DE OLHO NO JUIZ (OU NO COMISSÁRIO)

por Sergio Milani
No futebol, há uma máxima que, se o juiz não aparece no jogo, fez bem o seu papel. Podemos também dizer que isso acontece no automobilismo. Se o diretor de prova ou equipe não aparece, fizeram bem o seu papel.
Entretanto, o limite é bem tênue. Embora ambos os esportes tenham regras para ser cumpridas, várias são de caráter interpretativo. Então, o árbitro,dependendo da postura diante dos fatos, pode ser considerado “frouxo” ou “isentão”. Ou até mesmo “injusto”. O exemplo mais acabado de uma situação desta foi o que aconteceu no GP do Canadá.
Como escrevi em meu perfil no facebook, o que devemos considerar: Razão ou emoção? Deixar as coisas como acontecem na pista ou ficar preso à letra fria da lei?
Ser árbitro não é uma questão de querência. Acho que nunca veremos alguma criança dizendo “quero ser árbitro quando crescer”. Não se pode esperar que o mítico Rei Salomão seja reencarnado na Terra e tome parte em cada peleja. Ainda há a velha máxima de que “todo diretor de prova é um piloto frustrado” (é meio adaptado isso aí). Mas não é para ser considerado.
Ser árbitro é, acima de tudo, uma consequência. Chegar a este ponto deve ser preferencialmente por competência, embora vários consigam pelos lances subjetivos da política. Mesmo que seja um indivíduo do mais alto escrúpulo a ocupar o posto, sempre haverá uma desconfiança sobre suas ações.
No caso específico da Fórmula 1, a coisa chegou a uma encruzilhada: os pilotos querem ter liberdade, mas pedem que as regras sejam bem esclarecidas. E quando se tem regras muito bem explicadas, se questiona a aplicabilidade. Kimi Raikkonen resumiu bem em uma fala neste fim de semana: eles (os comissários) dizem que estamos mais livres para disputar e daí coisas como essa (punição) acontece.
Uma das coisas que se pede para evitar este tipo de coisa é a inclusão de comissários permanentes. Quem defende esta linha pensamento diz que seria algo que daria uma maior homogeneidade às decisões. Entretanto, esta ação não seria uma garantia da manutenção de parâmetros para punições ao longo do tempo.
A política atual, de ter um rodízio de comissários, é interessante. Nos últimos anos, se incluiu a figura do comissário piloto e se desenvolveu um software para dar base às decisões. Além disso, equipe tem acesso a várias câmeras e dados de rádios e telemetria para auxiliar no processo de punições. E mesmo com estas ferramentas, temos diversos questionamentos sobre as decisões tomadas.
Este ano, há um agravante: o “comissário mestre”, Charlie Whiting, morreu às vésperas da temporada começar. E até agora a FIA ainda está “batendo cabeça” para chegar a um padrão em relação às decisões e procedimentos. Quem participa do dia-a-dia das provas diz que vários acertos estão sendo feitos a cada prova. Até o fim do ano, deveremos ter muitas novidades sobre este campo.
Não existe uma fórmula mágica e definitiva. Antes de tudo, é preciso ter bom senso tanto na análise como na definição das regras. O equilíbrio entre “ser justiceiro” e “em prol do espetáculo” , embora difícil, deve ser buscado e faz toda a diferença. Ainda mais no caso da Fórmula 1, onde a FOM tem olhos de lince com números de audiência e percepção de público.
Tanto quanto no futebol como no automobilismo, a máxima é a mesma: o juiz não pode aparecer mais do que os artistas do espetáculo, embora sejam parte dele. E sempre haverá discussão, pois nem todas as regras poderão ser mandatórias, de aplicação automática. O fator humano será impactante nestes casos. O que se pode fazer é melhorar o processo para todos os envolvidos.

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