O DIA EM QUE SENTIREMOS SAUDADES


por Sergio Milani

Após o GP da China, muita gente (eu incluso) reclamou que a F1 merecia um melhor espetáculo para uma data tão emblemática. Analisando friamente a corrida poderia, sim, ter sido melhor. Como agravante, vários consideraram como referência o ano passado, quando a prova foi mais movimentada. Mas houve a entrada de um safety car que ajudou a alterar a dinâmica da prova.

Em termos de competitividade, a F1 perde hoje em alguns aspectos para outras categorias, como a Fórmula-E e a MotoGP. Nem o fã mais fanático pode negar isso e a organização vem tomando medidas para mudar esta situação. Prova disso foi a alteração do regulamento este ano para o aumento das ultrapassagens e as discussões dos novos conceitos para a temporada de 2021 (espera-se que as discussões sejam concluídas em junho).

Mas se olharmos de um ponto de vista mais amplo, nunca a Fórmula 1 esteve tão compacta. Mas como assim? Somente poucas vencem, tanto que jocosamente vários dizem que vemos a Fórmula Mercedes!

Volta e meia, este tipo de opinião aparece e levanta discussões acaloradas. Mas merece sempre ser lembrada...

Desde a década de 90, uma redução do número de equipes pode ser percebida, graças ao aumento estratosférico de gastos, a complexidade tecnológica e a redução de apoiadores (seja por crises econômicas ou restrições governamentais). A qualidade aumentou, mas um dos efeitos colaterais é um grid cada vez mais “magro” e o interesse quase nulo em novos entrantes.

Como até já escrito por mim aqui no Formula i, o “sumiço” das pequenas fechou o espaço para novos pilotos. Historicamente, estes times serviam como “trampolim” e amadurecimento de jovens (OK, muito “braço duro” também entrou por aí...). Hoje, este papel acaba por ser desempenhado pelos programas de desenvolvimento de montadores e patrocinadores, mas o funil reduz muito. Aí permite um desdobramento de “vida fora da Fórmula 1”, que merece atenção em outro texto.

Pelo lado positivo, talvez a Fórmula 1 nunca tenha tido um desempenho tão próximo entre os carros. Pesquisando dados históricos, observamos carros separados por 12/15 segundos numa formação de grid (mesmo sem considerar circuitos como Spa ou o velho Nürburgring), bem como equipes dominantes e corridas extremamente chatas.

Se aprofundar mais um pouco a pesquisa, determinadas falas de pilotos ao longo dos anos sobre “carros com tecnologia demais” poderiam ser colocadas no contexto atual sem problema algum.

Voltando aos tempos: No Bahrein, tivemos no Q1 16 carros no mesmo segundo. Sem contar os pilotos que não deixariam a desejar diante dos grandes nomes da história da categoria. Negar que Hamilton e Vettel não tem lugar entre os principais volantes da categoria acaba por resvalar em clubismo.

Várias das observações feitas hoje são redundantes ao longo dos anos e é normal que o afastamento faça que percebamos situações e detalhes que passam despercebidos no dia-a-dia. Mais à frente, teremos a real situação dos tempos atuais em termos históricos e a grandeza dos feitos correntes será percebida.

Quem sabe, correrá o sério risco de lembrarmos com nostalgia destes anos....




Comments