andando rápido quando na volta da pista e depois segurando o avanço de Lewis Hamilton, que vinha com um carro com pneus seis voltas mais novos. Nao esquecendo do crítico problema de pneus, que o levou a fazer uma segunda parada. Tentou tirar a duferença, mas era tarde demais. Foi uma atuaçao pensando no todo.

Leclerc teve a chance de andar de "cara pro vento" e conseguiu gerir o consumo de pneus, que acabou sendo critico nas últimas voltas. O grande diferencial foi o desempenho no primeiro trecho da pista, quando conseguia usar a potência da PU e compensar o que perdia especialmente no segundo setor.

A Ferrari fez um verdadeiro trabalho de equipe neste fim de semana. Serviu para tirar a pressão sobre os ombros do monegasgo, que já vinha "batendo na trave" para obter sua primeira vitória (terceiro vencedor mais jovem da história da categoria), e de Mattia Binotto, que ganha espaço para se consolidar de fato no comando e aprofundar uma reestruturação técnica iniciada alguns meses atrás.

Por outro lado, o sucesso de Spa aumenta o interesse do publico italiano, que deve ir em peso para Monza, inclusive ajudando a melhorar a situaçao financeira dos organizadores e confirmar a permanencia do GP. É um consenso que a vitoria na Italia deve ficar com os carros vermelhos.

O triunfo nao deve fazer a Ferrari dormir sobre os louros. A busca por mais pressao aerodinâmica para o SF90 deve prosseguir e garantir aos italianos um fim de temporada digno, além de fazer a base para um 2020 diferente.


Comments