sexta-feira, 5 de maio de 2017

SENNA SOBREVIVERIA SE O ACIDENTE FOSSE HOJE?


por Ialdo Belo

Esperei até hoje, 5 de maio, a data exata do enterro de Ayrton Senna, há 23 anos. para tocar neste assunto que muitos me perguntam. Não era jornalista em 1994, não estava nem perto de Ímola. Mas, escrevi uma matéria em 1999, nos EUA, sobre o acidente, 5 anos após o falecimento do piloto. Na ocasião, tive a colaboração daquele que considero meu grande mestre, o jornalista brasileiro Celso Itiberê, do jornal carioca "O Globo". Tiba escreveu um lindo texto complementar à minha matéria e nele tentava projetar o que poderia ter acontecido se Senna tivesse sobrevivido: quantos títulos ainda ganharia? Quantos recordes poderia ter quebrado? Por quanto tempo ainda correria... A pergunta de hoje é bem diferente e para isso vou tentar responder analisando alguns fatos e relembrando outros.

Em 1999, quando estava elaborando o texto, tive a oportunidade de conversar com o professor Sid Watkins, chefe da equipe médica que atendeu Ayrton na pista após o acidente. "Prof", como gostava de ser chamado, apresentava um expressão saudosa, como se o assunto ainda fosse doloroso para ele, e eu, que estava cheio de perguntas, resolvi naquele instante que só uma deveria importar de verdade. Aquela resposta definiria todo o resto.

- Professor Sid, assisti ao socorro médico pela televisão e não sei se por causa disso tive a impressão de que o atendimento demorou um pouco mais do que o habitual, foi isso? Uma suspirada, um rápido olhar para as mãos e então veio a frase:

- A única coisa que eu pensava naquele momento era estabilizá-lo para que pudesse ser conduzido em segurança para o hospital, via helicóptero. Não tinha noção do tempo, apenas tinha que fazer isso.

A resposta de Prof reforçou ainda mais o que eu já havia percebido e a pergunta a seguir foi inevitável:

- O senhor acha que o lado pessoal foi envolvido?

Um novo suspiro e uma pausa ainda mais longa antes de me encarar com um olhar penetrante:

- Sim, acho que sim!

E em seguida veio algo que soou como um desabafo:

- Eu gostava do Ayrton, o considerava um verdadeiro amigo e tinha genuíno respeito por ele. Não podia deixar por menos! Minha obrigação como médico é salvar vidas e não podia me conformar que não pudesse salvar justamente a dele, mas a situação era muito difícil. Exigiu muito mais esforço do que qualquer outro caso que já tinha enfrentado.

Entendi imediatamente o que Prof estava dizendo, mas jamais faria aquela pergunta a ele ou a qualquer outra pessoa. Agradeci e deixei-o absorto em suas lembranças.

Em 2014, outra matéria, esta sobre os 20 anos sem Ayrton. O Professor Eric Sidney Watkins havia nos deixado quase dois anos antes, mas a sua presença na história da F1 estava marcada para sempre não só pelas vidas que salvou, mas, também pela revolução comandada por ele após a morte de Senna em prol da segurança na categoria. Procurei minha amiga Betise Assumpção Head (após o acidente ela viria a ser tornar esposa do co-fundador da Williams Sir Patrick Head), que estava em Ímola quando do acidente e era assessora de Ayrton à época. Pedi a ela um texto sobre o piloto e disse: "Vou te encontrar em Londres para tomarmos um chá". Ela deu uma gargalhada e respondeu: "Chá, não... Vamos tomar um chope"! Após as risadas, Betise me disse que tinha um texto já pronto e eu logo respondi: "Ótimo, me autoriza a publicar? "Lógico!"

Eu nunca trabalhei como jornalista para nenhuma mídia brasileira. Minha formação foi toda nos EUA e meu desenvolvimento profissional se deu na América e na Europa. O Formula i é a minha liberdade de expressão. Aqui trato os assuntos de uma forma mais intimista e ainda que seja escrito em português, exatamente para alcançar meus compatriotas, sua abrangência é mundial graças às ferramentas de tradução aqui incorporadas. De qualquer modo, mesmo quando não estou no Brasil, continuo acompanhando a mídia brasileira através dos textos e vídeos de jornalistas extraordinários como o já citado Celso Itiberê, Galvão Bueno, Livio Oricchio, Reginaldo Leme, Wagner Gonzales, Lito Cavalcanti e alguns outros. 

