segunda-feira, 3 de outubro de 2016

A VIDA EM INTERLAGOS SEM A FÓRMULA 1


por Ialdo Belo

A F1 foi organizada oficialmente a partir de 1950. Naquele ano foi realizado o primeiro campeonato mundial e que à época só contava pontos para os pilotos. O de equipes só surgiria em 1958. Antes disso, existiam algumas provas de F1, mas não em forma de um campeonato.
O Autódromo de Interlagos foi inaugurado em 1940, portanto, dez anos antes da F1 existir.
Desde a primeira temporada da F1 até sua chegada em Interlagos, em 1972, passaram-se 22 anos.
Não é nenhum absurdo afirmar, então, que Interlagos chegou primeiro à F1do que a F1 a Interlagos.
Chico Landi, Gino Bianco, Nano da Silva Ramos, Fritz D´Orey, Emerson Fittipaldi, Wilson Fittipaldi Jr. e José Carlos Pace sairam do autódromo paulistano para correr na F1 antes que o Brasil viesse a sediar uma etapa. Esta aconteceria, extra-oficialmente, em 1972. Um evento-teste para homologar o circuito que passaria a incluir a etapa brasileira no campeonato a partir de 1973.
De lá para cá, o Brasil nunca deixou de ter uma prova de F1, seja em Interlagos, Jacarepaguá ou até mesmo outra extra-oficial em Brasília.
Também fomos o único país do mundo fora da Europa e dos EUA a ter uma equipe nacional. Na verdade, o time americano Penske só era americano na bandeira, pois sua fábrica, ao contrário da Fittipaldi, nunca esteve em seu país de origem, mas sim na Inglaterra.
Fora a Fórmula 1, Interlagos foi um verdadeiro celeiro de pilotos de talento reconhecidos mundialmente como Raul Boesel (campeão mundial de Marcas), Alex Ribeiro e Gil de Ferran (campeões da Indy), Christian Fittipaldi (atual tricampeão de Endurance nos EUA).
Interlagos também exportou campeões e vices da F1 como o já citado Emerson Fittipaldi, dois títulos; Nelson Piquet, 3 títulos; Ayrton Senna, 3 títulos; Rubens Barrichello, duas vezes vice e Felipe Massa que ficou com o vice-campeonato em 2008.
Com esse currículo, é impossível não reconhecer a importância do desafiador circuito no mundo automobilístico.
Interlagos já provou que teve vida antes da F1, mas será que teria caso a ameaça de não receber a prova em 2017 se confirmar?

Vamos aos fatos:

a) CONTRATO - Tamas Rohonyi, promotor da etapa brasileira, já afirmou algumas vezes que existe um contrato com a Prefeitura de São Paulo para a realização da prova de F1 até 2020. Bem, existe uma máxima no paddock de que contratos existem para serem quebrados, portanto, nada que uma multa não resolva. Mas, o que há de se destacar neste ponto é que, como mencionado pelo próprio Tamas, o contrato é com a Prefeitura e em sua primeira entrevista como prefeito eleito, João Dória Jr. já afirmou que irá privatizar o circuito e isto já torna o contrato inválido, sujeito a um novo acordo entre os futuros proprietários e os promotores da etapa brasileira;
b) PRIVATIZAÇÃO - O que significa "privatizar" Interlagos? O circuito está dentro de um parque municipal e este continuará sendo público. O que será da iniciativa privada será a pista em si e suas instalações como boxes, arquibandas, torre e afins. Ou seja, quem comprar terá o direito de explorar estas áreas como quiser, desde que respeitando a condição de que o autódromo continue existindo e recebendo provas de esportes a motor, como corridas de carro e motocicletas.
Em outras palavras, poderão ser agregadas benfeitorias e atividades que hoje não estão presentes como restaurantes, lojas de suvenires, aluguel da pista para indivíduos treinarem... É uma solução que foi adotada com muito sucesso, por exemplo, em Silverstone, sede do GP da Inglaterra. A diferença é que Silverstone não foi vendida, foi cedida pela Royal Air Force para o BRDC - clube de pilotos britâncos de corridas. A diferença neste caso é que com a venda, a Prefeitura de São Paulo irá receber dinheiro para aplicar em outras atividades;

