1000 C0RRIDAS DA F1 - CAPÍTULO 3 - OS CAMPEÕES


por Sergio Milani

Dos 999 Grandes Prêmios disputados até agora, tivemos pilotos brasileiros em 791 deles (quase 80% do total). Dos 31 volantes, tivemos aqueles que entraram neste grande teatro da Fórmula 1 para fazer figuração. Outros, tiveram seus momentos de relevância sob os holofotes, mas não tiveram como ficar no topo por várias razões. 

Mas dos 791 atos brasileiros na principal categoria do automobilismo, 355 tiveram a participação dos principais atores nacionais, com 78 vitórias. Aqueles que acabaram consolidando o papel do Brasil como uma das grandes nações do automobilismo mundial. Falo da “santa trindade”: Emerson Fittipaldi, Nelson Piquet e Ayrton Senna.

Em um espaço de 24 anos, foram 8 campeonatos mundiais. Ou seja, a cada três anos, tivemos um título. Poucos países podem ostentar esta marca. E não basta a marca em si, mas a qualidade com que foi obtida. Talentos natos, com cada um a sua maneira.

Emerson Fittipaldi é considerado como o “precursor”. Antes dele, tínhamos brasileiros que foram correr na Europa (Chico Landi foi o primeiro, inclusive correndo pela Ferrari). E até mesmo na Inglaterra, onde Antonio Carlos Avallone e Ricardo Achcar haviam batido ponto. Mas foi o “Rato”, que de maneira consistente e meteórica, chegou da Fórmula Ford à Fórmula 1 em pouco mais de um ano.

Colin Chapman soube ver aquele talento que fez corridaças com seu carro de Fórmula 3, onde vários não tinham uma boa reputação dele. Impressionou em seu primeiro teste em um Fórmula 1 e estreou em agosto no GP da Inglaterra de 1970, em Brands Hatch. Meses depois, vencia o GP dos Estados Unidos, garantindo o título post mortem para Jochen Rindt e assumindo o posto de líder da equipe Lotus, então o mais importante time inglês.

Após um ano de aprendizado e desenvolvimento, em 1972 conseguiu tirar proveito do bom desempenho do Lotus 72D e aliando visão estratégica com combatividade, obteve seu primeiro título, superando ninguém menos do que Jackie Stewart. Emerson manteve consigo o posto de campeão mais jovem da categoria por décadas, sendo superado somente por Fernando Alonso em 2005.

Por conta de não concordar com o tratamento dado em 1973 pela Lotus e com o apoio da Phillip Morris (Marlboro), se muda em 1974 para a McLaren, onde consegue seu segundo título após uma briga ferrenha com Clay Regazzoni, em uma Ferrari que mostrava as bases para o domínio da segunda metade dos anos 70. O mundo parecia pouco para Emerson...tanto que naquele ano, testou o McLaren em Indianápolis e diria que não faria mais isso por achar perigoso... O mundo deu muitas voltas depois...

Em 1975, mais um vice-campeonato pela McLaren e o lado sonhador falou mais alto. Em conjunto com seu irmão Wilson, se junta ao projeto da Equipe Fittipaldi e passa 5 temporadas tentando repetir o feito de Jack Brabham e ser campeão com seu próprio carro. Embora muito esforço tenha sido desprendido e bons resultados tenham vindo em algumas ocasiões, Emerson se retirou da categoria no final de 1980 e se dedicou somente ao time até 82. 

Mas houve tempo para uma “troca de guarda”. O sucesso de Emerson abriu as portas para a vinda de uma nova geração de pilotos. E um deles foi o carioca/brasiliense Nelson Piquet Souto Maior. Ou simplesmente, Nelson Piquet. 

