quarta-feira, 8 de novembro de 2017

ENTREVISTA LITO CAVALCANTI - PARTE FINAL




por Ialdo Belo

Nesta segunda e última parte da entrevista exclusiva ao Formula i, Lito Cavalcanti revela mais dos bastidores do automobilismo.


IB – Você acha que o Governo deveria investir no automobilismo?

LC – Não, o Governo tem que cuidar da segurança, da saúde, da educação, do aspecto sanitário, outras coisas... Nós temos que fazer nossa parte e não ficar esperando viver de doações.

IB – Mas o Felipe Nasr chegou lá por causa do Banco do Brasil.

LC – É verdade. Ele conseguiu um patrocínio e deu seu devido retorno, mas deu azar de ser de uma estatal, ou público/privada, o que na prática dá quase no mesmo. Na hora em que o novo presidente viu que a situação financeira do banco exigiria o fechamento de cerca de quatrocentas agências físicas, teve que cortá-lo. Como justificar para os funcionários a continuidade desse patrocínio? Não tinha como.
A Honda vendeu sua equipe para o Ross Brawn por uma libra porque estava negociando com sindicatos do mundo inteiro o fechamento de várias de suas fábricas e continuar investindo 100, 150 milhões de dólares, o que para eles é um caraminguá, numa equipe de F1. Como explicar para os sindicalistas, que são naturalmente agressivos, esse investimento? É complicado. O problema de quem se vê em uma situação como a do Felipe Nasr é que sem dinheiro não dá para fazer nada. Fórmula 1 hoje é business! Tem que dar dinheiro. Se não for viável, fecha as portas. Se a CBA tem que ajudar? Tem, mas em outros aspectos. Deveria criar aqui um programa de especialização de mecânicos, de engenheiros. A CBA não faz nada com a FEI (Faculdade de Engenharia Industrial), e deveria fazer. Brasileiro que sai da FEI tem que ir fazer complementação nas faculdades inglesas, o que não sai nada barato.

IB – Então não falta talento?

LC – Não, não! E não falemos apenas de pilotos, podemos falar de todos setores do automobilismo. O Ricardo Divila é o pioneiro, é uma referência para todos engenheiros que militam nas corridas seja em que lugar do mundo for. O Marquinho Lameirão, filho do Chico, trabalha no setor de aerodinâmica da Force India, o Patrick Bandeira de Mello está trabalhando na equipe de competições da Aston Martin... O Ricardo Parente saiu lá de Campinas, foi para Paris fazer pós-graduação e hoje é um dos principais homens de Unidades de Potência da Renault. Quer dizer, eles tiveram que ir pra lá se especializar usando recursos próprios porque aqui isso não aconteceria. Se não tem como fazer o mesmo por aqui, a CBA poderia criar uma bolsa de estudos para esses meninos, mas não tem nenhuma iniciativa nesse sentido. O foco tem que ir além dos pilotos, mas nem para eles tem o suficiente. Ressalte-se, porém, que isso pode estar começando a mudar. A CBA tem, desde o ano passado, uma iniciativa positiva, criada na administração anterior, que é proporcionar um ano na F3 brasileira ao campeão brasileiro de kart, desde que ele tenha no máximo 18 anos. Eu gosto da iniciativa, mas não faria nessa categoria e já expliquei o porquê: os carros já estão acertados e os meninos não são desafiados, não aprendem a acertar o carro. Mas é melhor isso do que nada. Tem muito mais coisas que poderiam ser feitas. Por que não tem um apoio mais abrangente para a garotada que está correndo no kart? Por que não mandar um garoto que está correndo aqui disputar uma temporada de Fórmula Toyota na Nova Zelândia, que reúne em oito fins de semana a garotada que está dando os primeiros passos? São três corridas por cada fim de semana, todos carros absolutamente iguais. É um ótimo aprendizado.  

IB – Ter contato, né? Porque o piloto sai da F3 daqui e quando chega lá fora não é a mesma F3, é outro mundo. Tudo totalmente diferente. De F3 só tem o nome.

LC -  É, é!

IB – Eu que moro fora sinto sempre um impacto quando chego ao Brasil e vejo nessas categorias de base uma desunião terrível. É um querendo ferrar com o outro, do mecânico ao “dono” da categoria, inclusive os pilotos entre si.

LC – É um querendo matar o outro! Não é só desunião, é ganância. Tem muita coisa esquisita no meio e não dá para você entender. Não dá! Parece que não há consciência de que nas categorias de base o importante é formar o piloto, não fazê-lo vencer a qualquer preço. Isso é errado, é uma deformação.

IB -  O teu envolvimento com automobilismo não foi só através do jornalismo, né?

