ESTRATÉGIA?



por Sergio Milani

Ao ver todo o fim de semana, a Ferrari mais uma vez teve um sério problema na gestão da sua estratégia. Não basta ter um carro reconhecido pelos rivais com potencial para ser o melhor do grid se não consegue destravá-lo e – pior – acaba por prejudicar mais ainda o desempenho na pista.

Há de se lembrar que a corrida não se decide só no domingo. Mas sim com o trabalho ao longo do fim de semana. E vai daí a grande diferença entre Mercedes e Ferrari (conforme o texto publicado na última sexta). E o grande problema da estratégia não foi no domingo. Mas no sábado.

Aproveitando o máximo de tempo possível, a Mercedes usou o TL3 para preparar seus carros para a corrida. Por isso levou um tremendo “temporal” da Ferrari nas costas, dando a impressão que desta vez, os italianos dominariam. E como é de conhecimento de todos, os pilotos que vão para o Q3 devem largar com os pneus utilizados na sua melhor volta do Q2.

Vettel e Leclerc foram para a pista com os médios. Pneus com que todos estavam se dando melhor, mas a Ferrari mais ainda pela natureza de seu carro. O alemão conseguiria marcar tranquilamente seu tempo e o monegasgo também. Mas houve o erro na curva do Castelo e Leclerc foi parar no muro. Isso o obrigaria a usar os médios e ainda forçá-los para uma recuperação.

Vettel, por segurança, acabou por colocar os macios e se garantir no Q3. Depois, foi suplantado na classificação por uma Mercedes que soube fazer o jogo de gato e rato perfeitamente, deixando o alemão sozinho para lutar contra Hamilton e Bottas, sem usar o vácuo.

Para a corrida, a situação estava clara. Vettel teria que lutar conta as Mercedes sozinho. Leclerc teria que subir o pelotão e ficar mais tempo na pista. Teria alguma chance com algum carro de segurança, pois como largava com pneus novos, poderia ficar cerca de 26 voltas na pista (previsão da Pirelli). Por já terem sido usados, seu companheiro e as Mercedes deveriam parar cerca da volta 17.

No início, por estar à vontade com os pneus médios e a vantagem da Ferrari, Leclerc começou a sua escalada, chegando à 4ª colocação na 10ª volta. Neste momento, seu carro estava em condições melhores de quem estava à sua frente. A seguir, Bottas e Vettel vão para os boxes na 11ª volta e Hamilton entra na volta seguinte.

Neste momento, Leclerc começava a sua sina de sacrifício. Pelo menos teria que ficar mais 15 voltas na pista. A esta altura, não era só uma questão de segurar as Mercedes, mas também garantir a 4a posição em relação a Max Verstappen.

A diferença ia caindo pouco a pouco. Vettel não conseguia se aproximar em condições de ataque e Verstappen vinha tirando tempo do alemão, mostrando que a Red Bull rendia melhor com os macios.

A Ferrari sabia que o carro não rendia bem com os macios. Teria que tentar esticar ao máximo a janela com os médios. Por outro lado, um Leclerc mais lento poderia servir como “muro” contra as Mercedes e deixar Vettel em melhor posição para ataca-las. Mas havia o flanco descoberto e era Verstappen, que era o mais rápido dos quatro naquele momento.

A Pirelli recomendava uma parada na volta 26. Mas neste momento, os pneus de Leclerc ainda rendiam razoavelmente bem e a Ferrari o deixou na pista. Dentro da lógica de “esticar” a permanência e pelo receio do comportamento dos macios. E foi assim. Mas ao fazer isso, arrebentou a corrida do número 16.

A partir daí os pneus entraram em situação crítica e a diferença para quem estava atrás caiu mais ainda. Resultado: na 31ª volta, Leclerc foi ultrapassado pelas Mercedes e seu companheiro de equipe, indo para os boxes na volta 34 e voltando atrás de Pierre Gasly, ficando em 6º. A Ferrari teria que fazer mais 21 voltas com o pneu macio. Logo, o monegasco se livrou do francês, mas não estava em condições de tentar um ataque sobre Verstappen para recuperar a 4ª posição pelo menos.

Alguns entendem que haveria uma janela de oportunidade com a entrada do carro de segurança virtual (VSC). Mas mesmo com a redução de velocidade e uma possível mudança para os médios (que já seriam usados), não haveria uma condição de mudança efetiva do quadro, com uma séria possibilidade inclusive da perda de lugar no pódio.

Alguns ainda disseram: por que não botar os pneus duros e ir até o final? A temperatura era menor, a diferença de tempo para os outros compostos era grande e ainda havia a dificuldade de colocar os pneus em condições de “funcionar” corretamente. Não era um risco que valeria a pena.

Em tese, a estratégia para Leclerc era a mais correta. Mas o erro foi sido deixá-lo algumas voltas a mais na pista. Ali ele perdeu a chance de pelo menos brigar pelo 4º lugar com um Verstappen, que mostrou ter um carro muito bem acertado em uma boa parte da prova.

Nas condições dadas, a marcação da Ferrari para Leclerc tinha que ser em Verstappen. E neste carteado, os italianos não conseguiram ter uma mão boa para vencer esta rodada. O erro do sábado custou, sim, um melhor resultado. Até porque a Ferrari 16 tinha chances de, no mínimo, se intrometer entre as Mercedes no grid.
Aí a coisa toda mudaria de forma.




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