TÁ CHATO? TÁ. MAS MUITA CALMA NESTA HORA


por Sergio Milani
Se você perguntar para 10 fãs de Fórmula 1 se o GP da França foi chato, 15 lhe dirão que sim. Confesso que por motivos pessoais (corrida também!), não vi ao vivo. Mas fui lendo todas as mensagens surgidas no twitter e no whatsapp e foi uma unanimidade. Claro que isso molda a opinião. Fui ver mais tarde o VT e fui mais um a engrossar o hino dos descontentes.
É mais assustador ainda quando você vê pessoas que adoram a categoria lá fora e todos batendo a mesma tecla. E nestes tempos de manchetes retumbantes para buscar visitas, o que mais se vê são palavras pesadas e análises rasas. Até mesmo sites que antes batiam em outras categorias foram levantar vivas às corridas.
Neste aspecto, muita gente logo tocou a fazer comparação com a corrida da Indy em Road America, onde houve uma ótima corrida, com várias disputas e com uma abordagem diferente da direção de prova, deixando o “jogo correr mais”.
Como digo: tem muita espuma e pouco chopp nesta discussão. Vamos botar uns temas na mesa:
  1. Comparar Indy com a Fórmula 1 é algo que se faz há muito tempo. Temos que lembrar que são propostas e abordagens diferentes. Zanardi em Laguna Seca 1996 lhes diz alguma coisa?
  2. Indy também tem muita corrida mala;
  3. Reclamação da falta de competitividade da Fórmula 1 existe também desde sempre. Quem acompanha a categoria ao longo dos anos vê que é algo recorrente. Vejo desde 1986 e volta e meia o discurso aparece. Lembro então de um GP da Espanha de 1999, onde não houve NENHUMA ultrapassagem, o discurso foi tão veemente como agora;
  4. A categoria se assemelha ao Niki Lauda após Nuburgring 76: foi dada como morta diversas vezes. E na beira do abismo, conseguiu rir da cara da morte e continua viva até agora;
  5. A busca pela competitividade é algo presente há tempos. A Liberty desde que assumiu vem tentando melhorar o show para o público. E todos os envolvidos concordam que alguma coisa deve ser feita. Um exemplo foi a mexida do regulamento para este ano;
  6. O exemplo da mexida deste ano mostra que nem sempre a boa intenção resolve. Houve uma melhora sim na questão da turbulência, mas não houve o alcance dos resultados esperados;
  7. Ano passado, poderíamos ter este mesmo tipo de reclamações. Lembram que tivemos um início de temporada cheio de eventos extemporâneos que motivaram entrada de Safety Car em várias provas? Então...a percepção destas provas iniciais ajudou a melhorar a boa visão sobre a Fórmula 1;
  8. Pilotos reclama das regras. Ok, o papel deles reclamar (não conheço um que não faça isso). Mas não foram eles mesmos que pediram para deixar claro o que não se deve fazer ou não ?
  9. Olhando de fora, parece haver falta de bom senso. Ok, já se falou que as decisões são tomadas através de um colegiado. Não sabemos os detalhes, mas transparece que Charlie Whiting está fazendo falta ali. A FIA ainda bate cabeça para achar um modo de superar esta perda. No mínimo, as situações estariam muito mais claras e explicadas a todos os envolvidos. Público envolvido.
  10. Tem um aspecto interessante também e que já foi levantado pelo Lucas Di Grassi: as pistas também devem ser revistas para dar mais emoção. Afinal, no futebol, um bom gramado não ajuda a qualidade do jogo? Um bom palco não incentiva um bom show ou peça? As pistas devem também ser incluídas nesta equação.

Como disse no item 4, todos concordam que alguma coisa tem que ser feita. E a prova da paixão do público é este clamor. É um pedido para salvar uma paixão. Como bem observou a Erika Prado (da Dupla Aerodinâmica. Sigam este perfil!) em uma conversa em um grupo no whatsupp, a Fórmula 1 caminha para perder os fãs antigos e não conquistar novos.
Se espera 2021 com o fervor de um cristão pela volta do Messias. E se perguntar para 10 fãs da categoria, teremos 20 opiniões diferentes sobre o que tem de ser feito. Se defende do cuspe à bomba atômica. Tá chato? Tá. Todo mundo concorda. Mas o diabo são os detalhes. E por isso se está tão difícil chegar a um consenso. Até por isso, a decisão final sobre as regras ficou para outubro.
Nestas discussões, até o mais improvável foi aceito em nome de uma maior aproximação entre os times: o tal limite orçamentário, que parece contar com um teto solar (já abordado aqui). O que pega são os aspectos técnicos. A FIA liberou os detalhes e o que surgiu de principal:
- Volta do efeito solo;
- Restrição aos elementos aerodinâmicos nas asas;
- Padronização de peças (direção, freios e dutos, tanques de combustível) e áreas aerodinâmicas;
- Limitação do tamanho do entre-eixos e continuidade da especificação de distribuição de pesos.
As equipes deram um pulo. Disseram que a FIA quer restringir demais a diferenciação dos carros. Um diretor técnico chegou a dizer que os Fórmula 1 parecerão carros de Indy gigantes. Após quase um ano e meio de discussões, Ross Brawn estranhou a grita. E tudo ficou para outubro.
A comunidade da Fórmula 1 está irada por querer ver um bom produto. Pelo menos, não se sentir lesada como nos últimos tempos. É triste ter que discutir mais o que acontece fora da pista do que sobre as corridas em si. Só que agora é hora de cabeça fria e não ser açodado. Todos concordam com mudanças que tem que ser feitas para ontem. Mas a emenda pode sair pior do que o soneto. Nem tudo é bom, mas também nem tudo é uma porcaria. Em tempos de posições extremadas, o bom senso se faz mais do que necessário.


Comments