terça-feira, 3 de outubro de 2017

BYE, BYE, BRASIL?


por Sergio Milani

Desde o ano passado, a pergunta já figura na cabeça dos aficionados brazucas de Fórmula 1: teremos um piloto brasileiro na categoria no próximo ano? Por um momento, poderíamos, após quase meio século, ter um grid sem um representante. Com a “volta dos que não foram” de Felipe Massa, 2017 ficou garantido. Mas após o GP da Hungria deste ano, a pergunta volta a assolar.

Não é que não tenhamos pilotos. Nosso amigo Ialdo Belo escreveu no início do ano um texto falando sobre os brasileiros que estão nas categorias de acesso e que poderiam postular uma chance no futuro próximo (ver aqui – http://www.formulai.us/2017/04/o-futuro-do-automobilismo-brasileiro.html), mas a questão acaba por ser mais complexa.

Desde 1970, o Brasil sempre teve pelo menos um piloto na F1. E de lá para cá houve uma “troca de guarda”. Emerson fez a passagem para Piquet e este 'recebeu' Senna. Quando seria a vez de iniciar a transição organizada, houve a morte do piloto e Barrichello e Fittipaldi foram “jogados às feras”, tendo que conviver com a pressão de manter a tradição vencedora, mas, por diversos motivos, não puderam cumprir.

Nos anos 2000, Felipe Massa acabou sendo “recebido” por Barrichello e houve a convivência pacífica. Com a saída de Rubens e a chegada de Felipe Nasr, parecia que o ciclo se manteria e a transição seria feita ordenadamente, mas com a saída de Nasr e a “aposentadoria” de Massa parecia que haveria uma pausa na trajetória brasileira, o que não aconteceu.

Agora, o fantasma volta a assombrar com a hipótese de a Williams não renovar com Felipe, então, o que fazer para garantir a continuidade?

Em um curto prazo, podemos ter nomes para a tarefa. Mas para a Fórmula 1 atual, talento só não basta: o piloto deve ter obrigatoriamente ligação com alguma montadora (famosos programas de desenvolvimento) ou ter um apoio financeiro de milhões de euros. Não que antes houvesse casos isolados, pois, pilotos pagantes existem nas categorias de automobilismo desde suas origens. Mas com o fechamento das equipes pequenas nos últimos anos, as portas de entradas passaram a ser cada vez mais estreitas.

Além do lado financeiro, temos que ver a base. Atualmente, não temos categorias de formação de pilotos dignas de nome. Um piloto hoje que saia do kart – que já exige um desembolso considerável – e quer fazer carreira em monopostos na terra brasilis tem como opções ir direto para uma Fórmula 3 defasada tecnicamente em relação a outros centros ou ainda pelejar em categorias como a Formula-Vee, Fórmula 1600 ou Formula Inter, que acabam por ter neste momento um caráter mais para “gentleman driver” do que para um início propriamente profissional, embora tenham méritos e ótimas intenções para médio/longo prazo. Fora isso, o caminho acaba por ser o aeroporto.

Uma nova administração tomou posse na CBA no início deste ano. Espera-se que possa permitir a volta de um automobilismo de monopostos forte ou, pelo menos, que não atrapalhe as iniciativas que estão tentando florescer nesta terra semi-arrasada, como já aconteceu com a Fórmula Futuro, organizada por Felipe Massa.

Alguns dirão que não é nada demais, já que países de grande tradição automobilística como França e Itália também ficaram vários anos sem ter pilotos na F1. Mas temos condições de fazer diferente e fazer um trabalho digno de nossas tradições e que impacte positivamente não só o aspecto esportivo, mas também o técnico-econômico, desenvolvendo tecnologias e gerando empregos (em tempo: até hoje não existe um estudo mais profundo do impacto do automobilismo na economia nacional).

Caso Massa realmente não prossiga na Williams após esta temporada, temos sim que nos preparar para a travessia do deserto e contar que teremos brasileiros no grid da Fórmula 1, se tudo correr bem, em 2019.
Torçamos e aguardemos os acontecimentos.


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