FÓRMULA B OU McLAREN, HAAS E O RESTO DA F1



por Felipe Quintella
A F-1 não tem competitividade? Olhe mais para trás.
A vitória de Lewis Hamilton e a quinta dobradinha seguida da Mercedes na Espanha é um marco histórico. O fã da F-1 praticamente nunca presenciou um domínio tão grande de uma equipe sobre as demais. Lembranças parecidas não faltam, como a Ferrari do começo dos anos 2000 e a McLaren de 1988. Porém, resultados máximos para um time em cinco etapas é demais. Logo, muitos voltam com o discurso de que a categoria está chata, previsível, que não tem competição. No entanto, vale lembrar que, além de Mercedes, Ferrari e Red Bull, existem mais 14 carros no grid. Os pilotos desses carros disputam ferozmente os quatro últimos lugares da zona de pontuação.
A situação de desempenho da Fórmula 1 atual é curiosa. As três do topo dão a impressão que estão em uma competição separada, assim como numa corrida do WEC. A diferença para os demais que um piloto dessas equipes consegue é tanta que dá direito até de tentar um pit stop a mais. Por outro lado, no fundão do grid, temos a Williams, que também corre uma categoria separada e solitária. Kubica e Russell só aparecem no vídeo em caso de batida ou de bandeira azul. No meio desses dois extremos, há a categoria que se convencionou chamar de “Fórmula B”.
A “Fórmula B” é uma competição extremamente acirrada. Enquanto a diferença de Hamilton para Verstappen é de 46 pontos, Magnussen (7º colocado) e Giovinazzi (18º) estão separados por apenas 14 pontos. Da mesma forma, a distância de McLaren (4ª colocada nos construtores) e Toro Rosso (9ª) é de 22 pontos. Entre Mercedes e Ferrari, um abismo: 96 pontos. Por isso, caso competição técnica e direta na pista seja seu interesse principal e urgente na F-1, preste atenção nessas sete equipes.
A McLaren, como foi dito, atualmente ocupa a posição de “melhor do resto”, com 22 pontos. A equipe de Woking está passando por um ótimo começo de temporada. Talvez o melhor desde o começo de seu declínio, em meados de 2013. Os dois pilotos, Sainz e Norris, acumulam juntos cinco idas ao Q3 e quatro bandeiradas na zona de pontuação. Contudo, talvez esses números poderiam ser um pouco melhores, não fosse os quatro abandonos do time. Abandonos por falha mecânica e por acidentes. Mais especificamente o de Carlos Sainz, no Bahrein, que chegou até a disputar posição com a Red Bull de Verstappen. Mesmo que os dirigentes da McLaren digam que o grande objetivo é voltar a andar na frente, essa temporada já mostrou um grande avanço. Vale lembrar, porém, que o começo de 2018 também foi muito forte para a equipe inglesa, sob o comando de Fernando Alonso. Do meio para o final do ano, os carros laranja foram fazer companhia às Williams. Para saber se isso vai se repetir em 2019, vamos ter que esperar.
A Racing Point está em quinto na tabela, com 17 pontos. Ao contrário da McLaren, que tem dois pilotos de bom nível, a equipe de Lawrence Stroll sofre de alguma inconsistência. A diferença de desempenho entre Sergio Perez e Lance Stroll é considerável, especialmente em qualificação. A essa inconsistência de pilotagem se une a inconsistência do equipamento, que ainda está em processo de perseguição da competitividade. Porém, a crise financeira e a reformulação da ex-Force India garante uma boa perspectiva de futuro. Pelo menos no que depender de recursos. Os dois pilotos chegaram no Top 10 quatro vezes e no Q3 duas vezes. O número de abandonos é de apenas um, justamente o de Stroll no GP da Espanha. Ou seja, até agora o carro não deixou a Racing Point na mão.
A Haas vem na sexta colocação, com 15 pontos. Os americanos vêm de uma boa evolução desde sua estreia na F-1, disputando a liderança do pelotão intermediário com a Renault em 2018. O desempenho dos carros de Magnussen e Grosjean depende muito do traçado do final de semana. Mas uma constante é o bom desempenho na qualificação. Eles foram para o Q3 oito vezes, todas elas com os dois carros. Porém, no dia da corrida o ritmo não aparece: foram apenas três passagens pela zona de pontuação. Barcelona é responsável por duas dessas vezes, quando terminaram em 7º e 10º.  Os abandonos foram apenas três, todos de responsabilidade de Grosjean. O primeiro, na Austrália, foi por falha no pit stop. Porém, considerando o histórico do francês, esse número tende a aumentar durante o ano. 
A tendência é que McLaren, Racing Point e Haas disputem a liderança da “Fórmula B”, pelo que foi visto até agora. Ainda assim, as demais equipes ainda têm condições de evolução. A Alfa Romeo está em sétimo no campeonato, com 13 pontos, principalmente por causa de Kimi Raikkonen. O finlandês pontuou em todas as corridas antes da Espanha, sempre se agarrando a um ou dois pontos. O mesmo não pode ser dito sobre seu companheiro, Giovinazzi, que ainda não pontuou. Duas possibilidades se apresentam, com direito a uma área em cinza no meio. Ou o carro não é bom e Raikkonen faz milagre, ou Giovinazzi tem um desempenho muito abaixo do colega. É mais provável que a situação na garagem da ex-Sauber seja uma combinação dos dois. Se a equipe souber trabalhar com o motor Ferrari, assim como fez no ano passado, tem boas chances de brigar mais diretamente pelo quarto lugar do campeonato.
A Renault está em oitavo, com 12 pontos. É uma situação incomum para a atual encarnação da equipe francesa, que foi a “melhor do resto” de 2018. Além do ritmo, principalmente nos sábados, não ser bom, Ricciardo e Hulkenberg sofreram cinco abandonos. Um deles foi muito preocupante: pane geral nos dois carros. Parece que a má sorte do australiano o acompanhou em sua mudança para a garagem amarela. Todavia, seria irresponsável descartar a Renault como competidora constante pela zona de pontuação durante o ano. Um grande argumento para isso é a qualidade da dupla de pilotos e a estrutura da fábrica Renault. O fato é que Ricciardo fez uma aposta de médio prazo, de que os franceses lhe dariam um carro campeão. Com certeza ele não esperava isso em 2019, mas esse desempenho do começo do ano não é animador. 
Por fim, temos a Toro Rosso, em nono, com seis pontos. A subsidiária da Red Bull tem duas idas ao Q3 e quatro ao Top 10. A possibilidade de que Kvyat e Albon briguem em toda prova pela pontuação é remota. Mas o “torpedo russo” tem mostrado que não perdeu a forma, e muito menos o estilo. Ele foi responsável pelos dois abandonos da equipe (por batidas), mas também teve um ótimo desempenho na Austrália, segurando Pierre Gasly para chegar na P10. Já Albon tem se mostrado como um novato consistente. Tem se adaptado bem e vem brigando com o companheiro de equipe. Sua melhor corrida até agora foi na China, quando saiu do fundo do grid para a zona de pontuação. Portanto, se depender dos pilotos, veremos os carros azuis brigando por pontos.
O que chama atenção nesse rápido resumo da temporada para essas seis equipes é a alternância. Existe uma diferença de desempenho entre McLaren e Toro Rosso. Mas, dependendo do contexto do final de semana, ambas têm chances de chegar aos pontos, como de também andar atrás. Por isso, caso a previsibilidade e eficiência da Mercedes incomode, a Fórmula 1 ainda oferece esse outro foco de competição, onde cada evolução faz diferença.



Comments