F4: O MERCOSUL ENTRA NA PISTA


Por Sergio Milani
Nos últimos tempos, muito se questiona a falta de campeonatos fortes de monopostos na América do Sul. Até o início dos anos 2000, os campeonatos locais permitiram a formação de diversos pilotos de calibre internacional. Podemos citar Felipe Massa, Bia Figueiredo, Felipe Giaffone, Tony Kanaan, Lucas Di Grassi, Daniel Serra, Sergio Jimenez, entre vários outros (só para ficar restrito aos brasileiros e ao final dos 90/início dos 2000)

Brasil e Argentina tiveram crises econômicas e políticas e seus certames esvaziados ao longo dos últimos anos, tornando cada vez mais o caminho mais firme para uma carreira internacional de pilotos destes dois países o do aeroporto. Ambos contam com categorias fortes de turismo, mas salvo algumas iniciativas isoladas, os monopostos foram sendo cada vez mais postos de lado : A Argentina tenta segurar a onda com a Formula Renault e o Brasil teve a F3 respirando por aparelhos, além de iniciativas atuais como a Fórmula Vee, F1600 e Formula Inter. Tivemos a tentativa da F-Sudamericana, com os antigos F-Futuro, mas sem muito sucesso. Mas as coisas parecem mudar...

Desde a implantação do novo sistema de pontuação para Super Licença para a Fórmula 1 desde 2016, os pilotos que queriam tentar um caminho para a principal categoria do automobilismo não viam as categorias locais como uma alternativa viável para iniciar o caminho nos campeonatos de monoposto locais, sejam por aspectos financeiros ou técnicos.

Um pouco antes, a FIA introduziu a nova estrutura de acesso à Fórmula 1 e criou uma nova categoria de base: a F4. O pensamento desta série é fazer a entrada do piloto que sai do kart para as competições de monoposto (ou até mesmo de outras mais simples) e que comece a introduzir mais em questões de acerto e um certo nível de aerodinâmica.

Para garantir uma uniformidade, a FIA estabeleceu um regulamento razoavelmente descomplicado, mas bem amarrado. E para garantir que os custos não fossem altos (o preço de um chassi está em torno de 40 mil euros), acreditou algumas construtoras (Mygale e Ligier/França, Tatuus/Italia e Dome/Japão) e fornecedoras de motores (Geely/China, Renault/França, Tom’s/ Japão, Ford/Reino Unido, Honda/Estados Unidos e Abarth/Italia). Hoje, a série está sendo disputada na Alemanha, Austrália, China, Emirados Arabes, Rússia (e países bálticos), Espanha, Itália, França, Japão, Inglaterra, Dinamarca, Estados Unidos, México (NACAM) e Sudeste Asiático (Malásia, Tailândia, Filipinas e India).

O carro conta com um motor de 4 cilindros de 160cv, chassi de fibra de carbono e cambio sequencial de 6 marchas, com acionamento pneumático, além de regulagem das asas dianteiras e traseiras. Os pneus são liberados para cada campeonato (devem ser aro 13, 180mm na frente e 240mm atrás). Hankook, Pirelli e Dunlop são alguns dos fornecedores.


Este campeonato prevê que o campeão leve 12 pontos para a Superlicença (hoje são necessários um total de 40 pontos). Mas para que estes sejam totalmente contabilizados, o campeonato deve ter um mínimo de 12 pilotos por etapa e 16 pilotos classificados, além de, pelo menos, 5 etapas em circuitos homologados pela FIA e/ou Autoridade Esportiva Local. Fora isso, cerca de 75% pontos são levados em conta (9 pontos).

Na Argentina, desde o ano passado, a série vem sendo planejada. Hector Tito Perez está à frente do projeto. Um carro foi trazido e está passando por testes. Os argentinos optaram pelo conjunto Mygale/Geely e usarão pneus locais. O objetivo também é usar peças locais para reduzir custos (um acordo foi firmado entre a fabricante de chassis e a organização neste sentido). 

De acordo com a organização, 12 carros serão preparados para correr. Mesmo com a situação complicada dos últimos tempos, um teste coletivo está agendado para a primeira semana de setembro em Buenos Aires e o campeonato está previsto para iniciar em 22/09 também na capital argentina, com um total de 5 etapas.

Em um primeiro momento, os carros serão trabalhados por uma única equipe. E o formato será de em cada fim de semana: 2 sessões de treinos de meia hora, classificação de meia hora e duas corridas de meia hora. 

No Brasil, movimentações estão em curso. No último mês de julho, a F/Promo, promotora da Formula Vee, anunciou que se prepara para montar a F4 no país a partir de 2020, contando com o apoio da Confederação Brasileira de Automobilismo (CBA). 

Em entrevista no programa “Na dúvida acelera?” na Radio Giga (www.radiogiga.com.br), Wilsinho Fittipaldi e Flavio Menezes, ambos da F/Promo, detalharam um pouco mais a situação da categoria.

Como na Argentina, 12 carros serão trazidos para o campeonato e a manutenção e acerto seriam feitos pela equipe de mecânicos da organização. A diferença para a Argentina seria em relação ao conjunto usado e no formato. No Brasil, não deverá ser usado o motor chinês e a escolha de chassi está entre a Tatuus e a Mygale. Além disso, a ideia seria adotar o modelo de rodada tripla, com o campeonato iniciando em abril, indo até novembro. Uma pre-temporada está em planos para março, em Interlagos. Além de Interlagos, seriam usados os circuitos do Velo Cittá (SP), Velopark (RS) e Goiânia (GO). 

O custo estimado para a categoria na Argentina era de 9 mil dólares por etapa (ou cerca de 540 mil pesos, em valores atuais). No Brasil, o custo das 8 etapas está sendo estimado em 650 mil reais pela temporada, já com seguro e inscrições incluídos. Além disso, parcerias estão em negociação, bem como a transmissão pela TV (um dos nomes envolvidos é o grupo Globo). 

O Formula i acompanhará com atenção estas iniciativas, torcendo para que a América do Sul consiga ter novamente categorias fortes de monopostos, aumentando a base do automobilismo e que mais pilotos possam chegar melhor preparados para as principais categorias internacionais.





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