WILLIAMS: A LUTA PELA HONRA E PELA VIDA

Por Sergio Milani
Quem gosta da Fórmula 1 acompanha com até certa tristeza a situação da Williams nos últimos anos. Especialmente este ano, em que a equipe simplesmente rasteja no fim do grid. Alguns dizem que este faz parte de um processo de “tyrrelização” da equipe, caminhando para o fim, lembrando de um glorioso passado.
Este escriba já abordou o tema algumas vezes. E acha interessante falar mais uma vez.
Os fãs da categoria viram com espanto o início de ano de equipe. O FW42 prometia ser uma retomada efetiva, uma “bala de prata” coordenada por Paddy Lowe. O bom clima era confirmado também pelo anúncio de um acordo “multianual” com a operadora de telefonia Rokit e a confirmação de Robert Kubica como titular, juntamente com o inglês George Russell, campeão da F2 em 2018 e protegido da Mercedes.
O que prometia ser uma ressurreição, se provou ser mais uma descida no inferno. O carro demorou a ficar pronto, foi o último a entrar na pista nos testes de Barcelona. Pior: se mostrou pior do que o modelo do ano anterior, que não era havia sido o melhor do pacote. Para completar, ainda teve que refazer a suspensão antes da temporada pois a FIA levantou dúvidas sobre alguns componentes (a Red Bull partiu para uma solução semelhante, mas não caracterizava tanto quanto ao efeito aerodânmico).
Paddy Lowe, o então “salvador da pátria”, foi convidado a se retirar (“resolver problemas particulares”) e o velho lobo Patrick Head foi chamado para funcionar como “consultor” de Claire Williams, procurando manter o barco à salvo no meio desta tempestade.
Até agora, são poucos os motivos para se orgulhar. A equipe tem ficado sistematicamente na última fila, inclusive colocando em dúvida a capacidade física de Robert Kubica para pilotagem. Sem contar a possibilidade de “queimar” George Russell, um talento reconhecido por todos e considerado uma das futuras estrelas da Fórmula 1. Passando por uma falta de peças, que obrigou aos pilotos a não forçar tanto nas primeiras etapas.
Diante deste quadro, é possível dizer que a Williams reage?
Se formos pegar a evolução de tempos na classificação, podemos ver o copo meio cheio. Abaixo, segue uma tabela da diferença da Williams em relação ao piloto imediatamente à frente na classificação, bem como a diferença para a pole (em tempo e em porcentagem).

A diferença encontra-se praticamente estável para a pole. Mas a diferença tem caído nos últimos GPs para o grupo à frente. Em Mônaco, houve inclusive a ilusão por parte de Russell que estaria disputando pontuação...
Por enquanto, não se fala na contratação de um novo Diretor Técnico. A equipe trabalha com a chamada “prata da casa”, sob supervisão de Patrick Head. Após uma análise minuciosa, constatou-se que o carro padece de uma crônica falta de apoio aerodinâmico, principalmente no trem traseiro.  Em paralelo, está sendo revista mais uma vez a calibração do túnel de vento e todo o pacote de simulação e correlação de dados.
A volta de Paddy Lowe não é descartada (seu nome ainda consta no site da equipe como chefe do departamento técnico) e a equipe repensa uma série de abordagens. Em entrevista na Motorsport Magazine deste mês, Rob Smedley, ex-responsável pela engenharia da equipe, declarou que muitos processos foram revistos, mas a equipe precisa investir mais em pesquisa e desenvolvimento (P&D). Hoje, a Williams é uma equipe que faz muita coisa “dentro de casa” e este foi um dos motivos que fizeram a família Stroll bater em retirada.
Uma melhora é esperada em breve, quando a equipe trará praticamente um carro novo para a volta à Europa (suspensões, aerofólios e um novo assoalho). Tal mudança é esperada não só para garantir uma base de trabalho para a próxima temporada, mas principalmente pelo lado financeiro. Patrocínios começam a ser definidos agora e marcar pontos é extremamente importante para tentar melhorar a posição no campeonato de Construtores e aumentar o valor a ser recebido pela equipe. Até agora, o melhor resultado foi a 15ª posição de George Russell em Mônaco.
Como este pacote “corretivo” irá se comportar é que direcionará os próximos passos. O foco é salvar o resto da temporada e garantir alguma perspectiva para o próximo ano. Afinal de contas, as equipes deverão gastar suas fichas para o projeto de 2021, onde a definição das regras será feita até o final deste mês, onde se promete uma grande ruptura. Portanto, nada mais lógico do que usar a base existente para a temporada seguinte.
Pelo lado empresarial, a Williams vai bem, obrigado. Vem apresentando lucros nos últimos anos e fazendo uma bem-sucedida descentralização de atividades. A área de engenharia cresce a um ritmo de 2 dígitos e respondeu por mais de 25% do faturamento do grupo no ano passado. Mas a vitrine claudica. Claire Williams já falou que, até 2020, a equipe fica. Depois, põe em questionamento a continuidade.
A comunidade da Fórmula 1 torce para que a Williams se recupere. Vendo de longe, aparentemente o problema não é falta de recursos, mas sim de liderança e mudança de mentalidade. Claire Williams parece ter acordado um pouco para a realidade ao ter chamado Patrick Head para ajudar. Mas é preciso mais para salvar. Por enquanto, o que se vê é uma agonia acontecendo em praça pública em tempo real. Mas ainda há tempo para se reverter???



Comments