PNEUS:MILIMETROS DA DISCÓRDIA

por Sergio Milani
Nos últimos dias, o assunto pneus entrou na pauta da Fórmula 1. Foi noticiado que Ferrari e Red Bull fazem uma pressão imensa sobre a Pirelli para que esta modifique os compostos ainda este ano. Sobre os taurinos, Helmut Marko foi até mais incisivo em uma entrevista veiculada no Auto Bild, dizendo que os pneus favorecem à Mercedes e este seria um dos motivos que garantem o domínio das flechas de prata.
Mario Isola, o representante da fabricante, declarou que não recebeu nenhum pedido para mudar os compostos. E para que esta mudança fosse feita ainda este ano, teria que haver a aceitação de pelo menos 7 dos 10 times.
Para entender toda a gritaria sobre os pneus atuais, é preciso olhar para trás...
Em 2017, o regulamento técnico da Fórmula 1 sofreu uma grande mudança. Os carros ficaram maiores, mais largos e com mais carga aerodinâmica. Os pneus acompanharam e também “alargaram”. Mas por não ter muito como ter que fazer uma prévia adequada, 2018 foi o ano em que a Pirelli teve a chance de ter uma real situação do funcionamento dos pneus.
Como solução e a pedido das equipes, a Pirelli adotou compostos mais macios, para aumentar o desgaste e o apoio com a pista. Mas nos treinos de pré-temporada, a coisa começou a ficar complicada....
As temperaturas em Barcelona foram mais baixas do que as habituais, um novo asfalto foi colocado e as equipes tiveram problemas extremos: os pneus não aqueciam devidamente e apresentavam esfarelamento (o graining ou o famoso “macarrãozinho” do Burti) ou simplesmente aqueciam demais, criando bolhas.
Por isso, atendendo a um pedido da FIA e das equipes, a Pirelli alterou a composição dos pneus. Inicialmente, para Barcelona, Paul Ricard e Silverstone, a fabricante reduziu a banda de rodagem em 0,4 milimetros. O objetivo era aumentar a chamada janela dos pneus e assim melhorar a gestão dos pneus.
O que seria aumentar a janela ? Os pneus tem uma situação ótima de funcionamento, onde conseguem o seu melhor desempenho, atingindo a temperatura ideal. O grande desafio para as equipes é fazer um  acerto de suspensão que faça o carro chegar a esta "janela" e ficar nela pelo máximo de tempo, sem desgastá-lo tanto e obtendo o melhor funcionamento. Conseguindo manter o pneu o máximo nesta janela, evita o aparecimento das bolhas ("blistering") e do esfarelamento.
Esta mudança deu asas para que se dissesse que houve um favorecimento à Mercedes, que tinha um sério problema de superaquecimento dos pneus traseiros na pré-temporada. Entretanto, uma mudança foi solicitada pelas equipes e pela FIA após os resultados observados em Barcelona e a Pirelli adotou em pistas em que o asfalto havia sido refeito.
A observar que, das três etapas, a Mercedes venceu duas e a Ferrari, uma (Silverstone).
Para este ano, a Pirelli alterou ligeiramente os compostos e adotou a solução da banda de rodagem mais fina (os tais 0,4 milimetros a menos) desde o início. Para tentar melhorar a gestão, a temperatura dos cobertores de pneus foi estipulada em 100 graus na dianteira e 80 graus na traseira. Esta ação, além da ligeira redução de pressão, em tese ajuda a melhorar o aquecimento e reduzir o esfarelamento.
Mas por conta do início matador da Mercedes e da dificuldade de gestão dos pneus por outras equipes, se diz que Ferrari e Red Bull pressionam para que se mudem novamente os pneus. Na entrevista citada no início deste texto, Helmut Marko, o todo-poderoso da Red Bull, foi mais longe, dizendo que poderia pensar sim em um favorecimento aos alemães. Principalmente pelo fato de terem sido os únicos a ter adotado uma filosofia diferente de projeto, que previlegiava o apoio aerodinâmico nas curvas, quando o regulamento procurou reduzí-lo. Maior apoio aerodnamico, mais facilidade para usar os pneus (mais contato com o piso, mais facilidade para alcançar a temperatura ideal...)
Neste momento, Ferrari e Red Bull aparenteme brigam sozinhas nesta direção, sem condições de forçar uma mudança. A Pirelli se defende dizendo que todos tiveram chance de testar os pneus com antecedência e ter acesso aos mesmos dados.
Não é de hoje que os pneus tem uma influência no desempenho dos carros de corrida. Não é absurdo dizer que os carros são concebidos inicialmente levando em conta os "sapatos", para depois ser visto todo o resto. Mas na Fórmula 1 atual, em tempos de alta sensibilidade, a gestão pneumática é mais um aspecto que faz toda a diferença. E aparentemente, a Mercedes fez mais um acerto neste aspecto. Gol da Alemanha.

Comments