LC – Antes mesmo de ser jornalista eu tive uma oficina de preparação de DKW no Rio. Fizemos, fomos campeões cariocas e fechamos as portas porque tomamos um cano... A gente não tinha fôlego para tomar um cano e ter tomado decretou o fim do sonho. Cheguei a ter também um carro de F-Ford, não chegou a ser uma equipe, eu o alugava para os pilotos que se interessavam. O Xandy Negrão tinha um Bino que não andava por algum motivo e resolveu trocar. Ele botou o carro à venda e falei pro meu irmão “Vamos botar um dinheiro em cima que isso aqui é um bom negócio.” Fui lá e comprei. Alugamos logo de cara, mas na primeira corrida o motor falhou muito. Aí eu chamei o Anésio Hernandez, que fazia motor, e o Manelão, que cuidava do chassi, era uma dupla forte e o carro ficou bom. Na época tinha o ranking do “Piloto do Ano”, da Auto Esporte, que englobava todis categorias nacionais e só faltavam duas corridas para a definição. Aí o Marcos Troncon, que também era meu amigo e corria na Super Vê, chegou lá na redação da Auto Esporte onde eu trabalhava e alugou o carro para disputar essas etapas finais. Na primeira corrida, eram ele e o Artur Bragantini, que corriam na mesma equipe na Super Vê. O carro bateu recorde de pista em Interlagos, mas como o segundo lugar bastava pra ele, Troncon deixou o Bragantini vencer para que ele ainda tivesse chances no campeonato, o que facilitaria a renovação do patrocínio do próximo ano com a Philips para a Super Vê. Na segunda corrida, ele relatou um problema que na verdade não existia na regulagem do motor, aí emprobecemos a carburação e o carro perdeu potência, mas mesmo assim também voltou a ser segundo. O carro era muito bom, muito bom mesmo! No fim do ano vendi tudo para o Mario Covas Neto, o Zuzinha.

A primeira matéria para a revista Quatro Rodas, já como jornalista experiente
Reprodução acervo Sergio Milani

IB – Você andou se aventurando na pista como piloto também...

LC – Ah, mas foi uma maluquice juvenil! Eu estava começando a vida de casado e tinha um Passat que era um demônio! O carro andava muito, era um dos carros mais rápidos que existiam em São Paulo na época. O Passat voava! Motor feito pelo Vinícius Losacco, dois carburadores Weber 40 duplos, era uma coisa de louco! Na época quem trabalhava na Auto Esporte era o Expedito Marazzi, que tinha uma escola de pilotagem. E aí ele ficava “Ah, por que você não vai correr lá?” E aí eu fui. Era maluco! Era o carro da família, o patrimônio. Eu pensava “Se meter esse carro no guardrail, o que vou dizer pra minha mulher em casa?” Botei a pressão dos pneus lá em cima e fui correr. Era corrida com o pessoal do curso, mas cada um com seu carro. Teve o sorteio e peguei o terceiro lugar no grid. Corri duas vezes e ganhei as duas, mas nunca mais voltei a correr. Digo que sou um piloto com 100% de aproveitamento (risos). Depois dei umas voltas em carros de amigos em Interlagos, alguns Fórmula Vê de escolas de pilotagem. Eu andava bem, mas não tinha dinheiro pra bancar. Aprendi muito, era rato de autódromo e não deixava os mecânicos em paz. Gostava muito da engenharia e queria aprender tudo. Isso acabou me ajudando muito profissionalmente.

IB – Te trouxe um respeito muito grande, tipo, o cara que escreve também entende.

LC – Sim, deu a maior moral, sem dúvida.

IB – Voltando ao assunto F1, você acha que a Williams foi ingrata com o Felipe Massa?

LC – Absolutamente! Ele foi muito bem pago para correr este ano. Foi lá, fez o trabalho dele, cumpriu o contrato e pronto. É uma relação profissional, Ialdo. Na F1 não há espaço para sentimentalismos, é negócio, por mais injusto que isso possa ser.

IB – E você acha que desses candidatos que aparecerem algum vai fazer melhor do que o Massa?

LC – Eu não acho. Não acho que o Paul Di Resta, por exemplo, mereça todo esse foguetório que a Autosport está soltando em cima dele. Não vejo ele fazendo algo, pode ser até que faça, mas vai ser a primeira vez. Acho que o que está havendo no caso dele é uma patriotada descarada dos britânicos. Eles podem até usar um tom diferente, mas na realidade eles querem ver um britânico numa equipe britânica.

IB – Se a equipe fosse brasileira nós iríamos querer o Massa nela...

LC – Claro, claro.

IB – Você assistiu ao filme “Williams”. Viu como o Piquet abriu o verbo dizendo que depois do acidente do Sir Frank, Sir Patrick passou a privilegiar o Mansell. Piquet chegou a ir ao hospital onde Sir Frank estava internado reclamar disso.

LC – Sim, mas não foi a primeira nem a última vez. O único caso de equipe que não privilegiava pilotos da mesma nacionalidade era o da Ferrari por causa da pressão que vinha junto. O Enzo Ferrari não queria piloto italiano por causa do comportamento da imprensa italiana. Ele queria salvaguardar a equipe. Você conhece a imprensa italiana, seu estilo dramático. Não é à toa que as óperas nascem e morrem na Itália.

