BOTTAS E MERCEDES: DEU A LÓGICA


por Sergio Milani
Os carros nem entraram na pista e Spa-Francorchamps aumentou a temperatura. Hoje tivemos oficialmente o começo da temporada 2020 com a confirmação de Valtteri Bottas na Mercedes e a ida de Esteban Ocon para a Renault no lugar de Nico Hulkemberg.
Tal movimento já era esperado e já se delineava mesmo nestas semanas de férias de verão da Fórmula 1. O termômetro nas redes sociais é de indiferença e até certo desalento com a notícia. Afinal de contas, o sentimento geral é que a Mercedes optou por mostrar que Lewis Hamilton é o líder inconteste da equipe e que tudo deve seguir como está. 
Boa parte dos fãs da Fórmula 1 quer briga entre pilotos entre equipes, corridas sem “joguinhos”... e a esperança era que Esteban Ocon viesse para “incomodar” Hamilton. Algo semelhante ao que a Ferrari fez com a vinda de Charles Leclerc no lugar de Kimi Raikkonen. Sem contar a ilusão dada em duas temporadas de que poderia fazer este papel. Mas foi devidamente “jantado” pelo inglês.
Entretanto, é necessário o banho de realidade. E vai mais uma vez a prova do porquê a Mercedes está na posição em que se encontra.
Bottas veio em 2017 quase na mesma situação em que Ocon estaria agora: um jovem talento tendo a chance de mostrar serviço (Bottas já tinha pelo menos quatro temporadas na carteira, contra duas do francês). A Mercedes naquele momento precisava de uma solução confiável para preencher a vaga de Nico Rosberg, que tinha anunciado sua aposentadoria logo após a conquista do título. E, quem sabe, poder mostrar que tinha condições de ser campeão.
Não podemos esquecer que a Fórmula 1 é também um campeonato de construtores. A premiação das equipes é baseada neste fator. E até aqui, tem valido muito bem o esforço feito pelos alemães (cerca de 10 a 15% do orçamento de 400 milhões de dólares do time são desembolsados pela Mercedes. O restante vem dos patrocinadores... e da premiação). Então, qual é o objetivo? Maximizar o resultado.
O finlandês cresceu sim como piloto. E ao longo deste tempo se mostrou constante, confiável e em posição de aproveitar as oportunidades. Desta forma, tornou-se um ativo valioso na estratégia das “flechas de prata”. Afinal de contas, não basta somente ter um bom carro. Mas também há que se ter recursos materiais e humanos de alta classe. E não é desonroso e desonesto escolher um número 1.
Bottas já mostrou que tem talento. Mas o que fazer quando se tem um Lewis Hamilton ao seu lado? Em certos momentos, o finlandês se mostrou mais à vontade do que o inglês em momentos em que o carro não estava tão bom. Isso ficou mais presente no início do ano passado, quando Hamilton demorou a se encontrar no W09. E este ano tem sido mais assertivo, se colocando em posição de brigar em treinos e até mesmo em corrida.
O discurso de alguns é “Ah! A Mercedes favorece o Hamilton!”. Normalmente, o campeão se impõe. Uma equipe como a Mercedes teria condições de ter dois pilotos de ponta. Mas no caso em questão, o que fazer se você tem um cara muito bom ao seu lado? Você tenta fazer o seu melhor para andar próximo possível dele. E, quando puder, superá-lo. Afinal de contas, o primeiro rival de um piloto é o seu companheiro de equipe.
Perguntem como é ser reserva do Messi? Ou trazendo para o campo da Fórmula 1: como era Berger em relação ao Senna? E Schumacher em relação a Barrichello? Alguém questiona o talento do brasileiro e do austríaco?
Aproveito a deixa para dividir com vocês um estudo feito pelo amigo Fábio Brandão comparando a participação de Barrichello na Ferrari com o Bottas na Mercedes, considerando 53 GPs disputados: 


Vocês podem ver que o finlandês foi muito mais efetivo do que o brasileiro para a equipe. Bottas conseguiu mais pódios e pontos e quebrou menos. OK, outros dados podem ser obtidos, algumas situações devem ser levadas em conta que podem influenciar os resultados e outras conclusões há serem tiradas. Mas é uma base de comparação. 
O pensamento da Mercedes é extremamente válido. Tem um piloto que conhece bem, sabe o que pode entregar e está totalmente integrado à equipe. E em um momento em que grandes mudanças virão, a estabilidade é fundamental e este pode ser um belo diferencial. O foco tem que ser mantido e a estratégia está muito bem montada. É preciso ter a visão do todo. E Bottas seria a escolha lógica para o momento.
Para 2021, a história é outra. Mas para o momento, a Mercedes se cacifa bem para a briga. No jogo de pôquer da Fórmula 1, Toto Wolff fez o seu movimento e espera para ver quem tem uma mão melhor do que a sua.

Comments

Post a Comment