ADEUS MR. PORSCHE


por Sergio Milani

Uma notícia que está sendo bem divulgada no exterior, mas não se está dando aparentemente a devida importância por estas bandas. Morreu domingo, aos 82 anos, Ferdinand Piech. Para muitos, não se liga o nome à pessoa. Mas a indústria automobilística – e de competição - deve muito a ele. Se você gosta de Porsche 917, Audi Quattro, Bugatti Veyron, Audi R8...agradeça a ele.
Neto de um tal de Ferdinand Porsche e sobrinho de Ferry Porsche, Ferdinand desde cedo foi “contaminado” pelo amor pelos automóveis. E durante as férias, era figura fácil na empresa da família. Não à toa, acabou se formando em engenharia mecânica pela Universidade de Zurique e entrou para as fileiras da Porsche em 1963.
Piech chegou quando a fábrica dava os últimos retoques no 911. E um detalhe que levantou foi sobre o sistema de lubrificação do motor 6 cilindros, pois era inadequado para competição. Tanto fez que o sistema foi mudado e permitiu à Porsche crescer em corridas e criar a aura em torno da marca.
Até 1972, quando mudou para a Audi, por força da proibição de que membros da família Porsche não poderiam mais fazer parte da empresa, Piech, como chefe do departamento técnico, participou diretamente do desenvolvimento dos modelos 907, 908 e o inigualável 917. Sobre este último carro, ele convenceu seu tio Ferry a gastar uma fortuna para construir 25 carros, que era o mínimo exigido pelo regulamento para que pudesse tomar parte oficialmente nos campeonatos. E no dia 1º de abril de 1969, pessoalmente levou os delegados da FISA (atual FIA) para inspecionar os carros. E conseguiu vencer Le Mans em 71 e 72, além dos campeonatos mundiais.
Na Audi, foi uma peça importante para o desenvolvimento da marca. Ao chegar, ajudou a desenvolver os modelos 80 e 100, que deram origem aos VW Polo, Golf e Passat. Além disso, foi um dos pais do motor de 5 cilindros e do Audi Quattro, que varreu a concorrência nos Rallies na década de 80. De uma marca de carros simples, tornou-se significado de alta competência em engenharia.
Seu trabalho na área técnica, a otima gestão na Audi e o sobrenome o cacifaram para assumir o posto de todo poderoso da Volkswagen em 1993. Naquele momento, a gigante alemã se via perdida com uma linha de produtos que não agradava ao público, problemas de qualidade e uma considerável capacidade ociosa. Muitos diziam que, àquela altura, a empresa faliria em 3 meses.
Piech enfrentou o problema de frente, comprando briga com os poderosos sindicatos alemães. Após duras negociações, os convenceu a ter semanas de trabalho de 4 dias e salários controlados em troca de manutenção de emprego. Investiu em engenharia e ainda terminou de digerir a aquisição da Seat e da Skoda, feitas no início da década.
Sua decisão de otimizar os lançamentos, com várias marcas usando a mesma plataforma, entre outras, deram resultado e a marca conseguiu se redimir, se transformando em referência e a recolocando como uma das gigantes da área. Tanto que se deu ao luxo de adquirir marcas como Bentley, Bugatti e Lamborghini (o que não deixa de ser paradoxal para uma empresa que tem o nome de “carro do povo”).
No automobilismo, incentivou a volta da Volkswagen, aumentou a participação da Audi em turismo e protótipos (ele apoiou muito o "ataque diesel" em 2006, culminando na vitória em Le Mans) e trouxe inclusive a Bentley de volta à Le Mans, onde a marca inglesa venceu a prova em 2003. Foi um dos idealizadores de um possível projeto de Fórmula 1 (seu projeto final na faculdade foi sobre o desenvolvimento de um carro para a categoria), mas não teve força para concretizar (e é falado até hoje).
Deixou o posto de CEO em 2002, ficando no Conselho de Administração até 2015. Mesmo assim, foi um dos arquitetos da incorporação da Porsche ao grupo VW e ainda manteve muito poder. Inclusive sendo considerado um dos responsáveis pela denúncia da falsificação de dados dos testes de polução do grupo VW, já que um desafeto seu, Martin Winterkorn, havia assumido o comando da empresa.
Quem ama os carros e automobilismo, deve a ele. Amado por alguns, odiado por outros, soube marcar seu nome entre os grandes da indústria automobilística. Gênio, ousado, ditador...Danke, Ferdinand.


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