SAI OU FICA? A PETROBRAS DECIDE.

por Ialdo Belo
Não é de hoje que o patrocínio da Petrobras à McLaren é assunto para discussão. No início do ano, vários veículos, especializados ou não, deram como certo o fim do acordo mesmo antes da temporada começar. Escrevemos em fevereiro sobre o assunto, no antigo “Radio Paddock”, dizendo que 2019 estava garantido.
E ao contrário de que muitos escreveram, a Petrobras estampa sua marca no atual MCL34. E hoje, o site Máquina do Esporte dá como “exclusivo” que o acordo será descontinuado, com a petroleira brasileira rescindindo o contrato.
Como no início do ano, várias indicações neste sentido foram dadas. Mas agora mais incisivas, com as falas do Ministro Osmar Terra e do Presidente da empresa, Roberto Castello Branco. Este último inclusive declarando que “não faz sentido uma empresa de um país de economia emergente, de renda mais baixa, financiar uma equipe de competição de um país desenvolvido”.
Entretanto, é preciso detalhar o assunto.
É fato que a Petrobras vem revendo seu portfólio de patrocínios, o que é normal em qualquer empresa. Inicialmente, o foco seria tirar de determinadas áreas e direcionar para projetos mais voltados à educação e tecnologia, além de apoiar o esporte olímpico. No automobilismo, a empresa anunciou semanas atrás que não apoiará a Seletiva de Kart, o que fez nos últimos 20 anos. Nos demais, a tendência era manter os contratos firmados à longo prazo. Neste caso, enquadram-se os apoios à Copa Truck, Stock Car e à McLaren.
E como é do padrão da empresa, o orçamento é revisto até o meio do ano, dentro do Plano de Negócios e Gestão (PNG). Nele, a Petrobras faz uma análise quadrienal de seu orçamento, com ênfase no ano seguinte. Como as variáveis de negócio mudam, todo ano há uma reavaliação geral de valores e programas para os próximos ciclos. Atualmente, o trabalho vem sendo feito sobre o período 2020-2023.
Focando no caso específico da McLaren, a parte técnica e o marketing da empresa veem o acordo com bons olhos. Embora a equipe inglesa ainda esteja usando somente os lubrificantes (a gasolina foi aprovada, mas alguns aspectos de ordem prática ainda impedem o uso efetivo imediato), novos produtos foram desenvolvidos e houve o grande aumento da exposição mundial (estima-se que para cada 1 dólar gasto seria o equivalente à 4 dólares que seriam gastos para igual exposição caso se fosse comprar o espaço publicitário equivalente), com substantivo aumento no impacto positivo à percepção da marca. Tanto que hoje a Petrobras também está estampada no carro 66 de Fernando Alonso na 103ª edição das 500 Milhas de Indianápolis.
Mesmo com estes aspectos positivos, uma outra parte da Diretoria considera que não vale a pena o esforço e o investimento (haja vista a declaração do Presidente). Afinal de contas, não são poucos os que bradam nas redes sociais que “dinheiro da gasolina não é para ir à Fórmula 1”, “estatal não deve apoiar empresa estrangeira”, “a gasolina é cara porque banca a Fórmula 1” entre outras coisas . Isso é levado em conta também pela Presidência da República, responsável em ultima instância pela decisão, embora a Petrobras seja uma empresa de capital misto. Outra saída pode alegar que não tem como garantir o fornecimento de combustível, o que daria mais subsídios para negociar o término do contrato.
Considerando o valor de cerca de 10 milhões de libras esterlinas anuais até o final do contrato, haveria cerca de 40 milhões como resíduo até 2023 (mais de R$ 205 milhões usando a cotação de hoje, dia 16) e é este valor que a Petrobras negocia com a McLaren para uma possível rescisão. Que deverá bater à porta da British Petroleum, fornecedora da Renault, para atender às suas necessidades totais (a gasolina é fornecida pela empresa, em tese até quando a Petrobras entregar o seu produto).
Não nos esqueçamos que a McLaren hoje é comandada por um americano (Zak Brown) e conta com advogados ingleses. É uma combinação bastante indigesta para negócios...A rescisão encaminha-se como certa e, caso se concretize, a Petrobras dificilmente sairá com os bolsos ilesos.
A decisão final será tomada em breve, quando o orçamento de 2020 será confirmado. Nada ainda está descartado e enquanto isso, o cabo de guerra interno e as negociações continuam a pleno vapor entre Rio de Janeiro e Woking (Inglaterra).



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