ATÉ ONDE VAI A MERCEDES?


por Sergio Milani
Durante a pré-temporada, escrevi no site 90Goals (ele voltará em breve, aguardem!) um texto com o título “A MERCEDES PERDE O CAMPEONATO”. Como é uma constante nas redes (cada vez mais anti) sociais, muita gente jogou pedra sem ler. Mas foi uma provocação diante das ações da equipe anglo-tedesca na época, praticamente trazendo um carro novo de uma semana para outra. E dizendo que não livraria tão facilmente do osso.
Outra provocação feita foi em relação ao conceito do carro. Até então, a Mercedes se baseava na grande última alteração de regulamento feita em 2017. Em meados de 2018, uma mudança aerodinâmica foi anunciada para 2019 e 2020 para tentar facilitar as ultrapassagens. Diante disso, a equipe técnica tinha uma escolha decisiva a fazer: prosseguir com a linha presente ou partir para uma base nova. E diante da perspectiva da mudança total para 2021, optou-se por aprimorar mais o desenho.
Um aspecto a ser levado: a Mercedes vinha sendo campeã desde 2014. Como manter um grupo motivado? Como estimular um time a continuar vencendo?  
Em meados do ano passado, uma mudança na estrutura foi feita: Aldo Costa foi promovido à “consultor”. James Allison prosseguiu na chefia técnica e o diretor de performance Mark Ellis iniciou a preparação para um “período sabático”. Toto Wolff rasgou o velho ditado de que “time que está ganhando não se mexe”.
Uma mudança forçada foi feita: Por problemas de saúde, Niki Lauda, diretor e acionista da equipe, se afastou do dia-a-dia.  Wolff perdeu um apoio para a decisão das ações do time.
O desafio era grande...
E o que aconteceu?
Das 12 corridas disputadas até aqui, a Mercedes ganhou 10. OK, algumas contando com a sorte (Bahrein) e com decisões no mínimo controversas (Canadá). Mas a concorrência sendo varrida. A Ferrari, que dominou os treinos de pré-temporada, se viu apertada e constatando que a escolha feita para desenvolver a SF90 foi errada: reforçaram a potência do motor e investiram em uma linha aerodinâmica que jogava mais o ar para fora (o tão falado “outwash”). Em linha reta, a Ferrari voa. 
Mas a Mercedes optou por pelo “inwash: ou seja: ela resolveu direcionar o ar frontal mais para dentro, potencializando o fluxo de ar para as aletas laterais (bargeboards) e direcionar melhor para parte debaixo do carro (difusor) e o aerofólio. Adicionalmente, desenvolveu um sistema de suspensão, trazendo de volta um conceito desenvolvido pela Ferrari e Red Bull, para que a medida que o carro curvasse, o carro ficasse mais próximo do chão, simulando o efeito de uma suspensão ativa, respeitando o limite regulamentar da variação de altura do carro quando a direção é movida até o final do curso (5 milímetros).
Resultado: embora não seja a mais rápida em reta, a Mercedes optou por um projeto que gerasse muita pressão aerodinâmica. Isso permitiu a ela ter uma maior velocidade em curva e gerir melhor os pneus.
Junte isso a uma equipe que mostra cada vez mais esperta e azeitada (OK, vamos excluir a Alemanha...). O último GP da Hungria mostrou a importância da percepção e do entrosamento dos membros. Não bastou ter somente a ação perfeita do estrategista. Mas também tinha um piloto para fazer a estratégia funcionar. 
E falando em pilotos... Lewis Hamilton mostra sim que é grande. O carro ajuda? Ajuda e muito. Mas do que adianta ter um carro bom e a equipe se equivocar (Ferrari, é você?). Ou ainda não estar no ponto e ter que andar mais do que o carro? (Oi Red Bull!). É um caso sim de um piloto certo no lugar certo. E vai escrevendo cada vez mais seu nome na história. Muita gente diz que nunca pegou um carro ruim. Em parte, é verdade. Mas todos os campões buscaram sempre ter o melhor equipamento.
E a equipe conta com um Valtteri Bottas que pareceu no início do ano querer ser um verdadeiro obstáculo à Hamilton, inclusive ganhando duas provas e liderando o campeonato. Mas não conseguiu manter a performance. Mas se coloca em posição de ajudara equipe e garantir uma boa situação para o Campeonato de Construtores, que define a premiação a ser recebida no final do ano e é boa parte da renda dos times.
A Mercedes mostra que a vitória vem de um conjunto de fatores. Competência e muito trabalho. Claro que a sorte está presente, mas é preciso saber captar os sinais para aproveitá-la. Embora tenha muito cálculo e ciência aplicados, corrida de carro não é uma ciência exata. Revezes podem acontecer? Sim! Alemanha e Áustria nos mostraram.  
As coisas podem mudar depressa. Após as férias, todos irão correr atrás da Mercedes. O trabalho não para. 2020 também está no forno (as equipes estão entrando na fase final da definição de seus projetos, iniciando em breve a fabricação) e 2021 aponta com uma mudança radical. Uma coisa é certa: farão o que puder para manter a liderança. E este é o mérito de Toto Wolff: Manter a fome acesa.


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