quinta-feira, 3 de julho de 2014

SUPERAÇÃO



por Matheus Jacques

Não parecia que seria um fim de semana tão bom.
Depois de uma quebra de câmbio e não ter feito o melhor tempo em nenhuma das sessões de treino das quais participei, a minha confiança estava abalada. O problema maior é que a quebra foi logo antes da tomada de tempos e a minha participação na mesma era incerta, mas confiei na minha equipe e, incrivelmente, eles conseguiram fazer jus à confiança. Desmontaram e montaram o câmbio em um tempo impressionante e possibilitaram minha participação na tomada de tempos.
Agora estava tudo em minhas mãos. Sentado no carro pronto para a tomada de tempos eu fui lembrado pelo Noel, chefe da equipe, que o composto de pneus era novo e ninguém havia andado com ele ainda, portanto, nenhum dos pilotos sabia como ele iria responder às exigências de Tarumã.  Saí dos boxes e fiz a primeira volta com calma, procurando aquecer bem os pneus e “sentir” a aderência deles. Abri a primeira volta rápida e a fechei com o tempo mais rápido do que o eu já tinha feito em toda a minha vida naquele traçado e, na segunda volta rápida, melhorei mais ainda o meu tempo. No meio da terceira volta eu já sentia que os pneus estavam piorando e essa sensação foi correspondida pelo tempo de volta que foi meio segundo pior, decidi parar os boxes para que a equipe recalibrasse os pneus. Feito isso, retornei para a pista, mas não consegui melhorar o meu tempo.
Fim da tomada de tempos e, depois de todas as dificuldades, anotamos mais uma pole-position na temporada, a terceira em três etapas.
Resolvi dar umas voltinhas de kart com meus amigos no kartódromo ao lado do autódromo logo após a tomada de tempo apenas para fazer umas “molecagens” e dar umas boas risadas. Não foi uma decisão tão boa. Enquanto liderava a corrida, um dos meus amigos acabou encostando em mim sem intenção e eu acabei rodando. Um dos pilotos que vinha atrás me acertou em cheio e eu logo senti um forte dor no pulso esquerdo. Saindo de lá, passei em uma farmácia e comprei uma pomada para passar no pulso, mas ela não teve efeito algum. 
Logo pela manhã a dor era imensa, eu não conseguia abrir o registro do chuveiro e nem sequer fechar o zíper da minha jaqueta com a mão esquerda. Fui ao centro médico do autódromo e lá foi constatado que eu havia rompido alguns ligamentos do pulso, o médico disse que se eu corresse a lesão pioraria bastante, mas disse a ele que não tinha escolha e que teria de correr assim mesmo. Ele enfaixou meu pulso e me liberou. A dor já não me deixava fechar a mão direito e isso me assustava, não imaginava como seria na corrida.
Sentado no carro e parado no grid de largada eu me concentrava e tentava esquecer a dor. Me concentrava na largada e respirava fundo. As luzes do sinal se acenderam e muito rapidamente foram apagadas. Tive uma largada razoável, mas mantive minha posição. Abria cada vez mais na liderança da classe light e aproveitei essa vantagem para economizar os pneus. A dor no pulso era muito grande e me fazia sentir tontura quando necessitava fazer movimentos rápidos com o volante. Tentei ignorar a dor e manter o foco. Foi um grande alívio quando avistei a bandeira quadriculada e venci a corrida. A dor transformou-se  em felicidade e eu pude mais uma vez comemorar com a equipe.
Houve reclamações de vários pilotos que os pneus estavam muito desgastados, mas eu, felizmente, havia os poupado durante a primeira corrida e não tive esse problema.  
Pouco antes da corrida, foi constatado que meu pneu traseiro direito estava com formação de bolhas e o risco de estourar durante a corrida era enorme. Chamamos a organização e fomos autorizados a trocá-lo por um novo. Feito isso, era hora de me preparar para a corrida.
Mantive a liderança na largada e impus um ritmo bom nas primeiras duas voltas para conseguir abrir uma vantagem que me deixasse mais tranquilo. Consegui o que queria, mas, mais uma vez, a dor aumentava a cada volta e a intensidade era ainda maior do que na primeira corrida. A entrada do safety-car foi um grande alívio, pois pude descansar o pulso e me preparar para a ultima metade da corrida. Relarguei bem, mas o segundo colocado foi melhor ainda,. Fui ultrapassado na primeira curva e a guerra estava declarada. Me mostrava de um lado e do outro no retrovisor dele e forçava-o a aumentar o ritmo, esperava assim que ele errasse, mas ele continuou firme defendendo a ponta. 
A curva 1 de Tarumã é considerada a mais desafiadora do Brasil e na Formula RS nós a contornamos a 190 km/h. Entrei na reta dos boxes colado com o meu rival, ele foi para o lado de dentro da pista para se defender e me deu o lado de fora. Decidi arriscar por fora mesmo, ficamos lado a lado na reta dos boxes e a curva 1 se aproximava. Entramos juntos na curva e meu carro quis escorregar, mantive-o na pista e contornava a curva de lado, minha roda dianteira estava quase encostando na do meu rival, mas eu continuei ali. Na saída da curva usei a zebra e um pouco mais, precisei passar um pouco na grama e assim concluí a ultrapassagem. Foi uma das mais difíceis da minha vida, mas agora eu era o novo líder da corrida e assim ela se encerrou.
Foi uma vitória de superação para mim e percebi que uma dor não pode me tirar a vontade de vencer, percebi que o esforço vale a pena. A equipe fez um trabalho excepcional e de uma quebra de câmbio antes da tomada de tempos, conseguimos  a pole, melhor volta das provas e duas vitórias. 
Não parecia que seria um fim de semana tão bom, mas nós o fizemos ser.

Um comentário:

  1. Ah Garoto. Logo vi que a vitória "suada" tinha um bom motivo. A sua determinação só cresce com esses desafios. PARABÉNS! Assim mesmo, em caixa alta. Você merece. Parece que essa nova categoria está querendo testar os seus limites. Na prova anterior, foi aquela aguaceira, agora você teve que superar a dor. Tomara que essa semana seja tudo mais tranquilo. Força, Fé, Foco, Determinação e a Proteção de Deus, é o que lhe desejo. Torcendo muito.

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