segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

O QUE A F1 PERDE E GANHA COM A DEMISSÃO DE BERNIE



por Ialdo Belo

A partir de hoje, 23 de janeiro de 2017, a F1 jamais será a mesma. Bernie Eccletone, o homem que construiu a Fórmula 1 moderna e fez dela um negócio de bilhões de dólares, foi relocado pelo Liberty Media, o novo grupo controlador da F1, para o cargo de "presidente honorário", o que na prática significa... nada!
Para se ter uma importância do trabalho de Bernie, o que ele fazia sozinho a partir de agora terá que ser feito por várias pessoas, dentre elas Ross Brawn, que já vinha dando pistas de que estaria de volta a Fórmula 1 em breve.
Para entender o que Ecclestone representou para a F1, teremos que viajar no tempo, desde a época em que era um piloto medíano até o trauma que o levou a chamar para si o controle do esporte, como veremos a seguir.

UM PILOTO QUE BATIA MAIS DO QUE VENCIA

Bernard Charles Ecclestone nasceu no dia 28 de outubro de 1930 em Bungay, Suffolk,  Inglaterra. Filho de um pescador, abandonou os estudos aos 16 anos para trabalhar como assistente químico numa usina de gás. Apaixonado por motociclismo, Bernie chegou a ser proprietário de uma revenda de peças para motos, antes de tentar, em 1949, disputar algumas provas da Fórmula 3 inglesa no circuito de Brands Hatch. Eccletone chegou a vencer uma prova e obter algumas boas posições, mas uma série de acidentes o levou a desistir da carreira de piloto. para sorte do mundo automobilístico,

O RETORNO ÀS PISTAS

Após se recuperar do último acidente, Bernie fez uma série de investimentos que se revelaram lucrativos. Com dinheiro no caixa, resolveu se voltar para sua paixão maior, o automobilismo, em 1957, desta vez como empresário do piloto Stuart Lewis-Evans. Bernie adquiriu dois chassis de F1de uma equipe falida e já na estréia o talentoso Stuart terminaria na 4ª posição no GP de Monaco. Animado, o próprio Bernie resolveu participar de uma prova com piloto de F1 em 1958, sem sucesso, entretanto.
Stuart foi contratado pela Vanwall e obteve sua vitória também em 1958, tendo Bernie ainda como seu empresário. Naquele ano, Stuart morreria em consequência de um acidente no GP do Marrocos, faendo com que tanto Bernie como a Vanwall abandonassem a Fórmula 1.

A TRAGÉDIA PERSISTE

Graças a sua amizade com o piloto Roy Salvatori, Ecclestone mais uma vez retornou à F1 em 1970, desta vez como empresário do austríaco Jochen Rindt. Mas, a morte perseguia Bernie como uma sombra e Rindt morreria em Monza guiando a Lotus de Emerson Fittipaldi, que havia batido e destruído o carro titular do austríaco nos treinos, embora escapasse ileso.
Mesmo com sua morte, Jochen Rindt se sagrou campeão post-mortem, o primeiro e até hoje único da F1, graças à vitória de Emerson no GP dos EUA que impediu que Jack Ickx conquistasse os pontos necessários para tirar o título de Rindt.
Na ocasião, um inconformado Bernie Ecclestone faria um juramento que seguiria à risca: trabalhar com todas as suas forças para que tragédias como a de Stuart e a de Rindt fossem a exceção e não a regra como ocorria na F1 daqueles tempos.

DONO DE EQUIPE

Bernie comprou a equipe Brabham do australiano Ron Tauranac por 100 mil libras durante a temporada de 1971. Em 1972, a equipe teve relativo sucesso com os pilotos Graham Hill, Carlos Reutmann e Wilson Fittipaldi Jr., estreando a temporada com uma pole-position de Reutmann e uma vitória na prova não-oficial de homologação do GP do Brasil, em Interlagos.
Para 1973, Ecclestone contratou o projetista Gordon Murray formando uma parceria de sucesso que trouxe vitórias de Reutmann e José Carlos Pace, além de dois títulos mundiais com Nelson Piquet.

FÓRMULA 1 SUPREMO

Bem sucedido em tudo o que fez na vida, faltava a Bernie alcançar o topo do topo e cravar seu nome como o mais importante nome da história da F1 e isso viria em 1978, quando tornou-se Chefe-Executivo da FOCA, Associação dos Contrutores de Fórmula 1, entidade fundada em 1974 por ele, Colin Chapman (Lotus), Teddy Meyer (McLaren), Frank Williams, Ken Tyrrell e Max Mosley (March) visando tratar dos interesses das equipes como royalties pelas transmissões de TV, segurança naas pistas e outros assuntos pertinentes.
Durante os 39 anos que esteve á frente da F1, Bernie realizou conquistas importantes, sendo a principal delas transformar uma categoria onde os carros eram construídos em galpões de madeira no interior da Inglaterra num evento esportivo de alcance mundial e que gera bilhões de dólares em receitas anuais. Outro ponto notável foram as conquistas na área de segurança que sob o comando do Professor Sid Watkins trouxe um declínio na taxa de mortalidade inimaginável até o final dos anos 70.

O FIM DE UMA ERA

Se por uma lado são incontáveis as conquistas positivas que trouxa para a F1, nos últimos tempos Ecclestone. aos 86 anos, vinha demonstrando que a idade já se fazia sentir por sua resistência às inovações. Foi contra a introdução dos motores híbridos, é totalmente avesso ao uso da internet e das suas redes sociais, bem como ao automobilismo virtual, não hesitou em retirar sem piedade do calendário provas tradicionais como o GP da França e o de Nurburgring por não aceitar fazer concessões comerciais e por aí vai. Por essas atitudes, que muitos consideram incompatíveis com a F1 de hoje, foi perdendo seu prestígio e poder até chegar ao melancólico desfecho de hoje.
Como um último ato de bravata, Bernie declarou que ainda possui dinheiro suficinete para ir à algumas corridas. É verdade! Com uma fortuna pessoal estimada em mais de 3 bilhões de libras esterlinas, Bernie pode comprar uma equipe, pode até mesmo comprar um circuito, mas jamais poderá comprar de volta o poder que teve um dia.

3 comentários:

  1. Belo texto amigo beegola comente Gostei .comente algo da época que vc trabalhou com o Bernie

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    1. Amigo Águia,
      Nunca trabalhei diretamente com Bernie, mas, fui testemunha de um fato que me espanta até hoje: Áustria, 2001. Rubens Barrichello liderava a prova e Schumacher fazia uma corrida de recuperação após duelos com as McLaren de Couthard e Montoya. Foi dada a ordem pelo box da Ferrari para Rubinho permitir a ultrapassagem e... nada. A corrida foi chegando ao final e Rubinho firme em 1°. Nos últimos metros, Rubinho abre e Michael ultrapassa. Não há palavras publicáveis para definir a reação de Bernie, que ficou ainda mais furioso quando, debaixo de vaias inclementes, Schumacher puxou Rubens para o alto do pódio.
      Vendo o espetáculo desmoralizado, Bernie recorreu ao amigo Max Mosley, então presidente da FIA, para exigir uma pesada multa à Ferrari, bem como o banimento das ordens de equipes.
      Quem estava no paddock naquele dia não viu um baixinho. Bernie parecia ter dois metros de altura e se comportou como realmente tivesse.

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  2. Ironicamente, Águia, o homem que deu a infame ordem atende pelo nome de Ross Brawn e hoje se tornou um dos substitutos de Bernie Ecclestone na F1, daí eu ter feito menção ao fato específico.

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