CANADÁ EM CHAMAS


Por Felipe Quintella
A temporada 2019 da Fórmula 1 vinha privando os fãs de grandes emoções ou surpresas. Tirando a primeira vitória frustrada do “estreante sensação” Charles Leclerc no Bahrein, o domínio da Mercedes ofuscava qualquer outra grande história. Até que chegamos ao GP do Canadá. A pista de Montreal foi cotada como umas das poucas chances que a Ferrari teria no ano de ver a bandeira quadriculada primeiro.
A qualificação retumbou essa previsão, quando Sebastian Vettel conquistou a primeira pole do ano, com Leclerc em 3º. Caso o alemão conseguisse segurar Lewis Hamilton e os caras de vermelho não errassem nas contas novamente, a quebra de sequência era bem possível. E foi isso que estava se desenhando até a 48ª volta da corrida.
Antes do polêmico lance, vamos ao estado da disputa. Vettel havia conseguido manter uma vantagem decente sobre Hamilton até um pouco antes de sua parada. A Ferrari chamou seu piloto e deixou a Mercedes com algumas opções. Uma delas seria deixar o britânico mais tempo na pista e depois calçar os macios para passar na pista.
Mas logo o atual campeão começou a sofrer com os pneus e os alemães decidiram marcar os rivais. Pronto: teríamos os dois principais pilotos da categoria disputando na pista a liderança. Qualquer fã que torce pela boa disputa estava contente.
Então Vettel comete um dos seus frequentes erros. Mais um cometido sobre intensa pressão, lutando para segura sua liderança. As inúmeras rodadas de 2018 pareciam se repetir. Mas ele milagrosamente conseguiu manter a ponta, salvando sua corrida e quase colidindo com Hamilton. Ótimo, a disputa entre os dois continuaria.
Até que vem a investigação e finalmente a punição. Não há porque omitir isso: pulei do sofá. Aquilo parecia uma conspiração, armação, conluio. Simplesmente era o atestado de que a Mercedes era imbatível, até quando era batida. E fui acompanhado por muitos no mundo fervoroso das redes. A indignação de quem acompanha o esporte, mesmo quando a estrela não é a disputa pela ponta.
Depois da corrida, quando Vettel saiu bufando do carro, quase escapa do pódio e faz a agora famosa troca de placas, o sentimento continuou. Mas agora de que era isso que faltava. Se não tínhamos dois carros com condições de lutar pelo título, que um “climão” no pódio e polêmica sem fim nos satisfaçam.
Porém, como sempre, o tempo e a calma atuam na direção do bom julgamento. Passado esse estado de euforia, vamos ver o que podemos aprender com esse caso. Primeiramente, não foi um punição descabida. Muito pelo contrário, os comissários têm bases fortes no regulamento para sustentar a decisão. A manobra de Vettel foi perigosa, já que o toque foi evitado por pouco. Contudo, a questão era interpretativa. Tanto é que um episódio parecido, entre Hamilton e Ricciardo em Mônaco, em 2016, foi lembrado. Naquela ocasião não houve punição. Na situação de 2019, Vettel estava com o carro instável, e qualquer movimento mais brusco para a esquerda provavelmente significaria muro até para os dois.
A direção de prova foi acusada de tomar a decisão em um vácuo, sem levar em conta a situação no campeonato. E seu papel é exatamente esse. Para o fã de F-1 que descrevi nos parágrafos anteriores, já cansado das vitórias praticamente administrativas de Hamilton, isso pegou mal. A punição foi vista como prejudicial ao espírito de corrida. A mensagem que chegou foi que a disputa que é incentivada não é na pista, com os carros a centímetros um dos outros. Contudo, se também ignorássemos as cores dos carros e quem estava ao volante, talvez tomaríamos a mesma decisão. Imagine por um momento Pérez e Magnussen dividindo aquela curva.
Na verdade, esse episódio é um produto do tempo que a Fórmula 1 vive. Um esgotamento com regras e previsibilidades, aliado à nostalgia do tempo dos pilotos “bad boys”. A categoria respondeu a ele da forma como seu estilo hoje manda: protocolarmente. E isso, hoje, não é um erro. Mas um erro grave será ignorar a imensa manifestação dos fãs, que depois de tantos anos, não se seguraram ao ver um campeão vaiado e o outro trocando placas.

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