PROGRAMAS DE DESENVOLVIMENTO DE PILOTOS: UM BEM OU UM MAL??


por Sergio Milani
Com o anúncio da mudança de Pierre Gasly por Alexander Albon na Red Bull, uma pergunta aparece no ar mais uma vez: a Red Bull precisa ser cruel assim? A pergunta correta que deve ser feita é sobre os programas de desenvolvimento de pilotos.

Isso não é algo totalmente novo. Na década de 60, tivemos a ELF montando um programa de revelação de pilotos franceses e deu vários frutos (Arnoux, Depailler e Prost são alguns). A Marlboro também teve algo do tipo (inclusive supervisão de James Hunt por algum tempo) na década de 80.

Mas a coisa começou a tomar um outro caminho no final da década de 90/início de 2000. As equipes começaram a fazer seus próprios esquemas com a montagem dos times “junior” na F3000. E a McLaren foi mais além: apoiou pilotos desde o kart! Nessa aí apareceu um tal de Lewis Hamilton...

A Renault também veio com uma estratégia do tipo e tendo Briatore como capitão, desenvolveu pilotos como Mark Webber e Fernando Alonso. Posteriormente, a Ferrari estruturou o seu, tendo como início o trabalho feito com Felipe Massa. E a Red Bull veio também com o seu programa.

Fato é que os pilotos destes projetos amadurecem mais rápido em sua maioria e chegam mais preparados para as categorias maiores. Mas o processo de seleção acaba por ser extremamente agressivo. Muitos talentos acabam se perdendo no caminho por motivos vários. É quase um desenvolvimento em laboratório.

A Red Bull leva ao extremo este darwinismo. Dependendo de como você analise a questão, pode dizer que o sistema funciona, por mostrar pilotos vencedores como Max Verstappen. Mas também pode dizer que causa mais dano do que sucesso. Você teve um Kvyat destroçado, bem como Vergne, Felix da Costa, Alguersuari, entre outros que ficaram pelo caminho. O proprio Albon fez parte do projeto por um ano (2012) e foi descartado.

Sem contar que as equipes que tem programas deste tipo se vêem geralmente em dilemas: trazer um piloto de fora ou usar alguém de dentro? A Mercedes, que tem um programa razoavelmente novo, se vê nesta situação agora: Promove alguém (Ocon ou Russell) ou traz alguém de fora? (Verstappen). A Renault também se vê nesta situação, ainda mais que os pilotos atuais que estão em condições não são escolhas tão confiáveis assim (Sergey Sirotkin) e promessas que podem acontecer.

Com o passar do tempo, por conta das exigências econômicas e a complexidade que a categoria foi tomando, um piloto passou a ter dois caminhos para chegar à Fórmula 1: ter um senhor patrocínio ou fazer parte de algum destes programas de desenvolvimento. Talento por si só não basta.

E para fazer parte é praticamente como “vender a alma”. Os passos são controlados e a carreira é quase teleguiada. A Ferrari passou a fazer isso com a sua academia e Charles Leclerc é o exemplo mais recente, juntamente com Antonio Giovinazzi. Mick Schumacher é quem está na fila agora e Enzo Fittipaldi vem trabalhando para se habilitar para entrar no radar do “mundo Ferrari”, bem como Gianluca Petecof.

Mal ou bem, a Fórmula 1 antiga dava mais espaço para que estes jovens talentos chegassem e mostrassem serviço. Era quase um passo lógico: começar em uma equipe pequena e ir amadurecendo. Claro que tivemos os casos de fora da curva (Villeneuve, Piquet e Senna, só para ficar aqui). Se tivéssemos mais umas duas equipes, a pressão por vagas seria menor. E não perderíamos em qualidade, em princípio.

Mas quem disse que o mundo é justo? Sempre teremos endinheirados em prol de talentosos nos carros. Podemos chamar a Red Bull de “moedor de carne”? Sim! Mas estes programas de desenvolvimento não deixam de ser uma outra forma do crescimento do piloto na pista. Antes, este era mais intuitivo, mais natural. Atualmente, o processo acaba sendo mais intenso e científico. E mais cruel. Não existe almoço grátis. São somente novas formas em um mundo corporativo/esportivo para um velho processo: os mais fortes sobrevivem. 


Comments

  1. Excelentes as duas matérias de hoje sobre o assunto, Milani.

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  2. FIA devia proibir pelo bem da saúde do automobilismo. A maneira de agir dessas, equipes tiram o sonho de milhares de jovens. Vamos deixar o talento aflorar naturalmente.

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