DIREÇAO DE PROVAS NA F1: O NOVO XERIFE COMEÇA A DAR AS REGRAS


por Felipe Quintella e Sergio Milani
Enquanto a recente introdução do VAR no futebol acirrou a discussão sobre penalidades no esporte, a F1 2019 vai na mesma linha. Duas grandes polêmicas marcaram e decidiram dois Grandes Prêmios no ano. De um lado, o do Canadá, vencido na pista por Sebastian Vettel, mas onde o vencedor foi Lewis Hamilton. Ao tempo total de corrida do alemão foram somados cinco segundos de punição, o suficiente para custar a vitória.

Similarmente, tivemos o da Áustria, onde Max Verstappen venceu, sendo duro na disputa com Charles Leclerc, o que poderia render ao holandês uma punição. Isso não aconteceu (depois de 3 horas de decisão) e a vitória continuou com Max. 


Agora, depois de toda a discussão, a categoria parece ter acertado um tom quando se trata de punições. Charlie Whiting, o antigo diretor de prova, deixou, além de saudade, um estilo. O seu substituto, Michael Masi (o cara da foto desta matéria), que assumiu o posto às vésperas do GP da Austrália por conta da morte de Whiting, começa a também construir um caminho próprio. 


Masi, um australiano com experiência em diversas categorias, incluindo a Supercars local, um dos principais campeonatos de Turismo do mundo e conta com uma abordagem, digamos, “liberal” para as ações de pista, já era responsável pelas provas da F2 e vinha sendo trabalhado pelo próprio Whiting para assumir seu posto. Aparentemente, sua missão inicial foi assumir o controle e fazer o barco seguir. A medida em que as coisas se desenvolvessem, começaria a dar o seu toque. O que passou a ser necessário.


Logo após a grande discussão do Canadá, onde Emanuele Pirro, o “piloto comissário”, levou uma saraivada de críticas, a abordagem começou a mudar. Na Áustria, voltou a entrar em ação o “deixem eles correr” (“Let them race”). A partir daí, uma ação mais assertiva na condução das corridas teve início. E deixar as decisões mais claras para todos.


Uma das principais mudanças é o retorno da bandeira preta e branca, de advertência, tão conhecida para quem anda de kart de aluguel. O retorno oficial se deu no último GP da Bélgica, quando foi sinalizada para Pierre Gasly por movimentação defensiva durante frenagem. Antes disso, a última aparição havia sido na Malásia, em 2010. Naquela ocasião, a bandeira advertiu Hamilton em uma disputa de posição com Vitaly Petrov. Nesse meio tempo, a preta e branca caiu em desuso, basicamente devido à preferência de Whting por enviar advertências por rádio. Em explicação após a corrida, Masi explicou que estava trazendo a bandeira de volta para indicar como uma espécie de “cartão amarelo” para os pilotos, antes de partir para punições mais pesadas. 


Um exemplo desta filosofia aconteceu neste GP da Itália, vencido pelo praticamente dono da casa Charles Leclerc. A bandeira de advertência foi acionada novamente, justamente para o tão elogiado vencedor. Durante a dura disputa com Hamilton na volta 23, o piloto da Ferrari se colocou no meio da pista antes da freada para a Variante Della Roggia. Com isso, o britânico ficou sem espaço e saiu da pista. Obviamente, o atual campeão gostaria de ver o garoto punido, o que com quase toda certeza deixaria a vitória para a Mercedes. Porém, a decisão dos comissários foi de advertir Leclerc, deixando clara a possibilidade de que, se ele fizesse aquilo novamente, a punição viria.


Isso foi a medida exata para o tamanho do ocorrido. Hamilton foi sim prejudicado, e Leclerc passou um pouco da linha da esportividade no lance. Mas nem Hamilton foi tão prejudicado a ponto de abandonar a prova e nem Leclerc foi desonesto a ponto de jogar o carro para cima do adversário. Basicamente, como no futebol, o juiz foi até dois jogadores que estão se desentendendo e refirmou sua autoridade. Todo esse raciocínio é válido, claro, se acreditarmos que a máfia italiana não estava presente na cabine dos comissários...


Outro lance interessante foi o que envolveu Sebastian Vettel e Lance Stroll. Em mais uma rodada, o tetracampeão escapou do traçado na Variante Ascari. Depois que recuperou o controle do carro, ele tentou voltar para a pista, sem nem perceber o carro da Racing Point. Com isso, a Ferrari quase se chocou com Stroll, que também saiu da pista, por sua vez entrando no caminho de Gasly. Ou seja: dupla barbeiragem, daquelas que não se espera ver em de um grid de F1. A resposta dos comissários foi a mais óbvia: punir os dois. Vettel teve que cumprir um stop and go de dez segundos, enquanto o canadense levou um drive-through


Mais tarde, a FIA justificou a decisão de dar duas punições diferentes para os dois. Vettel foi o mais duramente punido por ter, além de atrapalhado Stroll, causado uma colisão. Foi o certo a se fazer, além de ter demonstrado realmente o que significa retornar de forma perigosa para a pista. 


Nesta mesma linha, tivemos a “escapada” de Leclerc no final da reta, passando pela chicane e voltando ainda na frente de Hamilton. Algo pelo qual Vettel foi punido de forma exagerada no Canadá, perdendo a primeira posição. Um certo burburinho foi causado pela decisão de nada ter sido feito, em uma situação bem semelhante. Seria um mea culpa?  Já não bastando o caso do benefício da dúvida à Ferrari número 5 ao não se ter certeza se passou dos limites da pista em sua volta rápida no Q3...


A corrida também teve outros lances de destaque, como a saída de pista de Alexander Albon durante disputa com Carlos Sainz. Não foi punido, mas com certeza levou um susto suficiente para tomar mais cuidado na próxima volta. E claro, tivemos também uma curiosa punição para Kimi Raikkonen: um stop and go de dez segundos por ter largado dos boxes com os pneus errados. Dessa vez, parece que a bebedeira ficou por conta da Alfa Romeo, que esqueceu que a regra dos pneus do Q2 também se aplica a quem vai para o Q3, mesmo sem treinar....


Como vovó dizia, todo cozinheiro tem uma visão diferente para uma mesma receita. Michael Masi está dando o seu toque à F1. Talvez lembrando de seus tempos australianos, não quer punir qualquer coisa, deixando que os pilotos decidam na pista. Mas deixando claro que há gente olhando e em busca de um padrão. E deixando claro para o público os critérios e o que está sendo feito. Afinal de contas, são poucos os que tem paciência de ver o que diz o regulamento e não se sabe em detalhes o que é discutido no encontro entre a direção de prova e os pilotos. Até aqui, o caldo não tem desandado...Mas temos um novo xerife na cidade.




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