UMA LE MANS VERDE AMARELA

Serra, Negrão e Fraga: o trio vencedor brasileiro. Mas Fraga teve o carro desclassificado(foto:José Mário Dias)
por Felipe Quintella
A 87ª edição das 24 horas de Le Mans, disputada no último final de semana dos dias 15 e 16, ofereceu uma boa dose de emoção. Até onde não se esperava.
A monótona vantagem dos protótipos híbridos da Toyota na LMP1 foi compensada pelo final da prova. Uma reviravolta que tirou a vitória do carro #7, que havia liderado com folga a maior parte do tempo. Assim, o vencedor foi o mesmo do ano passado: o trio composto por Fernando Alonso, Kazuki Nakajima e Sebastian Buemi.
Além desse drama interno japonês, a corrida francesa mandou boas novas para o automobilismo brasileiro, que conseguiu emplacar dois vencedores. Na categoria LMP2, André Negrão; na GTE Pro, Daniel Serra. Felipe Fraga havia também ganho na GTE-AM, mas sua equipe foi desclassificada.
O Toyota #7, tripulado por José Maria “Pechito” Lopez, Mike Conway e Kamui Kobayashi largou da ponta em Le Mans e liderou a prova praticamente inteira. O #8 vinha seguindo na segunda colocação, assim garantindo o campeonato mundial. Parecia que estava tudo bem dividido e resolvido, mesmo que a contragosto dos pilotos.
Até que, faltando menos de uma hora para a bandeirada, “Pechito” reportou problemas no seu carro, um pneu furado. Ele tinha mais de dois minutos de vantagem para o #8 e foi para os boxes. O argentino ainda voltou na frente, mas logo percebeu-se o erro. O pneu furado era o traseiro esquerdo, e os mecânicos trocaram o dianteiro direito.
Então lá foi “Pechito” novamente para os boxes. Finalmente o problema foi resolvido, mas a liderança já era de Nakajima. O japonês fez ainda mais uma parada, o que devolveu a liderança para o #7, mas ele também teve que parar. Com isso, o trio do #8 cruzou com 16 segundos de vantagem para os colegas.  
Alonso, Nakajima e Buemi conquistaram o título mundial, com 198 pontos no bolso, contra 157 do trio rival. É o terceiro título mundial na carreira do espanhol, depois dos dois conquistados na F1 em 2005 e 2006. Agora, o asturiano pretende dar um tempo do WEC (oficialmente seu contrato com a Toyota não foi renovado), prometendo voltar na futura era dos hipercarros. Já Nakajima se tornou o único japonês até o momento a conquistar um título mundial no automobilismo.
O terceiro colocado na LMP1 foi o carro #11 da SMP Racing, a seis voltas do vencedor. O trio que foi para o pódio foi formado por Stoffel Vandoorne, Vitaly Petrov e Mikhail Aleshin. Esse resultado como “melhor do resto” veio com uma superação da Rebellion Racing, principal rival pelo posto. Depois de enfrentar problemas, os carro número #1 da Rebellion, com Bruno Senna escalado na linha de pilotos, ficou com a 4ª colocação.
Na LMP2, o #36 da Signatech Alpine venceu com relativa tranquilidade. O trio foi composto pelo brasileiro André Negrão, Nicolas Lapierre e Pierre Thiriet. Além da vitória, Negrão e os colegas também levaram o título da segunda categoria de protótipos. O competidor que poderia ter impedido isso foi o #26, da G-Drive, guiado por Roman Rusinov, Jean-Eric Vergne e Job van Uitert. Contudo, perderam uma liderança de três minutos na 19ª hora, depois de problemas em uma das paradas.
Com isso, o #36 não foi mais incomodado. Cruzou com uma volta de vantagem sobre o #38 da Jackie Chan Racing, guiado por Ho-Pin Tung, Gabriel Aubry e Stephane Richelmi. O terceiro posto no pódio foi ocupado pelo trio Loic Duval, Matthieu Vaxiviere e Francois Perrodo, que correram com o #28 da TDS Racing.
Na GTE Pro, a vitória ficou com a Ferrari #51 da AF Corse. O bicampeão da Stock Car (e agora de Le Mans) Daniel Serra pilotou ao lado de James Calado e Alessandro Pier Guidi. O principal rival da tripulação da Ferrari 488 foi o trio Antonio Garcia, Jan Magnussen e Mike Rockenfeller, que tinha o Corvette #63 nas mãos. Eles não se deram bem no Safety Car causado por Nick de Vries na 21ª hora, quando os pits fecharam, justamente quando estavam fazendo sua parada. Depois Magnussen rodou, batendo de leve na barreira, mas forte o suficiente para levar o carro para a garagem.
Com todos esses problemas, o Corvette terminou a prova na 9ª colocação na GTE PRO. Mas colocar o motivo da vitória apenas nas dificuldades do rival seria injusto com o trio da Ferrari. O ritmo foi muito bom, em especial de Daniel Serra, que protagonizou belas disputas de posição nas primeiras horas de prova. O segundo colocado na GTE Pro foi o Porsche #91, pilotado por Gianmaria Bruni, Frederic Makowiecki e Richard Lietz, seguido do Porsche #93 de Nick Tandy, Earl Bamber e Patrick Pilet.
Por fim, tivemos a vitória do Ford GT #85 da Keating Motorsports na GTE Am. Felipe Fraga compôs o trio ao lado de Ben Keating e Jeroen Bleekemolen. Fraga se tornou o brasileiro mais jovem a vencer em Le Mans, aos 23 anos. A tripulação do #85 teve a corrida sobre controle a maior parte do tempo. Mas uma punição de stop and go veio nas horas finais, reduzindo drasticamente a diferença para o segundo colocado.
Keating foi punido por derrapar as rodas na saída de sua parada. Voltou com uma liderança de cinco segundos, mas Bleekemolen conseguiu aumenta-la para 50 e vencer. O segundo foi o #56 Project 1 Porsche, guiado por Jorg Bergmeister, Egidio Perfetti e Patrick Lindsey. No terceiro degrau do pódio tivemos mais um brasileiro: Rodrigo Baptista, que guiou o #54 da JMW Motorsport, ao lado de Jeff Segal e Wei Lu.
Infelizmente, a área tecnica verificou uma irregularidade no Ford GT numero 85 (fluxo excessivo de combustivel. A parada de box deveria ser em 45 segundos e foi verificado 44,4) e desclassificou o carro. A decisao ainda cabe recurso.
É óbvio dizer que o automobilismo de alto nível não é só Fórmula 1. Este fim de semana ajuda a confirmar a frase. Contudo, no contexto em que vivemos hoje, a legitimidade da categoria no Brasil é questionada pela falta de pilotos brasileiros. Por isso, essas vitórias em Le Mans são mais do que bem-vindas, para carimbar a qualidade do esporte a motor no nosso país e de nossos pilotos. Bem como fazer com que o público de automobilismo saia da “monocultura” e veja a beleza das demais modalidades.

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