IB – E Robert Kubica?

LC – Acho que o tempo dele já passou... Acho que é uma aposta. Ele ainda não mostrou que pode realmente enfrentar uma corrida. Por que a Renault, que foi quem mais apostou nele, de repente abriu mão? Perguntado, o Abiteboul falou com todas as palavras: “Não conseguimos as respostas que nós queríamos.”
Na categoria “problema de braço” ele foi bem, mas não é nessa categoria que ele vai correr, amigo. Quando chegar lá no fim da reta junto com os outros carros é que vamos ver. Por que você acha que a Renault “jogou fora”? A não ser que você ache que na Renault só tem bobo, o que é uma coisa meio difícil de engolir, né?
Eu não sei o que a Williams está objetivando. Será que é só marketing? Porque se for isso me decepciona. Acho que deve ser uma equipe mais madura.
Não o vejo chegando e fazendo acontecer. Adoraria que fosse assim, torço por isso e por ele, mas não consigo acreditar.

IB – É aquilo que você falou, são negócios. São milhões e milhões de dólares, libras, euros, qualquer moeda que você pensar. Fico imaginando aqui ele chegando numa Curva Um junto com o Grosjean, o Perez ou até mesmo o Verstappen... o que pode sobrar? Porque essa será a realidade que ele vai enfrentar, Lito!

LC – É... A moçada que joga pra cima. Ele vai tomar tranco, se vai aguentar, não sei e ninguém sabe.

IB – E Pascal Wehrlein?

LC – Acho ele melhor do que o Di Resta. O Di Resta já teve chances e elas, infelizmente, deram num furo n’água.
Wehrlein tem um histórico de vitórias ao longo da carreira dele, mas aí você pode falar “mas o Di Resta também tem”, concordo, mas o Di Resta já mostrou o limite dele.

IB – Eu acho o Di Resta um caso como o do Heikki Kovalainen que chegou endeusado na F1, um novo Hakkinen e deu no que deu, embora ainda tenha conseguido ganhar uma corrida.

LC – É porque era finlandês. O pessoal da imprensa bota essas coisas na cabeça e aí se cria uma realidade que não existe. O próprio Rubinho enfrentou isso quando foi chamado de o “novo Senna” e isso só o prejudicou, fez muito mal para a cabeça dele durante um tempo. Não que o Rubinho não seja um excelente piloto, mas de repente um garoto de 22 anos tendo que carregar toda a expectativa de um país nas costas. É peso demais.

IB – Vettel perdeu o campeonato por azar?

LC – O Wilsinho Fittipaldi fala muito que em corrida não existe sorte ou azar. O que existe é muito profissionalismo, existe competência, existe erro e existe acerto. Quebra não é azar.

IB – O Emerson já diz o contrário, que para ser campeão é preciso ter sorte...

LC – A sorte à qual o Emerson se refere é diferente. É a de dois pilotos passarem em cima de um bueiro e um furar o pneu e o outro não. O que o Wilsinho fala é sobre a quebra, de um time estar mais ou menos preparado e nisso eu concordo com ele.
O próprio Sergio Marchionne, presidente da Ferrari, veio a público falar que as quebras foram devido a novos e jovens elementos na equipe. Pode ter sido, só sabe quem está lá dentro, mas ele não fala em azar ou sorte. E ele sabe bem que tem que dar um crédito a esta equipe técnica que tem pouco mais de um ano lá. A Ferrari fez milagre esse ano. Saiu de um carro que no ano passado era um horror para chegar a este projeto. Com um pouco de continuidade eu aposto na Ferrari como uma das maiores forças na briga pelo título de 2018.

IB – A última pergunta: o que você mudaria na F1 hoje se tivesse poder para isso?

LC – Carga aerodinâmica, carga aerodinâmica. Asa dianteira com no máximo três elementos, diferentes ou não, muito menos sofisticada do que é hoje e vamos pro pau! Asa móvel tiraria porque não tem nada a ver com o esporte. O halo é feio, mas eu não tiraria porque se alguém morre por causa disso... mas também não é a solução para todos os males, não serviria para nada, por exemplo, no acidente do Massa, mas protegeria contra um objeto maior. O problema é que estamos falando de vidas humanas, então não cabe um “ah, vamos tirar porque é feio”. Teve um furor igual quando foi lançado o HANS, entretanto, ele já salvou muitas vidas. O que eu reveria seriam as punições, sem dúvida! Tem decisões às vezes totalmente absurdas. O Verstappen é um perseguido. Ele apronta? Sim, mas quem não apronta na idade dele, com aquele enorme talento?
Aqui no Brasil também a coisa é muito complicada... Existe a boa intenção, mas em algumas ocasiões falta o discernimento.

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