ZANDVOORT: TUDO O QUE VOCÊ PRECISA SABER, MAS NÃO SABE, SOBRE O LOCAL DO GP DA HOLANDA.


por Ialdo Belo

Zandvoort é um balneário a beira do Mar do Norte, cerca de 25 Km. a oeste de Amsterdam. Lugar da alta classe média, a pequena cidade de cerca de 16 mil habitantes poderia ser comparada ao que um dia já foi o Guarujá, em São Paulo. Seu autódromo, que a tornou conhecida mundialmente, foi inaugurado em 1948 e abrigou corridas da F1 já a partir dos anos 50.
Em 1973, o mundo assistiu horrorizado a morte de Roger Williamson num acidente ao vivo diante das câmeras de televisão, que ao contrário de hoje em dia, continuaram a mostrar o piloto inglês agonizando até sua morte. Mas nem isso foi capaz de tirar Zandvoort do calendário da F1. A prova continuou sendo disputada até 1985, tendo Niki Lauda como seu último vitorioso e Alberto Ascari como o primeiro. Dentre os brasileiros, Nelson Piquet, há época casado com a holandesa Sylvia Tamsma , foi o único a triunfar por lá.

Apesar de possuir aquela que é considerada a curva mais perigosa que já existiu na F1, a curva do Tarzan, o autódromo deixou de fazer parte do cenário da F1 por um motivo bem diverso: o engajamento da população que não queria mais suportar o barulho, a poluição e a agitação que a categoria trazia. Fora do calendário, o lendário circuito foi perdendo sua importância ao longo dos anos, uma das baixas mais recentes foi a DTM relocada para Assen, e até agora parecia destinado a promover apenas certames regionais, numa lenta agonia para o fim.

O COMEÇO DA VIRADA

O autódromo foi adquirido pelo príncipe de Orange-Nassau Bernard von Vollenhoven no início dos anos 2010. Conhecido como um grande especulador imobiliário, Vossa Alteza não é das personagens mais admiradas pelos holandeses, que o culpam, inclusive, pelo alto custo dos imóveis em Amsterdam.
Desde que adquiriu a pista, Vossa Alteza traçou como meta o retorno da F1 o que foi visto com ceticismo pela imensa maioria da população que até neste momento, mesmo com a confirmação da prova para o ano que vem, ainda se recusa a acreditar que vá realmente ocorrer.

Entretanto, numa combinação de oportunismo e sorte, surgiu o fenômeno Max Verstappen, que de holandês só tem o pai visto que nasceu na Bélgica, filho de mãe belga e lá foi criado até que o pai Jos, ex-piloto de F1, decidiu que o futuro automobilístico do filho estava mais atrelado a Holanda do que a sua terra natal.
Graças ao fenomenal sucesso de Max, parte dos holandeses começou uma campanha exigindo o retorno da F1 ao país e numa disputa direta com Assen, o príncipe levou a melhor.

POR QUE SER CONTRA?

Hoje, a tecnologia empregada nos carros da F1 derrubam facilmente os argumentos dos ativistas ambientais dos anos 80, entretanto, a infraestrutura da cidade de Zandvoort e até mesmo a de Amsterdam colocam em xeque se esta decisão foi acertada devido aos problemas que serão gerados.
O acesso a Zandvoort é precário mesmo sem F1. No verão, seus monumentais engarrafamentos nas vias de acesso ao balneário se extendem por quatro, cinco horas, levando à beira da loucura os que se aventuram na empreitada, de automóvel ou ônibus.
O trem, alternativa mais viável, já está sobrecarregado e apesar de no noticiário desta manhã as rádios holandesas terem anunciado um plano governamental com trens saindo a cada cinco minutos de Amsterdam com destino a Zandvoort no final de semana da F1, hoje a capacidade energética não suportaria tal demanda, ou seja, serão necessárias obras caras e urgentes para tornar isso realidade.
Além disso, Zandvoort não tem a mínima estrutura para hospedar 200 mil pessoas durante o período e Amsterdam já enfrenta problemas suficientes com o turismo, tanto que a prefeita está estudando nos últimos anos planos para limitar o número de turistas que visitam a cidade.
Também nos noticiários holandeses de hoje, já ficou estabelecido que os pilotos e demais membros do circo se deslocarão de helicóptero entre as cidades. Junta-se a isso o mesmo meio de transporte sendo utlizado por vips e veremos o caos nos céus holandeses.

