PASSEIO À FRANCESA


por Felipe Quintella

A banda que executou os hinos nacionais no GP da França provavelmente tinha um repertório curto ensaiado. Nada de hino tailandês, mexicano e muito menos polonês. O finlandês, o italiano e o monegasco até tinham uma chance de serem requisitados. Já o alemão era praticamente uma certeza. Mas nenhum deve ter sido tão ensaiado (nessa altura já decorado) como o britânico. No fim das contas, Lewis Hamilton fez ressoar ¨God Save The Queen¨ pela septuagésima nona vez na Fórmula 1. E dessa vez, como tem sido cada vez mais comum, sem ninguém para incomodar seu passeio.

Depois de uma corrida no Canadá extremamente polemica, o clima na França foi bem distinto. A Ferrari até tentou prolongar a discussão sobre a punição que tirou a vitória de Vettel, mas sem sucesso. Passado isso, a atenção recaiu sobre a alta probabilidade de os carros prateados só serem filmados na largada a na chegada.

A pista de Paul Ricard, que pede mais downforce do que outro fator, não propiciava um campo onde a Ferrari pudesse tentar algo. E foi bem por aí a coisa: Pole relativamente tranquila para Hamilton, largada sem sustos, estratégia segura, infinitas voltas mais rápidas e bandeirada. Temos aí a receita de uma corrida padrão 2019.  

Alguns pontos já analisados algumas vezes explicam isso. Hamilton tem sim um carro espetacular. Um carro que tirou o peso dos problemas das bolhas nos pneus e lida melhor que os competidores com essa variável tão importante. Além de uma equipe com uma funcionalidade impressionante, do mecânico ao estrategista.

Junte isso a um colega de equipe que deu esperança de uma briga interna ao estilo de 2016 mas já dá sinais de perder o gás. A diferença já é de 36 pontos. Ou seja, ao que tudo indica até aqui, Bottas não será o Rosberg 2.0 que se esperava dele. Por fim, Lewis está num nível de pilotagem raramente visto na categoria, no qual o erro é desconhecido. Aí está o lado da Mercedes da equação. E nenhum desses pontos é completamente responsável pela falta de competividade na Fórmula 1. O mérito deles ainda está lá.

A Ferrari não consegue brigar nem do lado técnico (embora tenha trazido novidades para esta corrida), muito menos pelo tático.  Isso faz com que a equipe fique confinada ao posto de segunda colocada, eventualmente brigando com Max Verstappen. O terceiro lugar de Charles Leclerc ilustra bem isso. O jovem piloto até se animou com a possibilidade de incomodar Bottas nas últimas voltas. Porém, isso foi causado por um problema no motor do finlandês. Já Vettel teve que contentar com o quinto posto, ao lado do ponto extra pela melhor volta. Um ponto que o alemão conseguiu por uma margem de 24 milésimos. Com isso, o tetracampeão segue na terceira posição do campeonato, com 111 pontos. Já Leclerc manteve a quinta colocação, com 87.

Max Verstappen fez o que podia ser feito. O quarto lugar mostra o esforço do holandês em colocar o carro de Red Bull no páreo. A equipe austríaca não sofre mais com os problemas de confiabilidade da unidade de potencia da Renault, mas ainda se adapta à da Honda. Mas há uma discussão maior na garagem do time dos touros: Pierre Gasly. Isso porque o francês está levando uma das maiores goleadas do grid em disputa com seu companheiro de equipe. São 100 pontos para Max, contra 37 de Pierre. E para piorar, na corrida da França o piloto do carro #10 conseguiu pontuar apenas com a punição de Daniel Ricciardo, que o alçou para o décimo lugar. Pelo histórico da equipe, não seria surpresa uma substituição para logo.

A grande surpresa positiva do final de semana foi o desempenho da Mclaren. Depois de muito tempo, a equipe colocou seus dois pilotos largando na terceira fila, com Sainz em quinto e Norris em sexto. Na corrida a perda de posição para Vettel não foi nenhuma surpresa, mas o desempenho da dupla foi o suficiente para segurar a liderança do pelotão intermediário. Até que Norris começou a enfrentar problemas hidráulicos e caiu para décimo. Com a punição de Ricciardo, subiu para nono. De quebra o jovem britânico foi votado como piloto do dia. Dessa forma, a Mclaren continua liderando os construtores entre as equipes intermediárias, com 40 pontos. Sainz assume esse papel no campeonato de pilotos, com 26 pontos.

O problema hidráulico de Norris nos leva à polemica da corrida. Com a perda de rendimento do carro laranja, Ricciardo, Raikkonen e Hulkenberg se aproximaram. O australiano conseguiu a chance de ultrapassar na chicane da Mistral. Na freada, conseguiu colocar o carro a frente, mas passou reto na curva, voltando, na opinião dos comissários, de forma perigosa ao traçado. Esse movimento acabou empurrando Norris para fora, na hora de retomar a reta. Acabou levando 5 segundos por esse lance. Na verdade, os dois pilotos apenas reagiram um ao outro, sabiam de suas posições, mas passaram por fora das linhas brancas. Regra aplicada, mas nada incentivadora de um esporte altamente competitivo como a Fórmula 1.

Logo depois de brigar com Norris, Ricciardo partiu para cima de Raikkonen, na reta. Passou o finlandês, só que do lado de fora da pista. Em Paul Ricard, isso é um pouco mais difícil de conceber, já que tudo é pista. O piloto da Renault levou mais 5 segundos por isso. A regra estipula que ultrapassar por fora é proibido, logo a decisão foi acertada. Mas provavelmente Daniel não teria tentado passar por ali, no calor de uma prova de Fórmula 1, caso tivesse grama ou brita no caminho.

Ricciardo acabou caindo para a P11, depois de uma de suas melhores corridas do ano. Como sempre, reagiu relativamente bem, postando no Twitter que estava feliz por oferecer entretenimento. Assim, a discussão sobre o que a Fórmula 1 quer com essas punições retorna, mesmo que em menor escala. E essa discussão, ao lado de pouca disputa na pista, não combina em nada com a categoria que a Liberty Media luta para pintar nas redes sociais. Os memes e a incrível música de abertura não fazem parte do rigor da FIA até aqui.

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