VERSTAPPEN X LECLERC: O NOVO DUELO DA F1



por Felipe Quintella

O GP da Áustria de 2019 impressionou a todos pela qualidade da corrida, mas também por outro fator. Enquanto os veteranos Hamilton e Vettel disputavam a quarta colocação, as duas grandes estrelas foram Max Verstappen e Charles Leclerc. Em uma manobra polêmica no final da prova, o holandês conquistou a vitória sobre o monegasco, que falhou em vencer pela primeira vez na categoria.

No pódio, o tradicional clima pesado. Depois, nas entrevistas, os dois defenderam seus lados da disputa. O piloto da Red Bull dizendo que foi um movimento de corrida, que disputa de carro é assim mesmo. Já o da Ferrari disse que foi uma disputa injusta, já que ele havia sido obrigado a sair da pista. Nessa equação, as discussões nas redes e a demora dos comissários em anunciar quem havia vencido só pioraram as coisas. Até que, três horas depois, Verstappen foi declarado vencedor, sem punição.

Passado o calor da questão, um tema começou a ser levantado. Esses dois já haviam se estranhado antes, no World Super Kart Euro Series, em 2012. Na ocasião, o perdedor foi Verstappen, e Leclerc se saiu bem. Ou seja, já existe uma rivalidade entre os dois. E, pensando mais para frente, com multicampeões já aposentados, a probabilidade de que a disputa do título fique entre essa dupla é bem grande. Mas, como observado pelo jornalista Will Buxton depois da Áustria, esse futuro já é agora. Esses caras já estão disputando vitória.

Mais tarde, Verstappen disse que já estava tudo bem entre eles. O holandês entende que é difícil perder, mas afirmou que Charles é um ótimo piloto e deve ganhar a primeira já em 2019. ¨Ele vai muito longe, acho que temos mais 15-20 anos correndo juntos¨. Já Leclerc colocou mais combustível na potencial rivalidade. Lembrou o passado comum dos dois no kart e declarou que ¨seria fantástico lutar com Verstappen pelo título da F1¨.

Temos aí vários ingredientes para uma boa briga, dentro e fora das pistas, entre os dois. Bom para nós, espectadores. Vários bons exemplos na história da F1 motivam discussões até hoje, e são um dos maiores atrativos para o esporte. Lauda x Hunt, Piquet x Mansell, Schumacher x Hakkinen, e claro, Senna x Prost. Não estou dando certeza de que Verstappen x Leclerc chegará nesse nível de grandeza algum dia. Mas, pelo menos como exercício, vale a pena já compará-los. Por isso, nesse texto, vou ousar escrever um dos primeiros esboços sobre essa ainda proto-rivalidade na F1.

Existem algumas similaridades entre as duas carreiras. Verstappen e Leclerc chegaram à Fórmula 1 já como grandes estrelas, estreantes-sensação da temporada. Além disso, os dois mostraram serviço nas categorias de base, conquistando muitos títulos e impressionando pelo talento. O que fez com que suas equipes, através de seus programas de jovens pilotos, apostassem fortemente nos dois. Red Bull e Ferrari agiram, cada qual da sua maneira, para preparar um piloto digno de ocupar um assento em sua equipe de F1.

Por fim, ambos são ídolos de muitos fãs, tanto veteranos como mais novos. Leclerc arrebatando a imensidão dos tifosi da Ferrari e Verstappen carregando uma multidão de torcedores holandeses, que comemoram uma ultrapassagem sua como se fosse um gol da Laranja Mecânica.

Porém, as semelhanças terminam por aí. Os caminhos trilhados pelos dois foram bem diferentes. Enquanto Verstappen quebrou vários recordes de idade na F1, chegando muito cedo, Leclerc levou seu tempo e estreou na categoria máxima quatro anos depois. A saber, os dois têm 21 anos. Dentro da pista, o estilo de pilotagem também é bem distinto. Vertappen é sabidamente agressivo, rápido e fatal em uma disputa de posição. Leclerc também é muito rápido, mas seu ponto forte é a força mental e consistência.

