TRAGÉDIA NA F2: VIDA E MORTE DE ANTHOINE HUBERT


por Sergio Milani

Muitas vezes, esquecemos que o risco ronda a competição de velocidade. Alguns acreditam que uma parte do público assiste às corridas esperando pelos acidentes, pela tragédia. Mas aguardando para que não haja nada mais grave. 

Entretanto, embora possa ser reduzido, o risco não pode ser excluído. Com isso, sempre há a possibilidade da morte. E a "dama de preto" apareceu hoje na corrida de F2 em Spa-Francorchamps. O francês Anthoine Hubert, 22 anos, da Arden, não resistiu aos efeitos de uma dupla batida no início da segunda volta da primeira etapa do final de semana e veio a falecer.

Na Eau Rouge, Giuliano Alesi perdeu o controle de seu carro e levou Hubert a perder o controle e bateu forte na barreira de proteçao externa. Com o impacto, seu carro foi para o meio da pista e foi acertado em cheio por Jose Manuel Correa, numa tipica batida em "T". Corrida interrompida na hora e cancelada. Ali ja se sabia que a coisa era séria. Após momentos de informação escassa, veio a noticia que Correa e Hubert estavam indo para atendimento. E algumas horas depois, a notícia que ninguém queria ouvir, foi dada: Anthoine Hubert nao havia resistido aos ferimentos e morreu.

Hubert era um dos principais nomes da F2 deste ano, embora não tivesse um desempenho tão chamativo (8º na classificação geral). Em seu primeiro ano na categoria e em uma equipe considerada mediana, o francês conseguiu 2 vitórias (Monaco e França) e deixava a impressão de um piloto com grande possibilidades.

Sua carreira até aqui dava mostras que poderia sim confirmar estas expectativas. No kart, começou aos 10 anos e  conseguiu por dois anos consecutivos (2011 e 2012) o terceiro lugar nos mundiais Sub-18. Em 2013, fez sua estréia em monopostos, tomando parte no campeonato francês de F4 e o vencendo, obtendo 11 vitórias em 21 corridas.

No ano seguinte, subiu para a Eurocup da Formula Renault e na Formula Renault 2.0, com uma atuação bem discreta (chegou em 15º lugar no certame vencido por Nick DeVries). Manteve-se nas mesmas categorias em 2015 e obteve a 5ª posição no certame europeu. Se sentiu em condições e subiu para o Campeonato Europeu de F3 em 2016. Conseguiu uma vitória em 30 etapas e chegou em 8º na classificação geral. No fim do ano, obteve o 13º lugar no GP de Macau.

Hubert poderia ter prosseguido na F3, mas aceitou o convite da ART Motorsport para migrar para a GP3, uma das preliminares da F1. Não fez feio e chegou em 4º no final do ano. Sua atuação chamou a atenção e em 2018, a Renault o incluiu em seu programa de desenvolvimento de pilotos.

Neste ano, continuou na GP3 e obteve o título, correndo ainda pela ART. Em 18 etapas, conseguiu 2 vitórias e 9 pódios. Com isso, se cacifou para subir mais um degrau e foi para a F2.

Neste momento, não é hora de buscar culpados. É hora de juntar os cacos, lamber as feridas e seguir. A F2 suspendeu toda a programação para o restante do final de semana e todo o mundo do esporte a motor presta suas condolências.

Também devemos nos preocupar com José Manuel Correa, que acabou por acertar o carro de Hubert em cheio, sem qualquer opção de escape. Até o momento, as informações é que quebrou a perna e mais algumas pequenas sequelas. Mas ficará fora de perigo. Mas e a cabeça ? Como reagirá ao saber da morte de seu companheiro?

Esta não foi a primeira morte em pista. Esperamos que seja a última, embora seja algo praticamente impossível. Como dito, o risco não pode ser totalmente excluído. Podemos sim buscar carros mais resistentes, áreas de escape mais eficientes, novos métodos de atendimento, entre outros assuntos. Temos hoje condições extremamente melhores do que no passado. Mas quem entra no esporte a motor assume a responsabilidade. Pode parecer algo mórbido, mas há uma mistura de medo e fascínio nesta relação pilotos x perigo.

Antes de ser um piloto talentoso, Anthoine Hubert era um jovem. E pelos desígnios do destino, morreu fazendo o que mais gostava.Tal como outra esperança francesa : Jules Bianchi. E mesmo com a alma destroçada, o mundo do automobilismo usa o mesmo lema do showbiz: o show deve continuar. Vá com Deus, Anthoine.



Comments

  1. Parabéns Milani. Belíssimo texto

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  2. Milani, texto primoroso, infelizmente sobre uma fatalidade a qual todos nós pilotos estamos submetidos.

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    1. Obrigado. E infelizmente, nós aceitamos o risco quamdo entramos na pista. Seja em uma pista de indoor ou em um traçado profissional

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  3. Belas e francas palavras num momento que esse esporte ingrato novamente nos oferece reflexões. Parabéns, Sergio.

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  4. Excelentes palavras, Milani! É uma pena a partida tão cedo. Acompanhei a carreira dele recente, desde o ano passado, salvo engano. Achei que estava fazendo um trabalho muito bem feito na Arden, combativo e atacante! Poderia até estar enganado, mas acho que ele duelaria com Ocon (se a F1 fosse um local de acesso um tanto mais justo e democrático) pelo status de estrela francesa em uns 5 anos, na categoria principal.

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