NOVO CHEFE NA MERCEDES, FUSÃO FCA X RENAULT...E A F1?

Por Sergio Milani
Duas ações em uma semana no mundo automobilístico podem ter impacto o futuro da Fórmula 1...vamos as elas e entender o processo.
TROCA DE GUARDA NA MERCEDES
Após 13 anos, Dieter Zetsche deixou o posto de CEO da Daimler AG (a Mercedes Benz é das marcas do grupo) na quarta-feira passada. O engenheiro alemão, inicialmente conhecido pelo seu frondoso bigode, tirou o grupo de uma situação complicada e o fez crescer vigorosamente, além de se tornar uma figurinha fácil na divulgação da marca (procurem no You Tube uma sequência de comerciais feita por ele para promover carros da DaimlerChrysler nos EUA e Canadá – “Ask Dr. Z”).
Além disso, foi um dos entusiastas do programa de competições da fábrica alemã (embora tenha demorado a aceitar a compra da Brawn GP), aparecendo por diversas vezes no paddock e nas transmissões. A última aparição foi no GP da Espanha, onde a equipe o homenageou com quase todo mundo usando um bigode postiço (inclusive os carros).
Até aí, nada demais. Faz parte do jogo empresarial a mudança de comando e esta foi anunciada em setembro do ano passado.  E Zetsche não se afastará de todo: em 2021, assumirá o posto de Presidente do Conselho de Supervisão da Daimler (holding controladora do grupo).
Mas esta mudança no comando pode colocar dúvida o futuro do envolvimento da Mercedes na Fórmula 1?
A partir do dia 22, assumiu o posto Ola Källenius, um sueco de 49 anos, sendo o primeiro não-alemão a ser presidente da empresa em 122 anos de existência. Cria da própria Mercedes, Källenius conhece como poucos as entranhas da organização e tem objetivos básicos bem definidos: cortar custos, aumentar a lucratividade e entrar com força na tendência de eletrificação da linha, pretendendo produzir carros com emissão zero de poluentes até 2039.
Oficialmente, o novo chefe não falou nada sobre as atividades esportivas. Neste campo, o que sabe é que ele já foi responsável pela divisão de motores (High Performance Engines, localizada em Brixworth, na Inglaterra) e comandou a AMG. No ano passado, quando do anúncio da troca, Toto Wolff fez questão de vir à público dizer que Källenius era um “forte apoiador da Fórmula 1 nos últimos anos” e que “sua escolha significava estabilidade para o projeto da equipe”.
Entretanto, não se sabe se por maledicência ou realidade, diz-se que a relação de Toto com o novo chefe não é de extrema leveza. Justamente em um momento em que grandes mudanças estão em curso na categoria, exigindo maiores gastos (promete-se a divulgação das novas regras em junho), além da morte de Niki Lauda, um dos sócios da equipe (10%).
Outro fator é o envolvimento mais efetivo da Mercedes na Fórmula E a partir da temporada 20/21. E a categoria vai justamente de encontro com a visão de eletrificação defendida por Källenius. Sem contar que é uma operação que demanda custos menores, embora haja uma integração com a equipe de Fórmula 1.
Não coincidentemente, a Mercedes começou a acenar que aceitaria a colocação de um teto orçamentário. E como o contrato da montadora com a FOM encerra-se agora em 2020...
Hoje, a Mercedes é uma operação vitoriosa e de grande visibilidade, com um custo relativamente baixo pela a empresa (estima-se que a Daimler garanta cerca de 20% do orçamento da equipe, estimado em 450 milhões de dólares, vindo o resto de patrocinadores e premiações e dos outros acionistas). E com as diretrizes estabelecidas pelo novo chefe, seria absolutamente normal que o projeto sofra, no mínimo, uma reavaliação.
É cedo para falar alguma coisa. Mas é hora de botar as barbas (ou os bigodes) de molho. Uma redefinição do papel da Mercedes na categoria hoje causaria um belo ruído. Além de ser a principal equipe, fornece unidades de potência para mais duas equipes (Racing Point e Williams), além de ser apoiadora do GP da Alemanha este ano. Pensar em uma saída ao estilo Renault em 2009 não seria algo desbaratado (foco em fornecimento de unidades de potência e vender a operação).
