A FERRARI E SEU GERENCIAMENTO DE PILOTOS



Por Karina Lima
Não é novidade para ninguém que a Scuderia Ferrari adota um sistema de gerenciamento onde a equipe está acima das prioridades individuais de seus pilotos. Para isso, costuma escolher um deles - por critérios que podem vir a ser os resultados obtidos na carreira até então, tempo de casa ou simplesmente predileção interna - e este passa a receber clara preferência e vantagens em relação a seu companheiro, mesmo que ambos ainda tenham chances matemáticas de conquistar o campeonato.
Esse tipo de postura não é prioridade da equipe italiana, mas já se tornou uma marca registrada dela. Enquanto outras, muitas vezes tentam mascarar o famoso “jogo de equipe” ou posterga-lo para quando o campeonato já se encontra mais definido, a Ferrari não se inibe em utilizar-se dessa ferramenta sempre que vê necessidade, a qualquer momento do calendário da categoria.
Em 2019 estamos vendo a Ferrari repetir o que já havia feito com Rubinho, Massa e até mesmo Raikkonen. Esse desencanto decorrente da situação em que o talentoso Leclerc se encontra demonstra que aquela frustração sentida quando os protagonistas eram os brasileiros não era mero pachequismo como alguns sugeriam. Ver a equipe mais tradicional da Fórmula 1 trair o princípio fundamental da competitividade no esporte é simplesmente decepcionante.
Há aqueles que defendam o jogo de equipe por crer que ambos os carros trabalhando em função de um único piloto aumenta as chances deste em conquistar o mundial ao maximizar seus pontos em vez de dividi-los internamente. E isso pode ser factual, racional, mas é o que o público da categoria almeja ver? É o que o esporte deveria ter como valor?
Sim, é bem verdade que a Fórmula 1 não é um esporte individual, mas o campeonato de pilotos é mais valorizado por quem a acompanha e não é a toa: desde que existe competição e corridas de automóvel, sempre se buscou o competidor mais rápido, o melhor, e quando um piloto não pode almejar isso por ter um compromisso em ajudar outro, se trai o preceito básico. Logo, o público pode até racionalizar e conseguir aceitar esse tipo de comportamento em uma equipe, mas é algo que nunca vai agradar ou parecer natural a quem simplesmente quer ver as corridas em sua forma mais pura, em sua essência.
Pelo campeonato de construtores, a estratégia é ainda menos lógica por diminuir o potencial de pontuação do chamado "segundo piloto". Vamos aos fatos? O último campeonato de construtores da Scuderia foi há mais de uma década, em 2008. Não apenas isso, mas a Ferrari venceu apenas 8 campeonatos nos últimos 35 anos, o que é pouco se levarmos em consideração que a equipe conta consistentemente com o orçamento mais robusto da categoria.
Além de os resultados estarem muito aquém do esperado e não justificarem a constante utilização dessa ferramenta, o pessoal responsável pelo marketing da equipe parece não compreender como isso prejudica sua imagem para uma parcela enorme de fãs. Outras equipes que também se utilizam do mesmo recurso, parecem conseguir usá-lo com mais parcimônia e bom senso. 




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