c) UTILIZAÇÃO - Um novo contrato pode abrir Interlagos até mesmo para a Indy e isto sim pode se tornar uma queda de braço entre os donos e Bernie Ecclestone. Além disso, eventos como o Lollapalooza e congêneres tendem a acontecer com mais frequência;

d) LUCRATIVIDADE - Não é verdade que Interlagos dê prejuízo. A F1 deixa um lucro anual estimado hoje em 10 milhões de reais. Se insistirem neste tema é só solicitar uma auditoria...
Também não faz sentido a declaração do Sr. Rohonyi a um site de notícias sobre automobilismo de que os custos subiriam para as categorias nacionais. A privatização trará benefícios como a exploração de espaços publicitários o ano inteiro e isto por si só já bastaria para baratear as despesas;

e) SITUAÇÃO ATUAL - Ninguém envolvido na administração atual de Interlagos, leia-se SPTuris, tem algum envolvimento com o esporte a motor. São burocratas que não sabem diferenciar um cardã de uma biela.
Os novos proprietários certamente não vão investir milhões num negócio desconhecido. No mínimo, terão profissionais com algum conhecimento em áreas estratégicas.
Fora isso, conversamos com Roberto Zulino, empresário do ramo de corridas a motor e opositor reconhecido dos desmandos em Interlagos. Fomos autorizados a reproduzir seu desabafo no Facebook, como segue abaixo. Vale ressaltar que esta postagem foi feita pelo Sr. Zulino no dia 26 de setembro de 2016, ou seja, antes das eleições municipais.
Roberto da Silva Zulino, dono da categoria Fórmula Vee: "Os que acreditam nas bobagens que se falam sobre Interlagos prestam em péssimo serviço de desinformação. O terreno tem titularidade perfeita, foi fruto de doação com cláusula de uso para "pista de corrida", foi transformado em Parque Municipal Público tomando-se o cuidado de não incluir a faixa de asfalto para que não se caracterizasse Desvio de Uso, tem mais de 300 árvores nativas que foram implantadas em segredo à revelia da prefeitura, mas agora não podem ser cortadas. 
Fora os exemplos de prefeitos anteriores desde a Erundina que tentaram vender aquilo para aproveitamento imobiliário e desistiram quando viram o cipoal jurídico onde iam se meter, passariam o mandato perdendo tempo em batalha perdida. Acham que foram todos burros? Muito ao contrário, sabiam onde estavam se metendo e recuaram.
Passaram da Secretaria de Esportes para a SPTuris porque o Tribunal de Contas do Município estava criticando a montagem de arquibancadas provisórias caríssimas todos os anos com suspeitas de superfaturamento, onde se fala que até elementos da promotora levam grana. Dessa forma, a PMSP pode usar Interlagos e o GP do Brasil como VACA LEITEIRA para mamação dos políticos. Nada tem a ver com a pista ou com automobilismo, é apenas roubalheira que poderia ser feita e é feita em outros lugares. Basta ver o custo das ciclovias.
Acham que é fácil se vender Parque Municipal, que dá para desrespeitar clásula de doação e sequer sabem que a coisa foi para o Patrimônio Histórico do Estado? Pensam que São Paulo é Brasil ou Angola?
A PMSP não dá um centavo para Interlagos, a pista se sustenta facilmente sendo alugada, mesmo pagando o cabide de empregos da SPTuris, a PMSP apenas usa a pista e o GP do Brasil para fazer caixa para os políticos. Mesmo com toda roubalheira, a PMSP tem um lucro com o GP do Brasil de R$ 10 milhões ano, que fica para ela gastar onde quiser: saúde, educação, ciclovias ou mesmo roubalheiras
Na hora que aparece o Dória, um cara que quer fazer aos coisas direito, privatizar para se livrar do cabide de empregos da SPTuris e profissionalizar a gestão, caem todos matando elegendo o Dória como inimigo do automobilismo. 
Silverstone foi privatizado pela Royal Air Force - RAF e quem gere é o British Racing Drivers Club cujo presidente enfiou um maçarico aceso nas partes íntimas do Bernie.
Aqui pode ser privatizado para uma OSCIP formada por pilotos, preparadores, equipes e até patrocinadores, ou seja, gente que tem a responsabilidade do business.
Comparado aos outros candidatos e a todos os prefeitos anteriores, o Doria está a anos luz na frente e é justamente o contrário, prefeitos anteriores e outros candidatos são todos contra Interlagos e contra o automobilismo.
Estou lutando sozinho nessa causa, não tive a ajuda de nenhum dos senhores, fiz um relatório de 23 páginas sobre as irregularidades da gestão e das obras de Interlagos e entreguei ASSINADO para o promotor José Carlos Blat de décima promotoria, eu coloquei o meu na reta e não estou reclamando, fiz porque quis. Foi aberto Inquérito Civil IC 5924/2015.
Ao invés de ficarem no FB, podem fazer alguma coisa de útil e comparecer na Rua Riachuelo, 156, sétimo andar e falar com o promotor. Ou ligar para 11 3119 9915 ou 11 3119 9532. Basta perguntarem do Inquérito como qualquer cidadão pode fazer, o Inquérito é público. Isso ajudaria a estimular o promotor a agir com mais energia."

