HISTÓRIAS DE MÔNACO ALÉM DE HAMILTON

por Felipe Quintella
O GP de Mônaco de 2019 presenciou várias histórias interessantes, na ponta e no fundo do grid. Em um final de semana marcado por homenagens (que nunca serão suficientes) a Niki Lauda, Lewis Hamilton conquistou sua terceira vitória no tradicional circuito de rua. O penta campeão e atual líder do campeonato classificou essa corrida como uma das mais difíceis de sua carreira. Já que ele é a única pessoa que pode fazer juízo disso, vamos ao contexto factual.
A grande dificuldade enfrentada por Hamilton foi causada por um erro da equipe Mercedes, algo raro de ser ver. Depois de um Safety Car no começo da prova, os alemães optaram pelos pneus médios, que deveriam durar quase 70 voltas. Enquanto isso, os seus três rivais diretos pela vitória (Verstappen, Vettel e Bottas) calçavam os duros. Como se administrar o desgaste dos pneus por tanto tempo não fosse suficiente, o britânico teve que se defender o tempo todo de Verstappen.
Sabemos que a ultrapassagem em Mônaco é difícil, mas nada impossível. E o holandês tentou como pôde até a penúltima volta, quando arriscou um mergulho na chicane Nouvelle. Tocou roda com roda com Hamilton, que acabou ganhando um certo alívio para vencer a prova. Após a corrida, veio a informação de que o holandês estava com um mapeamento errado e prejudicou um possível ataque
Verstappen havia conquistado a posição de Bottas nos boxes. Ele foi liberado pela Red Bull no tempo exato de colocar seu carro lado a lado com o finlandês e sair na frente no final do pit lane. Mas como houve um toque entre os dois, a direção de prova entendeu que foi perigoso ter liberado o carro 33 naquele momento. Isso acabou rendendo cinco segundos de punição para Verstappen, que agora teria que colocar cinco segundos em Hamilton para vencer. Como a ultrapassagem não aconteceu, ele teve que se contentar com a P4.
Quem mais se aproveitou da punição de Verstappen foi Vettel, que acabou herdando o segundo lugar. Dessa forma, o alemão conseguiu finalmente quebrar a sequência de dobradinhas da Mercedes. Se Bottas e Verstappen não tivessem se estranhado e se a corrida não fosse em Mônaco, provavelmente a sexta dobradinha viria.
Com as condições que estavam em jogo, Vettel apostou na herança dessa P2 e não interferiu na briga entre os dois primeiros. Mesmo com esse resultado, ele sabe que a Ferrari ainda tem muito trabalho pela frente, e que o ritmo da equipe nesse final de semana não condiz com essa colocação.
Essa foi a parte mais aparente do fim de semana. Mas tivemos algumas histórias que ajudaram a tornar este GP de Mônaco mais interessante....
Outra boa história para se acompanhar no último domingo foi a de Charles Leclerc. Largando da P15 por um erro grosseiro da Ferrari na qualificação, ele teria que dar tudo de si para chegar em uma boa colocação. Nas primeiras voltas o piloto da casa fez exatamente isso. Fez uma bela ultrapassagem em cima de Grosjean, passando seu carro pelo do francês na Rascasse. Porém, ao tentar repetir o movimento contra Hulkenberg, perdeu o controle e levou dano no carro.
Logo ele tinha que lidar com um pneu estourado, que danificou outras partes da Ferrari. Leclerc conseguiu chegar aos boxes, mas não conseguiu evitar o abandono. Curiosamente, o monegasco não tem sorte em casa, abandonando pela segunda vez seguida em sua carreira na Fórmula 1, sem contar com outro DNF em 2016, quando corrida na F2.
Pierre Gasly praticamente maximizou seus resultados nessa corrida. O francês da Red Bull largou da oitava posição e terminou na quinta, atrás apenas dos quatro protagonistas. Como tinha uma vantagem bem grande para o sexto colocado no final da prova, calçou os pneus macios e anotou a melhor volta, conquistando seu pontinho extra. Para quem estava sendo questionado já no começo de 2019, foi um trabalho bem feito.
O dono de um dos melhores desempenhos no principado foi Carlos Sainz. O espanhol começou da nona posição, e largou muito bem. Na freada da curva 3 conseguiu uma ultrapassagem impressionante, por fora, em cima de Kvyat. A partir daí, sua McLaren impôs um ritmo consistente, acertou na estratégia e o colocou na P6 na hora da bandeirada. Interessantemente, Mônaco é uma pista muito forte para Sainz: ele pontuou em todas as suas participações na prova.