No relacionamento com a mídia, polos quase opostos. Verstappen não economiza palavras para xingar alguém, gosta de provocar e por muito tempo demorou a admitir seus erros. Leclerc é bem mais político e cuidadoso em suas declarações, em estilo parecido com Lewis Hamilton. Mas também sabe quando ser mais duro ajuda seu lado.


A ultrapassagem mais importante do ano, na corrida mais emocionante em um bom tempo. Enquanto Leclerc corria tranquilo na frente, Verstappen ultrapassava um a um no grid. O holandês tinha dez voltas para tirar cinco segundos de vantagem do monegasco. A diferença foi caindo, Max chegou, e a batalha começou. Mas o que cada um tinha do seu lado naquela situação? Leclerc estava na posição defensiva, provavelmente com um conjunto melhor e menos desgastado, mas com um pneu bem mais rodado. E claro, a vontade de segurar a posição.

Já Verstappen tinha, além de pneus mais novos, uma experiência bem maior do que o adversário: 60 GPs a mais, sem contar todas as disputas com Hamilton, Vettel, Raikkonen e Ricciardo. Isso que decidiu o jogo a favor da Red Bull. Na primeira tentativa, na curva 2, Leclerc abriu bem a curva, procurando tracionar melhor na saída. Funcionou, só até a próxima passagem pela 2. Charles tentou a mesma estratégia, mas deixou uma avenida aberta para Max, que mergulhou e conseguiu a ultrapassagem. Espalhou, foi duro, mas honesto. Gol da Holanda, e a massa laranja foi à loucura.

Leclerc obviamente não gostou nada. Ao contrário do Bahrein, na Áustria ele tinha muito o que fazer para defender a vitória. Não se pode tirar o mérito da estratégia da Red Bull e do ritmo de Verstappen, mas a inexperiência do piloto da Ferrari ainda pesou. Durante esse ano, ele mostrou ser extremamente duro consigo mesmo, como no erro na classificação em Baku. Isso pode tanto ser uma qualidade como uma fraqueza. Se ele souber aprender rápido em uma equipe grande da Fórmula 1, pode ser um adversário a altura de Verstappen no futuro. Mesmo com os três anos de experiência a mais do holandês na categoria. Verstappen, por sua vez, já errou mais do que suficiente na Fórmula 1, e parece ter achado seu equilíbrio mental.

Como dito, temos na dinâmica desses dois todos os ingredientes de uma grande rivalidade. Dois jovens de muito talento, velocidade e determinação. Duas personalidades fortes, cada um a sua maneira: um bom moço e um bad boy. E condições no mercado de pilotos muito fortes, ou seja, é difícil que uma equipe de ponta os deixem escapar nos próximos anos. Uma rivalidade que poderá ser explorada tanto na pista quanto na mídia pelo esporte, talvez até ilustrando as próximas capas de videogame.

Agora que o motor Honda já mostrou que pode ser um equipamento vencedor, por uma cláusula de desempenho em seu contrato, Max não deve mudar de equipe até 2020. Mas depois disso, seu lugar é incerto. Na verdade, quase tudo na Fórmula 1 é incerto em 2021. Porém, não é futurismo pensar que Verstappen estará em condições de brigar por um título nos anos seguintes. Seja na Mercedes, depois da aposentadoria de Hamilton, seja ainda na Red Bull, que já mostrou que não pode ser subestimada. Na Ferrari, seu nome não é uma opção no momento.

Já Leclerc, ao que tudo indica, será a grande aposta da Ferrari para o futuro. Com uma não tão distante aposentadoria de Vettel, a scuderia provavelmente deve buscar um piloto mais experiente para correr ao lado do monegasco. Bem o perfil de um Daniel Ricciardo, por exemplo. Nesse caso, Charles ainda estará na posição de brigar por vitórias e títulos, e ainda mais quando se tornar o grande nome experiente do time.

Em toda essa discussão, ignorei completamente os fatores Norris, Ocon, Russell e companhia. A verdade é que são todos muito jovens e bons no que fazem. Depois de uma longa era Hamilton, o palco será deles. E pode ser que a grande atração nem seja Verstappen x Leclerc, mas estamos bem servidos de qualquer forma.










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