Posto isso, veio a surpesa ao acessar a internet na Europa e ver a manchete bombástica: "Ex-assessora revela: Senna morreu na pista!"

Depois de vinte anos, Betise havia decidido que a verdade tinha que vir à tona. Ela respondeu aquilo que eu não tive coragem de perguntar a Watkins. Passei a admirá-la ainda mais após isto.

Antes e depois de Betise, muito se falou sobre o assunto, mas a dúvida sempre permaneceu no ar. Todos os detalhes públicos agora estão disponíveis na internet para consulta a qualquer momento, não vale a pena "ser mais um" e repetir o que já foi escrito.

Mas, se fosse hoje, Senna teria sobrevivido?

Vamos aos fatos.

COCKPIT

A chamada "célula de sobrevivência" da Williams resistiu ao brutal impacto frontal no muro da Tamburello, como resistiria hoje. Abaixo do pescoço, o corpo de Ayrton estava intacto, portanto, no caso dele, o cockpit de hoje não teria alterado nada.

BARRA DE DIREÇÃO

A "gambiarra" improvisada por Adrian Newey, que soldou dois tubos de metal de ligas diferentes o que provocou o estresse que levou à quebra da barra de direção, dificilmente seria permitida hoje. A fiscalização é mais rígida e os carros são submetidos a "test crash".

POSIÇÃO DO PILOTO

O "estilo" Senna de se posicionar dentro do carro, sentado num ângulo de quase 90 graus, também seria impossível hoje, o que teria feito com que a sua cabeça estivesse mais baixa do que em 1994, provavelmente escapando do impacto da haste da suspensão. 

RODAS

É sabido que a massiva perda de sangue sofrida por Ayrton, cerca de 4,5 litros, veio do choque do braço da suspensão com o lado direito do seu rosto, penetrando em seu crânio como uma lança. As rodas hoje são presas ao carro através de cabos de aço complementares o que as impede de "voarem" desgovernadas.

HANS

O suporte para o pescoço dos pilotos conhecido como HANS poderia ter evitado o movimento brusco que causou a fratura na base do pescoço de Senna, um dos fatores determinantes na sua morte.

CAPACETE

Ayrton tinha solicitado ao designer Sid Mosca que "ampliasse" a área de visibilidade do seu capacete. Isto foi feito aumentando a área da viseira e consequentemente dimunuindo a proteção. A suspensão atingiu exatamente onde antes era "casco".

CONCLUSÃO

O laudo médico do Hospital Maggiore, em Bolonha, onde Ayrton Senna morreu, concluiu que o piloto brasileiro morreu às 14h17min, ou seja, no exato instante em que bateu no muro Senna teve morte cerebral ocasionada pelo impacto da suspensão em sua cabeça e que provocou a fratura craniana, ruptura da artéria temporal e lesões cerebrais. Pelas leis italianas, ao contrário do Brasil, a hora da morte é aquela em que o cérebro cessa suas atividades.

Hoje sabe-se que o professor Sid tinha noção de que Senna não sobreviveria pois suas pupilas já estavam dilatadas e não reativas no momento do atendimento na pista. 

Também pelas leis italianas, se a morte de Ayrton fosse declarada ainda no autódromo, a corrida teria que ser cancelada imediatamente, causando um prejuízo de milhões de dólares que os dirigentes da F1 não quiseram aceitar. Por este motivo, Senna teve seu ritmo cardíaco restabelecido por Watkins e seu coração continuou batendo até às 18h40min, horário local.

É correto afirmar que se o acidente tivesse ocorrido hoje, Ayrton Senna da Silva teria sobrevivido.



10 comentários:

  1. No campo hipotético, ouso dizer que mesmo hoje o Senna não teria sobrevivido, pois a lesão maior não foi a perfuração craniana, mas a fratura na base do crânio, que segundo relatos, causou uma ruptura na parte de trás da cabeça de orelha a orelha. Essa lesão ocorreu devido o impacto da suspensão, que prensou a cabeça do Senna contra o cockpit. Deste modo, comparando com outros acidentes recentes como do Henry Surtees e Justin Wilson, creio que ele também não teria sobrevivido nos dias atuais.