O companheiro dele, Lando Norris, não compartilhou da mesma alegria. Largando da P12, o jovem britânico apostou em uma estratégia diferente. Colocou primeiro os médios e depois os macios. Porém, isso não rendeu a ele mais do que a 11ª colocação.
A Toro Rosso também foi um destaque positivo da prova, pontuando com seus dois pilotos. Em sua melhor colocação pela equipe, Kvyat terminou na P7, com Albon logo atrás, na P8. Com isso, todos os quatro carros equipados com o motor Honda terminaram na zona de pontuação. Em entrevista, Albon destacou a boa estratégia da equipe e a boa economia de pneus, essenciais para o resultado.
Daniel Ricciardo também tinha tudo para estar nessa relação de destaques positivos. Na largada, o australiano conseguiu conquistar a posição de Magnussen e se acomodou no “melhor do resto”, na P5. Contudo, a Renault decidiu chama-lo para a troca no momento do Safety Car. Ao contrário de alguns de seus colegas, Ricciardo não se deu bem com essa opção. Ele ficou preso atrás de carros mais lentos, que estavam em outra estratégia, e terminou na P9. Não deixa de ser um bom resultado para os franceses, mas um quinto lugar seria muito melhor.
O décimo colocado, Romain Grosjean, apostou em uma estratégia a princípio realista. A Haas decidiu por deixar o francês mais tempo na pista e esperar por outro Safety Car. O stint foi tão longo (com os macios equipados) que o engenheiro de Hamilton usou Grosjean como exemplo para encorajá-lo. O carro de segurança não veio, mas a P10 não foi nada mal. Ele não havia conseguido se classificar para o Q3, ao contrário do companheiro Magnussen, que levou uma punição após a prova, tendo tempo acrescido e caindo da 12ª para a 14ª posição.
Sergio Perez terminou na 12ª posição, e teve uma corrida agitada. O mexicano se estranhou com Magnussen algumas vezes na chicane Nouvelle. Felizmente, esses dois pilotos, conhecidos pela agressividade, não causaram nenhum dano. Para completar, Perez chegou muito perto de atropelar dois fiscais de pista, ao sair do pit lane. Também felizmente, foi só um susto bem grande para os envolvidos. A Racing Point não tinha um bom ritmo nas ruas do principado, como é comprovado pela 16ª colocação de Lance Stroll.
A grande surpresa nessa parte do pelotão foi o surpreendente 15º lugar para George Russell. O britânico conquistou sua melhor colocação na categoria até hoje, além do melhor resultado da Williams no ano. Ele disse que sabia que não lutava por pontos, mas que correu como se estivesse.
É tentador diminuir o tamanho do feito de Russell, devido as circunstancias. Os competidores diretos da Williams em Mônaco eram os dois carros da Alfa Romeo, que não apresentaram boa forma. Além disso, a dificuldade das ultrapassagens pode ter sido determinante para o estreante manter a sua posição. Mesmo assim, por todas as dificuldades enfrentadas pela equipe, uma P15 é muita coisa.
Como dito, a Alfa Romeo teve provavelmente sua pior corrida do ano até agora. Os dois pilotos se envolveram em toques nas ruas apertadas do micro país. Raikkonen tocou com Stroll na curva 6, o cotovelo do hotel. E Giovinazzi tocou com Kubica na Rascasse, o que causou um pequeno congestionamento. As consequências foram mais duras para o italiano, que sofreu um punição de dez segundos. Com isso, ele terminou na última colocação, atrás de Kubica. A saber, é a primeira vez na temporada que o polonês não chegou em último.
A situação do campeonato de pilotos está ficando interessante. No momento, temos duas rivalidades no topo da tabela. Hamilton (137 pontos) briga com Bottas (120) pela liderança, enquanto Vettel (82) e Verstappen (78) disputam de forma muito mais acirrada a terceira colocação. Leclerc está com 57 pontos, praticamente isolado da disputa acima dele e ao mesmo tempo muito longe de Pierre Gasly, que vem em sexto. Mais pra baixo, no mundo real, Carlos Sainz consolidou uma liderança da Fórmula B, com quatro pontos de vantagem para Kevin Magnussen (14).
Nos construtores, a Mercedes obviamente disparou, com 257 pontos, contra 139 da Ferrari. A escuderia italiana está bem mais próxima de brigar com a Red Bull, que vem em terceiro com 110 pontos. Na Fórmula B, a McLaren lidera com 30 pontos. Em seguida vem a Racing Point, com 17, uma vantagem de quatro pontos para a penúltima colocada, a Alfa Romeo. Por fim, a Williams segue com seus 0 pontos.

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