CAÇA AO CAVALO



por Sergio Milani

Além de ter os holofotes voltados por conta das comemorações do milésimo GP, a prova chinesa tem como principal pergunta o seguinte enigma: qual Ferrari virá para Xangai?

Após ter despontado como favorita dos treinos de Barcelona e apresentar um desempenho discreto na Austrália, os italianos aparentemente mostraram do que são capazes no Bahrein. Dominaram os treinos com certa tranquilidade e teriam levado a corrida se não fosse o tal “curto circuito na controladora do bico injetor de um dos cilindros”.

Uma observação feita em Barcelona se fez mais presente na última prova: a velocidade desenvolvida pelos carros da Ferrari. A estimativa feita por alguns especialistas da categoria e até mesmo publicada no site “motorsport.com”, dava conta que Mercedes e Ferrari estariam “empatadas”, com cerca de 990 cavalos.

Mas a velocidade desenvolvida nas retas de Sakhir chamou a atenção. Antes, Hamilton e Toto Wolff falavam em uma vantagem de 10 cavalos. Entretanto, os dados de GPS deram conta que a diferença da Rossa em relação aos anglo-alemães chegava entre quatro e seis décimos. Embora, Hamilton e Bottas conseguissem ser ligeiramente mais rápidos em curvas, Vettel e Leclerc compensavam nos momentos de alta velocidade.

Como explicar isso? Muitas explicações foram dadas, mas o conjunto como um todo deve ser analisado...

Inicialmente, a Ferrari trabalhou bastante em seu sistema de recuperação. Desde o ano passado, o arranjo feito em Maranello mostrou um diferencial e até levantou o questionamento da “bateria dupla”, que foi verificada pela FIA e não se achou nada. Para esta temporada, os estudos foram intensificados e o uso da energia parece ser muito mais otimizado.

E como os italianos se notabilizaram por motores, a parte de combustão mereceu atenção especial. Novos métodos construtivos foram utilizados (impressão 3D inclusa), bem como novos materiais. A Mahle (fabricante de pistões e virabrequins), desenvolveu peças especiais e novos esquemas da área de queima de combustível. O conjunto destas ações permitiu desenvolver o motor em menos tempos, obter um ganho de potência e otimizar o desempenho térmico.

Não bastando isso, a Shell trabalhou em novas fórmulas de combustível. Estima-se que somente neste campo, a Ferrari ganhou de 15 a 20 cavalos. Em relação a isso, não deixa de ser curiosa a declaração de Christian Horner, chefe da Red Bull, falando que o combustível da Ferrari cheirava a suco de frutas....

Há uma corrente na imprensa especializada que defende que o SF90 tem uma unidade de potência mais reforçada para compensar o maior apoio aerodinâmico gerado pelo carro. Inclusive, esta configuração criou uma situação insólita: jogaria mais ar para a refrigeração, o que impediria o conjunto da Unidade de Potência a alcançar temperatura ótima de funcionamento e gerando menos potência...


Olhando por este prisma, não é um único item, mas a junção de vários fatores tem feito a Ferrari se posicionar como o melhor carro até aqui, a despeito das vitórias da Mercedes. Aparentemente, a equipe trabalha mais tranquila sob o comando de Mattia Binotto, o que acaba sendo mais um fator a favor. Toto Wolff e companhia monitoram com lupa a evolução e sabem que o trabalho deve ser redobrado para manter a liderança. Mesmo à frente, tudo indica que a China assistirá uma nova caça ao cavalo.... 

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