segunda-feira, 6 de outubro de 2014

ESSÊNCIA



por Matheus Jacques

  Já seria a quarta pista nova que eu andaria neste ano, não deveria ter nada de especial não fosse por ser a minha primeira corrida internacional e ter uma grande chance de sair dela com o título antecipado do Campeonato Gaúcho de Formula RS Light, precisava chegar pelo menos em segundo nas duas corridas para consegui-lo, não era uma tarefa fácil, mas eu estava disposto a tentar. Cheguei ao Uruguai na quinta-feira, visitei o autódromo e deixamos tudo pronto para sexta-feira.
   Sempre tive uma facilidade muito grande em me adaptar às pistas novas, mas dessa vez foi diferente, a pista tinha trechos ondulados, curvas cegas e isso me atrapalhou muito, mesmo assim liderei alguns treinos durante o dia, mas acabei com o segundo tempo mais rápido do dia. 
   Foram mais três treinos no sábado antes da tomada de tempos e eu liderei apenas um deles, mas mesmo assim eu me sentia confiante para a tomada de tempos, confiava que faria mais uma pole-position. Dei o meu melhor, melhorei muito o meu tempo de volta, mas fui surpreendido por um dos meus concorrentes. Largaria em segundo e, apesar de apenas precisar manter essas posições nas duas corridas, isso me deixou frustrado e um tanto nervoso.
   Eu sempre fui um admirador muito grande das estrelas, fico fascinado quando vejo um céu estrelado. No sábado, depois de todas as atividades terem sido encerradas e a equipe já ter encerrado o trabalho, fui para o carro que alugamos para nos locomovermos. Fiquei lá um pouco isolado para relaxar. Perdi a noção do tempo e quando me dei conta já tinha anoitecido. Meu pai, antes de entrar no carro para irmos embora, chamou-me para mostrar o céu. A poluição em Rivera é muito menor do que a no estado de São Paulo e isso nos dava uma visão privilegiada das estrelas. Quando olhei pra cima, senti uma paz tão grande...  aproveitei  e  fiz uma promessa silenciosa naquele momento. Faria tudo o que precisava para ser campeão naquela pista e dedicaria o título aos meus dois avós recentemente falecidos, eu tinha certeza que estavam torcendo por mim lá de cima. Feito isso, entramos no carro e fomos embora para o hotel.
   Acordei no Domingo e fui tomar banho. Como de costume, planejei grande parte da corrida e fiz minha estratégia toda. Eu tinha dois caminhos diferentes. Lutar e me arriscar para vencer as corridas ou ser seguro, chegar em segundo e assim vencer o campeonato. Decidi ser seguro, não tomaria riscos desnecessários, mas mesmos assim, me sentia nervoso e sabia que precisava parar com isso. O nervosismo podia ser meu maior inimigo e já provei isso na Formula Vee quando deixei o carro morrer na largada. Respirei fundo e aos poucos fui relaxando.
   Ainda não havia contado aqui, mas tenho todo um ritual antes das corridas. Com aproximadamente uma hora antes de precisar entrar no carro eu me isolo, fico em algum lugar quieto só revisando meus planos e aumentando meu nível de concentração. 
Segui-o à risca e fui para o carro. Sentei, o cinto de segurança foi posto, liguei o motor e fui para o grid de largada, mas assim que liguei o motor, meu nervosismo voltou e o que mais me preocupava era que apesar de saber que isto não era bom, eu não conseguia controlá-lo como nas vezes passadas. Alinhei o carro no grid e meu coração palpitava, durante a volta na pista que dei para chegar lá, vi as cinco mil pessoas que foram ao autódromo assistir as corridas e isso não ajudou a me controlar. 
Foram cinco longos minutos de espera até que fossemos liberados para dar a volta de apresentação. Quando arranquei com meu carro, respirei fundo e mudei meu pensamento. Sumi com o nervosismo e me tornei o típico piloto frio, só que mais do que o normal. Parei meu carro na zona determinada e mantive meus olhos sempre nas sinaleiras. Ouvia minha respiração e nada além, estava preparado. As luzes foram acessas e rapidamente apagadas, consegui uma boa tração, mas o carro que estava a minha frente morreu. O tempo pareceu parar, a distância para ele era pequena, mas como algo automático, puxei meu carro para a direita e desviei. Esse movimento me fez perder muitas posições. Caí para décimo primeiro na Geral e penúltimo na Light, agora precisava recuperar as posições perdidas, mas ao invés de disto me preocupar, eu sorri. Um fogo frio ardia dentro de mim e eu estava pronto para a caça.
   Estava rápido e ultrapassava meus concorrentes um a um. A cada ultrapassagem eu me sentia mais motivado a buscar o próximo e assim foi. O carro e eu éramos um só, não olhava por onde passava com as rodas, eu sentia. Por vezes estive em posição de risco, com o carro bem próximo de um concorrente, mas eu não iria bater, eu conseguia prever seus movimentos e me antecipava sempre, assim ia ganhando posições, até que avistei a bandeira quadriculada e a recebi na segunda posição. Meu corpo relaxou junto com minha mente e eu olhei em volta. Todos os espectadores estavam de pé aplaudindo e eu me senti feliz porque pude dar àquelas pessoas o que elas queriam. Acenava enquanto ia passando por elas e podia ouvir seus aplausos.
   Metade do caminho estava percorrido e agora só faltava mais uma corrida para me sagrar o campeão. Precisava de mais um segundo lugar e iria consegui-lo. Estava pronto para a segunda corrida, com o giro do motor lá no alto quando as sinaleiras se apagaram, não tive uma largada boa, mas me mantive na segunda colocação e fiz exatamente a corrida que planejei. Em momento algum me arrisquei mais do que o necessário e passeei durante a corrida. 
   Eu mal posso explicar a sensação que tive ao ver aquela bandeira quadriculada sendo agitada, a equipe estava pendurada no muro dos boxes acenando e eu cruzei a linha de chegada. Punhos erguidos, sorriso no rosto e finalmente pude me sentir aliviado. Mais uma temporada chegara ao fim e eu era o campeão. 
   A hora esperada tinha chegado, o podium estava montado e parte das cinco mil pessoas presentes foi assistir a premiação, Enquanto recebia meu troféu pela segunda colocação, o locutor pediu aplausos pela minha conquista do título e todas aquelas pessoas começaram a aplaudir. Senti um formigamento, não conseguia conter o sorriso. 
Lembrei-me que estava em outro país, que era minha primeira corrida internacional, mas esse pensamento me trouxe outro. 

   Eu sentiria aquele fogo frio dentro de mim em qualquer país que estivesse, sentiria o nervosismo, a felicidade, o cansaço e o alívio, independente da minha localização. Estava ali sendo aplaudido por várias pessoas, fora do meu país, mas o sentimento de ser o campeão era o mesmo que senti ano passado e nos meus outros títulos. Independente do lugar, dia ou clima, independente de qualquer coisa, a essência do automobilismo será sempre a mesma. Não importa quantos anos passem, a sensação de arriscar a vida em uma pista, de chegar perto de bater, mas escapar, de alcançar o que você achava ser seu limite e ultrapassá-lo, será sempre a mesma. Para o nosso alívio.

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