Piquet fez sua base no automobilismo brasileiro e em 77, foi para a Europa em busca da Fórmula 1. Em 1978, dominando os principais campeonatos ingleses de Fórmula 3, batendo entre outros Chico Serra e Derek Warwick, fez sua estréia pela Ensign no GP da Alemanha. Depois, fez mais 3 provas com um velho McLaren. No fim da temporada, recebeu um convite para se juntar àquela que seria a sua principal casa: a Brabham.
Foram 8 temporadas em que Piquet construiu seu nome na categoria. Combinava velocidade com inteligencia, além de conhecimento mecânico. Isso ajudou a criar uma simbiose com a equipe e assim desenvolver carros como o BT49 e o BT53, sem contar o trabalho com o motor BMW e o ideia para a introdução dos reabastecimentos em 1983 e os “dribles” no regulamento. Piquet conseguiu dois títulos sem ter o melhor carro, mas sabendo atuar na hora certa e aproveitando as oportunidades...Em 1983, isso ficaria mais à mostra, quando se aproveita da hesitação da Renault e da fraqueza da dupla da Ferrari (Arnoux e Tambay).

Em 86, vai para a Williams, que mostrava ser a equipe a ser batida, contando com um motor Honda em franca evolução. Vinha para ser o líder do time. Mas o acidente de Frank Williams na pré-temporada fez as coisas mudarem um pouco e é o início de uma luta fratricida com Nigel Mansell, que fez com que ambos perdessem o campeonato para Alain Prost.

No ano seguinte, estava disposto a mudar o jogo. O acidente nos treinos do GP de San Marino muda com seu organismo e o obriga a rever totalmente seu estilo. Passa a ser cada vez mais cerebral e consegue, com constância e trabalho dentro e fora da pista (praticamente montando um time próprio e ajudando a desenvolver a suspensão ativa), vence o campeonato, obtendo 3 vitórias, metade de seu oponente Mansell.

Por conta de dinheiro e ligações com a Honda, se transfere para a Lotus. É um início de uma fase negra, sem vitórias e com carros ruins. A recuperação veio com a ida para a Benetton em 1990, onde a motivação pareceu retornar, graças a um B190 bem acertado. Piquet mostrou que não era um 'móveis e utensílios' e obteve duas vitórias: Japão e Austrália, sendo esta a de número 500 da categoria, com direito a uma sensacional “fechada” em Mansell na última volta da corrida.

Em 1991, após ter um ano mediano com uma Benetton em reconstrução, saiu da Fórmula 1 por não querer mais perder tempo em times sem futuro (Ligier) ou grandes perdidos (Ferrari). Em 1992, foi fazer a Indy 500 e sofreu seu pior acidente. Praticamente reconstruiu seus dois pés e voltou no ano seguinte. Ainda continuou correndo eventualmente, mas se dedicou cada vez mais ao lado empresarial.

E para completar este trio, veio aquele que talvez amealhou mais sucesso e visibilidade. Soube capiutalizar bem as ferramentas de marketing e o grande aumento do alcance da Fórmula 1 no mundo. Seu nome: Ayrton Senna.

O paulista teve uma carreira vitoriosa no kart brasileiro e se saiu bem em disputas internacionais, obtendo dois vice-campeonatos mundiais. Em 1981, vai para a Inglaterra e vence em três anos todos os campeonatos que participou: F-Ford 1600 e 2000 e Fórmula 3 inglesa. Seu desempenho chama a atenção dos principais chefes de equipe, que se apressam a tentar segurar aquele talento.

Após testes por Williams e McLaren e um namoro com a Lotus, Senna fechou com a Toleman para a temporada de 1984.Primeiro, pois as equipes ditas “grandes” não davam garantias de que ele correria como titular e a Toleman era um time que o permitiria conhecer a categoria e se preparar para voos mais altos.

Mesmo assim, o cartão de visitas foi mostrado: com o carro de 83 ainda, Senna obteve dois sextos lugares. E em Monaco, debaixo de um aguaceiro, chegou em segundo após a corrida ter sido interrompida. A partir dali, a atenção se redobrou. Tanto que a Lotus tratou de garantir seus serviços para 1985 e 1986. Até o fim do ano, o brasileiro ainda obteria mais dois terceiros lugares: Inglaterra e Portugal.

Em 1985, Senna mostra do que é capaz em sua segunda prova pela Lotus e faz “barba, cabelo e bigode” no GP de Portugal. Boa parte da crônica especializada atestou que via o nascimento de um novo campeão. Ao longo do ano, foi mostrando que o talento estava ali, mas com uma certa dose excessiva de arrojo. Mesmo assim, já tinha a equipe trabalhando para ele, deixando Elio de Angelis, seu companheiro, totalmente de lado.

