A FÓRMULA 1 PODE PERDER COMBUSTÍVEL (E NÃO É GASOLINA)


por Sergio Milani

Brexit, EUA x China... A geopolítica não se restringe só as páginas político-economicas. Como o mundo é extremamente interligado, atinge diversos ramos. E a Fórmula 1 não passa ilesa ao impacto de uma possível desaceleração econômica, que muitos especialistas dizem estar em curso por conta dos eventos citados.

Como uma quase setentona, a Fórmula 1 passou por poucas e boas. Crises petrolíferas, recessões, guerras, quebras de mercado, mudanças regulatórias.... A categoria agonizou, estribuchou...mas sobreviveu até aqui. Entretanto, a situação tem alguns agravantes que deixam o fã preocupado. E nao é uma simples marolinha...

Uma recessão pode ser mais efetiva do que o tal teto orçamentário planejado pela Liberty Media para a Fórmula 1. Afinal, a máxima do automobilismo é gastar todo dinheiro disponível para conseguir desempenho. Mas em um ambiente econômico com menos dinheiro, os patrocinadores cortam seus investimentos. E aí começa um circulo vicioso extremamente perigoso...

Isso ocorre em um momento em que se discute o rearranjo dos fundos de premiação e – principalmente – quando as equipes estão discutindo a renovação dos acordos comerciais que regem a Fórmula 1 e vencem no final do ano que vem. Os detalhes não aparecem, mas estima-se que 48% do montante da premiação ficam hoje nas mãos de Mercedes, Ferrari e Red Bull.

Quando se fala em patrocinadores, uma parte envolvida importante vem logo à tona: as montadoras. E uma recessão agora é tudo que elas não querem ouvir: a compra de carros é uma das primeiras coisas que reduzem. E boa parte delas encontram-se um processo de pesados investimentos para o desenvolvimento de novas tecnologias, como carros elétricos, híbridos e autônomos. Com um cenário deste, as diretorias não hesitam em cortar custos, especialmente em uma área que demanda muito gasto como a Fórmula 1.

Já vimos isso acontecer em 2008. Honda e BMW anunciaram suas saídas na esteira da crise econômica, sendo seguidas pela Toyota. A mesma Renault, que hoje faz um chamamento pelo controle de custos, também saiu em 2010. 

O quadro hoje não é muito auspicioso. Em um possivel quadro de menos dinheiro disponível, as equipes terão que fazer um grande investimento para adequar os projetos às novas regras. Também existe uma divisão entre os times sobre aspectos importantes e temos duas das quatro fornecedoras (Honda e Renault) repensando o seu papel na categoria após 2020 (Diz-se que os franceses teriam contrato até 2024). E mais um item a considerar: diante da pressão de algumas equipes pela implantação de padronização de peças, um time também pode repensar sua permanência: a Haas. O sucesso dos americanos acabou por levantar a oposição de outras equipes, que gastavam muito mais e eram derrotados.

Um tema que foi citado por alguns analistas algum tempo atrás e afeta diretamente 8 dos 10 times: a saída da Grã-Bretanha da União Europeia. Com a entrada do novo primeiro-ministro, Boris Johnson, uma saída sem um acordo entre as partes passou a ser algo cada vez mais provável. A Fórmula 1 seria atingida pela entrada em cena de procedimentos alfandegários mais restritivos e ainda pelo fim da livre circulação de pessoas.

Atualmente, a indústria de automobilismo de competição é uma das principais geradoras de alta tecnologia do Reino Unido e um de seus orgulhos. Por isso, profissionais de vários pontos do mundo e principalmente da Europa, trabalham ali. Com o endurecimento das regras com movimentaçao de material e de estrangeiros, as equipes inglesas se preocupam com a questão logística e com a fuga de técnicos.

Chase Carey, o todo poderoso da Fórmula 1, já tinha motivos vários para se preocupar. Agora, seu bigode tem cada vez mais motivos para ficar branco...A tempestade perfeita se aproxima e os americanos torcem para que os ventos mudem. Afinal, sem combustível, o carro nao anda. E sem dinheiro, a Fórmula 1 entra em marcha lenta.


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