NA ÁUSTRIA, HOLANDÊS DEU ASAS À FÓRMULA 1


por Sergio Milani
Quem acompanha a Fórmula 1 pode ter pensado por algum momento que tudo foi planejado. Após toda a confusão canadense e o sonífero francês, a Áustria nos trouxe todos os elementos de uma prova ao gosto do público: uma pista interessante, um belo cenário, disputas nos treinos, escalada de pelotão, ultrapassagens, lágrimas e mistério para definir o resultado.
Neste relacionamento abusivo entre a Fórmula 1 e seu público, mais um capítulo. Na esquizofrenia reinante nos ultimos tempos, este fim de semana foi uma redenção.
Claro que fico contente com tudo que aconteceu e a sensacional prova de Max Verstappen. Faço coro com a colega Karina Lima, que fica difícil saber se a exibição deste domingo ou Brasil 2016 foi a melhor dele. Após se prejudicar na largada, caindo de 2º para 7º ao final da primeira volta, o holandês fez uma corrida de gente grande, de campeão.
Soube negociar bem as ultrapassagens em cima de Kimi Raikkonen e Lando Norris. E achou um ritmo muito satisfatório para poupar seus pneus e se aproximar dos ponteiros. A esta altura, a Ferrari tinha por objetivo fazer a sua estratégia funcionar, já que contava com um bom desempenho inicial dos pneus macios para abrir diferença e conseguir esticar a parada para a troca.
Apesar do grande calor, as equipes conseguiram levar os carros além do esperado para as paradas. E aí a Ferrari parecia conseguir o “pulo do gato”. Vettel, por circunstâncias da corrida, foi chamado para os boxes e “marcar” Bottas. Mas a equipe deixou a desejar e fez o alemão perder 4 a 5 segundos em relação ao finlandês. Isso fez a Ferrari 5 arrebentar suas chances na prova.
Leclerc entrou na volta seguinte e ficou na mesma situação das Mercedes. Estas, neste momento se viam numa condição inédita até então: o carro simplesmente não se encontrava na pista (ao longo do fim de semana ficou clara a dificuldade em achar o acerto ideal, com Hamilton e Bottas tendo um que brigar com um “bailarino”, além de não poder usar toda a potência por problemas de superaquecimento). Aí, veio Verstappen.
Mesmo com pneus usados, conseguiu tirar tempo em relação a quem estava na sua frente e, em uma situação ótima de acerto do carro, subiu na classificação e parou uma volta depois de Hamilton. O inglês também tinha pneus médios, masnão estavam em seu melhor e ainda ficava mais lento graças a um dano em sua asa dianteira. E perdeu mais tempo no box para substituir o spoiler. Não basta ter talento, mas também é preciso sorte.
Ao calçar os pneus duros na volta 31, o holandês iniciou uma escalada incrível. Liberado pela Honda para usar mais potência (um certo espanhol deve ter se rasgado inteiro ao ouvir isso), Max foi para cima de quem estava à sua frente. Naquele momento, ia se construindo uma situação em que entre os 4 primeiros vinham se aproximando...Hamilton se tornou uma carta fora do baralho.
Leclerc vinha conseguindo controlar Bottas, enquanto Vettel tentava uma aproximação. Mas Max veio de forma incontrolável: primeiro, se aproveitou da segunda parada de Vettel, cujos pneus duros acabaram.  6 voltas depois, passou de passagem por Valtteri Bottas. A primeira posição era sim uma possibilidade.
A esta altura, Spielberg havia virado um estádio de futebol, com a imensa mancha laranja apoiando o seu querido Max. E este foi em busca do seu destino: ultrapassar Leclerc. O monegasgo tinha esperanças de manter posição. Mas as 10 voltas de diferença de pneu começaram a fazer diferença. Parecia uma questão de tempo.
Na volta 67, Verstappen partiu para o ataque efetivo e tivemos um daqueles momentos especiais da categoria: Leclerc conseguiu manter a posição usando não só a habilidade, mas também a potência da Ferrari. Mas no giro seguinte, não houve como segurar...
Muita gente questiona a manobra e que gerou a investigação. No caso em questão, Verstappen fez o que tinha de ser feito. Leclerc foi retornar ao ponto que gostaria e encontrou a Red Bull 33 em seu caminho. O choque era inevitável.
Era uma situação diferente do Canadá. E se houvesse alguma punição ali, era caso de fechar todo o barraco, apagar a luz e ir embora. A manobra foi no limite da legalidade e é usada até em simulador. Até se entende a indignação de Leclerc, mas não se justifica. A Itália em peso hoje reclama.
Também não se pode negar que a FIA vinha extremamente pressionada pelos últimos acontecimentos e todos os holofotes estavam sobre ela. Claro que rolam as conversas de “realização de compensações”. Mas o bom senso prevaleceu.
A comemoração foi muito boa de se ver. Uma alegria genuína no ar e a ida do responsável da Honda no pódio foi um grande e merecido acerto. Os japoneses apanharam mais do que boi ladrão desde a sua volta, tiveram um divórcio extremamente barulhento com a McLaren e estão praticamente reconstruindo a sua reputação. Em um momento em que as conversas com a Red Bull para prorrogar a parceria para além de 2020 estão na mesa, este foi um grande impulso (voltaram inclusive rumores sobre os japoneses assumirem parte da operação).
E a vitória de Verstappen, além de quebrar a “Fórmula Mercedes”, ajudaria a “garantir” a sua permanência. De acordo com a alemã Auto Motor Und Sport, o contrato do holandês teria uma cláusula de performance e, dependendo de como fosse, poderia ser liberado para uma outra equipe. Em momentos de indefinição na Mercedes e uma possível aposentadoria de Vettel, Max seria um belo ativo neste tabuleiro....
De se salientar a boa performance da McLaren, que vai se consolidando como a “melhor do resto”, com Norris e Sainz em 6ºe 8º lugares e a chegada dupla da Alfa Romeo, com Raikkonen em 7º e Giovinazzi em 10º, marcando seu primeiro ponto na Fórmula 1. Fato que fez o chefe de equipe Frederic Vasseur cortar um tufo de cabelo do italiano como pagamento de aposta....
Vamos sim aproveitar o momento. Por enquanto, o fã da categoria faz as pazes e vai esperançoso para Silverstone. Porém, temos que lembrar as condicionalidades que envolveram a Áustria e ajudaram a compor este cenário. Temos que torcer para que o calor chegue à Inglaterra e ajude a segurar a Mercedes. Aí sim, poderemos pensar em ter uma corrida bem interessante. O campeonato agradece.
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Não podemos deixar passar em branco as boas exibições de Sergio Sette Camara na F2. Este fim de semana, o mineiro conseguiu fazer uma exibição que se esperava há algum tempo e conseguiu um ótimo 5º lugar na primeira corrida (na pista foi 3º, mas houve o acréscimo de 5 segundos por conta do toque em seu companheiro Nicholas Latifi) e venceu na segunda prova, subindo para o 3º lugar na classificação geral, com 107 pontos (o liíder é Nyck de Vries, com 152 pontos) . Esta situação lhe daria a pontuação para obter a Super Licença para ser titular na Fórmula 1 este ano.
Com a temporada começando a segunda parte, o brasileiro se cacifa para disputar o título e mostrar que merece um lugar no topo no próximo ano.

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