1986 e 1987 foram anos em que Senna mostrava que poderia disputar titulos, mas a Lotus não parecia à altura. A mudança para os motores Honda em 1987 deram um novo alento, mas nestes dois anos, foram somente 4 vitórias. E como tinha pressa, o brasileiro deu o salto: fechou com a McLaren um contrato de 3 temporadas e iria junto com o motor Honda. De quebra, teria como companheiro um dos grandes da categoria: Alain Prost.

A partir daí, tivemos uma das principais páginas da Fórmula 1 sendo escritas: a disputa entre Senna e Prost transformou-se em uma das mais ferrenhas da história. Inicialmente, de modo cordato, os dois dominavam a temporada com o sensacional conjunto McLaren MP4/4-Honda. Prost começou melhor, mas Senna emendou uma sequência de vitórias que deixou o francês sem ação.

Na Bélgica, após a vitória de Senna, Prost já o chamava de campeão. Mas duas corridas depois, com vitórias de Prost, levaram a decisão para o Japão. E ali tivemos uma das principais demonstrações de um piloto de corridas. Após uma péssima largada por conta do motor quase “morrer”, Senna conseguiu subir o pelotão de 16o lugar até a liderança em pouco mais de 30 voltas e se sagrou campeão mundial.

Em 1989, vem a era aspirada e a transformação da briga entre Senna e Prost em luta armada. Mais uma vez os dois disputaram palmo a palmo e o francês conseguiu se impor, se aproveitando de uma série de azares do brasileiro. E o clima ruim culminou no GP do Japão, onde Prost decidiu que Senna não passaria e o regulamento teve uma interpretação diversa.
Desta vez, ponto para o francês.

No ano seguinte, após muita discussão de bastidores, Senna e Prost se enfrentam novamente, mas em campos separados. O brasileiro permaneceria na McLaren, enquanto Prost iria para a Ferrari. Mais uma temporada de disputa entre os dois e mais uma vez a decisão foi para o Japão. Desta vez, Senna decidiu usar de suas armas e forçou um choque na largada, usando a batida a seu favor, levando o seu segundo título.

1991 era o ano de mudar de oponente. A Ferrari se perdeu e a Williams se posicionou. Senna fez um inicio 'matador”, com quatro vitórias em sequência, incluindo a épica em Interlagos. Mas a Williams se mostrava em melhor forma e dominou o meio da temporada. Senna, McLaren e Honda conseguem recuperar o terreno perdido e conseguem vitórias importantes na Hungria e na Bélgica. Isso, combinado com os azares de Mansell (perda da corrida na última volta no Canadá, com vitória de Piquet e parada de box horrenda em Portugal), fazem que o brasileiro obtenha seu terceiro título.

Parecia uma questão de tempo que Senna batesse a marca de Fangio com 5 títulos. Mas 1992 foi o ano das Williams de “outro planeta” e 1993 houve a questão financeira-técnica, com a demora para um acordo definitivo com a McLaren e um motor Ford mais fraco do que os Renault. Mesmo assim, Senna fez uma de suas melhores temporadas, obtendo o vice-campeonato.

1994 parecia o ano fadado ao sucesso: finalmente, Senna e Williams se uniam. Mas o regulamento mudou e boa parte do diferencial da equipe se perdeu. O FW16 não nasceu tao acertado e veio um tal de Michael Schumacher com uma Benetton voadora. O início de temporada foi ruim, com nenhum ponto marcado. A recuperação seria em Ímola, mas havia uma Tamburello no caminho...

Foram estes homens que forjaram a reputação brasileira na Fórmula 1. Sem eles, talvez não teríamos um décimo da atenção que damos hoje à categoria. O Brasil deve à Fórmula 1 e a Fórmula 1 deve ao Brasil. Ambos se aproveitaram e cresceram um com a ajuda do outro. E que este legado seja sempre lembrado pelas novas gerações e sejam ampliados com aqueles que estão nas pistas, procurando chegar ao máximo do automobilismo esportivo.




Comments