QUEM BANCOU?

Respeitando as exigências da população, o governo holandês se recusou a assumir o compromisso financeiro exigido pelos promotores da F1, mas, a iniciativa privada encarou a tarefa e devido principalmente ao apoio de seis empresas o sonho se tornou realidade. São elas:

Talpa

Primeiro de tudo, há a empresa de mídia do magnata John de Mol (o criador do reality show Big Brother). A Talpa Network, conhecida, entre outros, pelo canal de televisão SBS 6 e Veronica, tem uma grande participação no Grande Prêmio dos Países Baixos. Como a Ziggo Sport é detentora dos direitos oficiais na Holanda no que diz respeito à transmissão da Fórmula 1, ainda não está claro até que ponto a Talpa irá desempenhar um papel na distribuição de imagens.

Heineken

A maior cervejaria do país, que se tornou parceira de Fórmula 1 desde 2016, não poderia ter sido esquecida. A Heineken atuará como patrocinadora do Grande Prêmio da Holanda, um papel que envolve várias dezenas de milhões de euros. Aliás, isso não é novidade para o fabricante de bebidas, que no passado já patrocinou de forma isolada vários outros GPs.

Jumbo

A cadeia de supermercados de Frits van Eerd, que é fanático por corridas, no passado não conseguiu o Grande Prêmio da Holanda, mas também entrou nessa. Os logotipos do Jumbo serão claramente visíveis durante a 31ª edição do GP holandês, que acontecerá no próximo ano. O Jumbo e o circuito em Zandvoort, claro, foram conectados por anos durante os Jumbo Race Days.
O Jumbo também é um dos patrocinadores pessoais de Max Verstappen.


Volker Wessels

Uma das maiores empresas de construção da Holanda também abriu a carteira para realizar o Grande Prêmio em seu próprio país. O Royal Volker Wessels Stevin, simplesmente denominado VolkerWessels, é um dos patrocinadores do Grande Prêmio da Holanda. Mas, agora vem a surpresa: 42,5% das açõe da Volker pertencem nada menos do que a CVC... Lembram dela?

Holdings Pon

Inseparável do Circuito Zandvoort, onde o piloto de corridas Ben Pon participou em sua primeira e única corrida de Fórmula 1. A Pon Holdings, uma organização internacional de comércio e serviços que tem a Volkswagen, a Caterpillar e a MAN como importadora de seu portfólio, é a quinta patrocinadora do Grande Prêmio da Holanda.

CM

Um gigante na comunicação com o cliente completa a imagem dos patrocinadores. O CM é uma plataforma autoproclamada como 'tudo-em-um' para comunicação e pagamentos '. Centra-se nos métodos de pagamento "next gen" e nos dados do cliente.

CURIOSIDADES

Uma das mais famosas curvas de toda a história da F1, a Tarzan tem esse nome por um motivo nada ortodoxo: quando os terrenos para a construção do autódromo estavam sendo adquiridos, o dono de um deles bateu o pé e disse que só venderia se no local tivesse uma curva com o seu apelido que era... Tarzan.
O autódromo está localizado praticamente dentro da praia, numa área de dunas.
A maioria dos pilotos que hoje disputam a F1 já correu em Zandvoort em outras categorias.
Jan Lammers, holandês e ex-piloto de F1 é hoje o diretor Esportivo do circuito e caberá a ele a responsabilidade de fazer acontecer.

Comments

  1. Parabéns pela matéria riquíssima em detalhes e da história deste circuito! Mas essa curva Tarzan foi modificada ou é idêntica a dos anos 70?

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    1. É a mesma e o traçado não deverá sofrer modificações, visto que já tinha sido aprovado preliminarmente por Charlie Whiting.
      As reformas deverão se concentrar nas instalações e modernização, tipo áreas de escape maiores, etc...

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