DE ALONSO A VERSTAPPEN OU DE GP2 À VITÓRIA


Por Sergio Milani


Após 13 anos (Hungria 2006) longe do alto do pódio, as lágrimas eram um misto de alegria e alívio. A festa de Toyoharu Tanabe, responsável técnico da Honda, junto aos pilotos é um daqueles momentos em que fica claro o orgulho pelo esforço dispendido até aquele momento ter dado resultado.
A vitória veio em ótimo momento: na casa da Red Bull e em um momento em que a montadora discute com a empresa de bebidas energéticas a relação para além de 2020, prazo final do acordo vigente. Boa parte da cúpula da Honda esteve presente no fim de semana na Áustria assistindo a tudo.
Das atuais fornecedoras, a Honda foi a última a entrar na categoria. E passou por um calvário em praça pública para poder chegar a um nível competitivo. A marca aceitou o desafio de fazer uma Unidade de Potência conforme as especificações do zero, sem poder fazer efetivamente testes de pista (andou em pista nos testes de final de ano em Abu Dhabi 2014).
O que parecia ser a retomada de um relacionamento feliz, terminou em um divórcio rumoroso. A McLaren, que esperava voltar às vitórias, ficou relegada ao fim do grid. A Honda, teve sua capacidade técnica e gerencial questionada, inclusive por seus pilotos. Como esquecer o “GP2 Engine” dito por Alonso pelo rádio? Parecia ser uma questão de tempo a saída dos japoneses.


Neste processo, uma coisa que poderia ser impensada, aconteceu. Normalmente orgulhosos, os japoneses foram atrás de ajuda externa, até mesmo por pressão da McLaren. Inicialmente apelaram para Gilles Simon, ex-Ferrari, sem muito sucesso. Depois, seguiram o caminho da Renault e foram bater na porta de Mario Illien, da Ilmor. Em paralelo, promoveram alterações na estrutura e abriram mais uma frente de trabalho na Inglaterra, além do que vinha sendo desenvolvido em Sakura. Se diz que as demais fornecedoras também auxiliaram, mas não é algo confirmado.
Os progressos vieram, mas a relação era insustentável. Para que não houvesse a saída dos japoneses da categoria, uma operação salvamento foi realizada e um namoro com a Sauber começou, tocado por Monisha Kaltenborn. Um acordo estava em vias de ser concluído, envolvendo inclusive a contratação de pilotos “protegidos” dos japoneses quando houve uma mudança no comando e assumiu Frederic Vasseur no lugar de Monisha.
Na mesma semana em que assumiu o comando da Sauber, Vasseur optou por não prosseguir com as conversas, preferindo negociar com a FCA (Alfa Romeo). Mais uma vez, a Fórmula 1 veio com uma operação salvamento e apareceu no caminho, a Red Bull....
Os taurinos vinham em uma relação extremamente tensa com a Renault. Não usavam o nome dos franceses em seus carros (oficialmente, os motores levavam a marca Tag Heuer) e viviam às turras por conta do atendimento à satélite Toro Rosso, o que motivou a quase vermos cenas de briga no paddock. Diante do quadro, juntar energético com saquê fazia sentido.
Com a rescisão com a McLaren feita, foi fechado um acordo inicial e os japoneses forneceriam suas usinas primeiramente para a Toro Rosso. Para a “nave mãe”, uma análise seria feita ao longo de 2018. Aparentemente, um gol havia sido evitado.
Com uma nova perspectiva, sem tanta pressão, mas com a vontade de fazer bem feito,as coisas andaram melhor. Embora tenham lançado mão das punições, a evolução era notável e a cúpula taurina monitorava tudo. Até que veio o anúncio de que a equipe principal também usaria os motores japoneses. Se diz semi-oficialmente que esta decisão foi um dos definidores para a saída de Daniel Riccardo para a Renault.
Até agora, o relacionamento vem sendo extremamente produtivo para todas as partes. Se sabe que a Honda não tem o melhor motor do grid. Mas as perspectivas são interessantes. Em estimativas feitas por alguns técnicos com base em dados de GPS, a diferença hoje ficaria em torno de 40 a 50 cavalos dos japoneses em relaçao à Ferrari e Mercedes. E a Red Bull já falou que não se importa em ter que cumprir punições caso evoluções relevantes venham.
O relacionamento tem tudo para continuar. Aparentemente, as conversas no final de semana foram produtivas e uma decisão deve ser tomada em breve pela Honda. Com a nova formação que a Fórmula 1 promete a partir de 2021, uma pergunta que surge é sobre a regulação sobre os motores. Uma grande discussão foi feita desde 2017, partindo para uma simplificação, e a mudança que seria introduzida junto com os novos carros aparentemente seria deslocada para frente.
Tal mudança não foi confirmada, mas o investimento de tempo e dinheiro para a concepção de uma nova unidade com as alterações contempladas pelo novo regulamento são fatores críticos para decisão. Ainda mais em um cenário em que os carros de passeio vêm passando por uma mudança de paradigmas e a eletrificação vem se tornando cada vez mais uma realidade.
A Liberty Media torce para que a Honda permaneça. A Red Bull também, pois seria um parceiro de peso para seu projeto. Inclusive pode até voltar o rumor surgido ano passado de que os taurinos poderiam fazer uma co-gestão da Toro Rosso ou até mesmo passar o negócio para as mãos nipônicas. Que a vitória faça os japoneses prosseguirem. Para o bem da categoria e da própria Honda, para completar esta história que começou cheia de sofrimento se transforme em alegria. Afinal, reputação é algo muito caro para os japoneses.






  

Comments