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    1. Prezado Mura,
      Você está certíssimo quanto ao fator principal da morte, mas, permita que eu argumente em dois pontos: as rodas hoje são presas por cabos de aço e portanto a suspensão não "voaria". O segundo é que o design de um F1 hoje, como descrito na matéria, protege muito mais a cabeça do piloto. Acho que isso por si só já mostra a diferença entre as tragédias de Senna, Surtees e Wilson.
      Entretanto, existe, sim, um acidente aterrador que quase ressultou em morte: o de Felipe Massa, em 2009. Costumo dizer que Massa teve a sorte que Senna nào teve e foi por pouco, mas muito pouco mesmo, que não perdemos outro ídolo.
      Muito obrigado por expressar sua opinião e sinta-se à vontade se quiser acrescentar algo.
      Abraços,

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  2. Segue trecho do texto...
    "As rodas hoje são presas ao carro através de cabos de aço complementares o que as impede de "voarem" desgovernadas."

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  3. Me lembro tão bem daquele dia 1° de maio até hoje, completaria 11 anos 3 meses depois havia acordado bem cedo como de costume para assistir a corrida e iríamos com minha família após o almoço a uma exibição da esquadrilha da fumaça no aeroporto de Varginha-MG, nem almoçamos direito naquele dia e hoje com 33 anos ainda não consigo assistir a esquadrilha sem ter os olhos tristes que me remetem a esse dia.

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    1. Prezado Micowy,
      Também fiquei muito abalado. Lembro que quando a cabeça dele deu aquela última balançada, desliguei a TV e já desci para o quarto chorando. Acordei minha esposa e disse: "Senna está morto". Falei por pura intuição.
      Naquela tarde, eu ia embarcar para o México onde passaria 45 dias fazendo palestras sobre Comunicação.
      Nunca embarquei...

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  4. Parabéns pela matéria. Sempre acreditei na quebra da barra de direção que, segundo dizem, era um procedimento normal na f1. Relatas que hoje não seria permitido. O regulamento mudou nesse ponto? Hoje somente peças 100% fabricadas?
    E quanto ao Ratzenberger? Qual a sua conclusão? Eu acredito que sobreviveria também, até por que a fragilidade do cockpit da Simtek saltou aos olhos.

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    1. Complementando: Quanto à barra de direção, normal era as emendas e não quebras.

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  5. Olá Márcio,
    Em primeiro lugar, muito obrigado! Vamos lá: sim, o regulamento mudou e depois do crash test não é possível alterar qualquer coisa na estrutura do carro, exceto o desenvolvimento do motor e a aplicação dos chamados "apêndices aerodinâmicos".
    Quanto a Ratzenberger, creio que o HANS poderia ter salvado a vida dele. Ainda assim, a fragilidade do cockpit da Simtek era absurda!
    Abraços, ��

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  6. E a brusca desaceleração pós-impacto? Suas consequências seriam reversíveis? Como não usava o hans, quais fraturas sofreria sem o "equilíbrio" que a roda proporcionou no milésimo de segundo do impacto?

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    1. Foi levantada na época e até inicialmente apontada como a causa da morte, mas na realidade não teria tido nenhum efeito.
      Senna estava a 233 Km/h quando se chocou contra o muro. Para efeito de comparação, o impacto de Piquet em Indianápolis foi muito mais forte, a mais de 340 Km/h, e Nelson ainda chocou a cabeça contra o muro!
      Mesmo que o HANS pudesse ter evitado a causa mortis principal e instantânea, que foi a fratura na base do pescoço, ainda teríamos outros dois elementos que o levariam ao óbito: a "lança" que causou as tais múltiplas fraturas no crânio e a hemorragia causada pelo rompimento da artéria temporal.
      A única forma que Senna poderia ter sobrevivido seria a suspensão não tê-lo atingido, Nessa hipótese, seria algo semelhante com o que ocorreu com Alonso ano passado: uma corrida ou duas fora e depois, tudo normal...

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