O fato é que um dos grandes defensores da equipe se vai.  Com a morte de Lauda, a posição de Toto se enfraquece (diz-se que ele poderia comprar as ações de Lauda para ter mais força). Pode até não acontecer nada, se considerarmos as palavras oficiais de que a marca está fortemente comprometida com o futuro da categoria e que a Fórmula 1 é altamente relevante para a empresa. Mas as cartas sobre a mesa se embaralham com força....
FUSÃO RENAULT X FCA
Na última segunda, dia 27, uma notícia veio sacudir as estruturas: o grupo FCA (que abrange Fiat, Chrysler, Jeep, Alfa Romeo e outras marcas) propôs uma fusão com a Renault. A proposta, que será analisada pelo Conselho de Administração da marca francesa, prevê a criação de uma nova empresa, dividida igualmente entre as duas firmas. Tal união criaria a terceira maior fabricante mundial, atrás de Volkswagen e Toyota.
Este movimento seria interessante para ambas as partes e está em linha com o pensamento do finado Sergio Marchionne, que tinha como objetivo garantir posicionar a FCA de maneira a prosseguir de modo relevante entre os principais grupos automobilísticos internacionais. O programa de investimento apresentado por ele ano passado (o seu último grande ato público) vai nesta linha.
A primeira coisa que apareceu colocado por alguns e tomou as redes sociais como praga seria a possibilidade da Renault usar motores Ferrari no futuro. Ou até mesmo a continuidade da marca francesa na Fórmula 1.
Uma primeira coisa deve ser dita: a Ferrari não é da FCA. Por anos, a Ferrari foi controlada pela Fiat (90%), com 10% permanecendo com Piero Lardi, filho de Enzo Ferrari. Anos atrás, parte da empresa foi vendida a um fundo árabe para levantar dinheiro para a empresa e capitalizar a controladora (em 2010, a Fiat recomprou a parte vendida).
Com a formação da FCA em 2014, a Ferrari foi separada do grupo em 2016. Os 10% de Piero Lardi permaneceram intactos e a holding Exor ficou com 22,9% das ações. O restante, foi colocado na bolsa de valores.
Mesmo com a empresa tendo maioria das ações listadas em bolsa, a Ferrari tem a gestão sendo tocada efetivamente pela Exor e Piero Lardi. Esta ligação com a Exor que faz oficialmente a Ferrari ter alguma ligação com a FCA.
A Exor nada mais é do que a empresa que controla os interesses da família Agnelli em diversos ramos de atuação, incluindo a FCA. Hoje, é dirigida por John Elkann, neto de Gianni Agnelli. Entre outras coisas, Elkann é Presidente da FCA e tornou-se Presidente do Conselho da Ferrari, após a morte de Sergio Marchionne (que era uma espécie de guru para ele). E seria o Presidente da empresa resultante da fusão, conforme as notícias.
No curto prazo, esta fusão, que precisa ser aprovada por diversas entidades regulatórias e ainda ter o OK dos governos italiano e francês (este ainda possui ações da Renault após o processo de privatização feito no final da década de 90), não altera o quadro.
Hoje, a FCA tem diretamente a Alfa Romeo como equipe. E se aproveita da ligação com a Ferrari para desenvolver seus carros. E hoje fazem parte do “guarda-chuva” italiano para a Fórmula 1, junto com a Haas de certa forma. Já a Renault tem acordo com a Fórmula 1 até 2024 (é a única hoje nesta situação). O que poderia ser visto no longo prazo seria a participação das marcas. Esta nova empresa teria duas equipes diretamente na categoria.
Pode haver alguma colaboração no curto prazo? Pode, por que não? A Honda não teve uma “ajuda” de seus pares nos últimos tempos e também deu consultoria à Ferrari lá atrás? Mas a Renault vem fazendo um grande investimento nas suas instalações em Enstone (Inglaterra) e Viry-Chatillon (França) nos últimos anos e uma mudança neste sentido seria contraproducente...
Poderemos sim ter alguma movimentação no médio prazo. Mas as coisas como estão hoje fazem sentido, ainda mais que a Alfa Romeo hoje é tida como uma marca “premium”, para bater com BMW e Mercedes. E que tal um “blocão” de 4 equipes para apitar na Fórmula 1, embora atualmente Ferrari e Renault tenham poucos pontos de interseção sobre o futuro da categoria?
Como diria o velho Barão de Itararé, de onde menos se espera é que não sai nada mesmo. Vejamos os próximos acontecimentos.



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