Em resumo o que nós do Formula i podemos afirmar é que não está confirmada ainda, oficialmente, até este momento, a realização da F1 em São Paulo em 2017.
Se vai acontecer ou não, isto pode ser visto até como irrelevante para Interlagos já que a história e a tradição do nosso templo maior do automobilismo vem de bem antes da própria F1. Posso citar até mesmo o exemplo de Zandvoort, na Holanda. Excluído da F1 por questões ambientais, o autódromo funciona o ano inteiro, exceto no período de inverno rigoroso, e recebe provas importantes como as da categoria alemã DTM.
O que é certo é que Interlagos não vai acabar, privatizado ou não!
De resto, é aguardar os próximos passos.



2 comentários:

  1. Ialdo, o Doria quando fala em vender usa um jargão de mercado para "vender a operação" e não a terra.
    Seria praticamente impossível se separar a pista do Parque, pois a pista está inserida no Parque e dele depende o acesso tanto de público como veículos.
    As alternativas podem ser:
    1) outorga não onerosa direta sem ônus a uma Oscip-Organização da Sociedade Civil de Interesse Público como foi feito pela Royal Air Force para o British Racing Drivers Clube que assumiu Silverstone e acendeu um maçarico no rabo do Bernie. Essa Oscip teria que ser formada por pilotos, mecanicos, equipes e ter como membros observadores patrocinadores e montadoras.
    2) outorga onerosa a um empresa via licitação como qualquer outra concessão.
    Legalmente, a separação foi feita pelo prefeito Pitta, mas nada demarcado, apenas separa Parque da Pista de Asfalto e Boxes, mas sem delimitação alguma. A prefeitura foi prudente porque se considerar a Pista como Parque poderia caracterizar como Desvio de Uso.

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    1. Prezado Roberto Zulino,
      Muito obrigado não só por tornar ainda mais claro o pensamento do prefeito eleito, mas, também, pela sua grande contribuição ao automobilismo brasileiro. Seja como dono da Fórmula Vee, a categoria de monopostos mais acessível aos pilotos, ou na sua luta incansável pelos direitos de pirofissionais que vivem deste esporte.
      Abraços,
      Ialdo Belo

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