SUPERLICENÇA E O DRAMA DE MICK E PIETRO NA F1


por Ialdo Belo e Sergio Milani

Eles têm em comum a juventude, o talento e o fato de representarem a nova geração de dois lendários sobrenomes no mundo da F1: Fittipaldi e Schumacher.

Posto isso, o fato é que todos os olhos do mundo automobilístico estão voltados para o próximo passo na carreira desses dois jovens, que obviamente seria pilotar como titular em uma equipe na categoria máxima do esporte a motor.

Este é o assunto que vem se tornando cada vez mais presente nos últimos tempos.

Desde quando foi anunciado pela Haas como piloto de testes, o público brasileiro pergunta: quando Pietro Fittipaldi se tornará titular? A interrogação aumentou mais ainda após os testes de pré-temporada em Barcelona e se intensificaram diante dos testes no Bahrein esta semana e as punições dadas a Romain Grosjean.

O assunto já tinha sido abordado em fevereiro último numa sequência de duas matérias intitulada “Pietro e os Pontos”, publicada no site 90 Goals. Nelas, foram explicados quais são os parâmetros utilizados para a consideração dos pontos que ele tem, bem como a situação. Diante do ressurgimento da questão, vamos novamente explicar o processo.

Só para lembrar: em 2016, a FIA introduziu um novo sistema para a emissão da superlicença para pilotar um F1. Anteriormente, o processo era mais simples e bastava a um piloto fazer pelo menos 300 km em um F1 e ter a avaliação da FIA, para que o documento fosse emitido. Era também um processo mais político do que técnico.

Com a subida rápida de Max Verstappen e visando terminar com a “queima de etapas” na formação de pilotos, valorizando as categorias de acesso organizadas pela FIA, o processo foi alterado. Atualmente, valem as condições instituídas em setembro de 2017 e contidas no apêndice “L” do Regulamento Esportivo da FIA, disponível no site da instituição (fia.com –> Sport -> Regulations -> International Sporting Code and Appendices). São elas, para a emissão inicial da superlicença:
- Ter mais de 18 anos (no mínimo completos antes do início do evento de sua primeira corrida de F1);
- Ter carteira de motorista válida;
- Responder com sucesso a um questionário sobre o Código Esportivo da FIA e da F1;
- Ter completado pelo menos 80% de duas tempradas completas de qualquer campeonato de monopostos listadas pela FIA;
- Tem conseguido pelo menos 40 pontos nos três anos anteriores a sua solicitação (pontuação de acordo com a lista da FIA, constante no mesmo apêndice).
Caso estes requisitos sejam atendidos, a solicitação deve ser feita 14 dias antes do início da temporada ou 48 horas antes do início da vistoria inicial da corrida, em casos de força maior.

Isto explicado, vamos à situação de Pietro. O piloto de 22 anos começou a sua carreira na Europa em 2014, sendo campeão da Fórmula Renault Britânica. Em 2016, entrou na Fórmula 3.5 V8 (antiga World Series) e conseguiu o 10º lugar final. De acordo com a emissão inicial da tabela, garantiu um ponto para a contagem.

Em 2017, Pietro foi campeão da mesma categoria, garantindo 35 pontos. Embora tenha havido em setembro daquele ano uma revisão da FIA da tabela de pontuação e o título da 3.5 V8 passou a valer apenas 20 pontos a partir de 2018, ao invés dos anteriores 35 pontos.

Com isso, o piloto teria 36 pontos na carteira. Até houve uma ação para que o campeonato da MRF Challenge, campeonato disputado na Ásia equivalente a F4, e conquistado por Pietro em 2015 entrasse no cálculo. Desta forma, haveria a possibilidade de obter os 40 pontos necessários para a emissão e isso até motivou uma possível negociação com a Sauber em 2018, mas não houve prosseguimento porque a FIA não alterou sua posição.

Pietro, então,  partiu para uma multiplicidade de calendários em 2018, abraçando Super Fórmula Japonesa, WEC e parte da Fórmula Indy. Tudo para se manter em atividade e garantir os pontos restantes. Mas o acidente nos treinos de Spa no WEC atrapalhou os seus planos.

Mesmo assim, Pietro ficou no radar da Haas, que já negociava com ele e o anunciou como piloto de testes, e andou fim do ano com o carro da equipe em Abu Dhabi. Para a realização de testes e participação em treinos livres, os critérios são mais simplificados: o piloto tem que ter pelo menos 25 pontos em 3 anos e/ou ter participado de pelo menos 6 etapas completas da F2, além da provinha sobre os regulamentos esportivos e 300km com um carro de F1 em, no máximo dois dias, não separados por um período de mais de 180 dias entre eles.

A Haas vem pressionando a FIA para mudar as regras atuais, já que um de seus pilotos, Romain Grosjean, vem tendo a possibilidade cada vez mais real de suspensão por conta das advertências atribuídas. A FIA irá realizar reunião do Conselho Mundial em junho e dizem que serão aprovadas alterações para os critérios da superlicença. Uma das mudanças seria a inclusão de 5 pontos para os pilotos de testes. Mas não há uma certeza de que isso irá acontecer.

Pietro ainda tem um ponto para se preocupar: o ponto obtido em 2016 só pode ser considerado até o fim deste ano. Caso os critérios não mudem, seriam necessários pelo menos 5 pontos para que o piloto obtivesse a superlicença sem qualquer problema. E não há perspectiva para que o neto de Emerson tome parte em algum campeonato para garanti-los.

Diante deste quadro, hoje é mais fácil, pelo ponto de vista das regras vigentes que, em caso de alguma vacância na Haas, Mick Schumacher entre ao invés de Pietro. Por quê? Simples; o alemão hoje conta com 50 pontos (20 pontos dos vice-campeonatos obtidos nas F4 alemã e italiana em 2016 e 30 do título da F3 europeia no ano passado).

Ainda há uma linha de raciocínio que ele teria menos pontos ainda por conta da mudança da tabela da FIA, que o deixaria com 21 pontos (considerando 20 pontos ao invés dos 35 pelo título da 3.5 V8), aumentando a quantidade de pontos a serem obtidos para ser titular na F1.

Embora as regras não prevejam esta possibilidade, não seria desbaratado pensar em um grande acordo para permitir a promoção de Pietro. Algo do tipo como é feito com a regra dos 107% na classificação, onde um carro que não atinja a marca pode ser habilitado a participar com a concordância dos comissários.

Já no caso de Mick Schumacher, a história é outra. O alemão tem os pontos válidos para este ano, mas se não terminar a temporada da F2 2019 entre os seis primeiros na classificação geral do certame, perderá vinte pontos que irão expirar e com eles qualquer possibilidade de disputar a F1 em 2020.

É hora de aguardar os próximos desdobramentos e ver se a estratégia da Haas de “botar o bode na sala” para que Pietro consiga a superlicença dará resultado junto à FIA.

Pela letra fria da lei, o brasileiro não tem condições ainda de ser titular na F1, ou seja, numa emergência não poderia pilotar para a equipe americana este ano. Mas, se formos ver por questões de habilidades técnicas, não haveria porque barrar esses dois jovens promissores nem agora, nem em 2020.



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