segunda-feira, 14 de julho de 2014

RESULTADOS OPOSTOS



por Matheus Jacques

Cheguei confiante a Guaporé para a quarta etapa do Campeonato Gaúcho de Formula RS, é uma das minhas pistas preferidas, portanto, esperava um bom resultado. Como é sabido por todos vocês, tenho o costume de me cobrar sempre para nunca deixar de evoluir e esse fim de semana não seria diferente. Na classe Light da Formula RS, que é a que eu participo, usamos um chassi bem mais antigo do que os usados na classe A, mas a minha ideia e objetivo era a de brigar pela liderança na classe “A” independente das idades dos chassis.
Logo nos treinos da sexta feira eu vi que estava competitivo, fizemos alguns ajustes no carro e eu fechei os treinos livre como o 3° mais rápido entre todos os carros. Teríamos no sábado uma tomada de tempos e a primeira corrida. Queria me classificar entre os cinco primeiros para ter uma boa chance de disputar a corrida com os pilotos da categoria “A” e assim foi feito, consegui o 5° melhor tempo e o 1° na minha categoria. Seria melhor, mas tive uma quebra no câmbio logo na terceira volta da tomada de tempos. Estava satisfeito com a posição que consegui, mas era quase certo que essa quebra não permitiria que eu participasse da corrida que seria 2 horas e 30 minutos após a tomada de tempos.
Felizmente sempre pilotei para boas equipes, desde o kart vejo os problemas serem resolvidos rapidamente, mas dessa vez eu tinha quase certeza de que não daria tempo para que o carro fosse arrumado a tempo para a corrida, só que não estou em uma equipe normal. De forma automática 3 mecânicos se debruçaram sobre o carro , desmontaram o câmbio e trocaram o eixo primário, uma eficiência incrível.
Antes de o carro ficar pronto, disseram-me para ficar arrumado. Coloquei o macacão, capacete, luvas e fiquei preparado. Faltavam cinco minutos para o inicio da corrida e ainda não tinham acabado, o suspense foi grande, mas faltando dois minutos para o início me chamaram para entrar no carro, dei a partida no motor e fui para o grid de largada. O trabalho da equipe foi sensacional e agora eu precisava mostrar que não tinha sido em vão.
A largada foi dada, de 5°caí para 6° e vi que precisava me recuperar logo. Nas duas voltas seguintes eu juntei todas as forças para ultrapassar os dois concorrentes que estavam na minha frente e foi assim que fiz. Estava na quarta colocação, mas os três primeiros haviam aberto uma distância considerável. Comecei a dar voltas em ritmo de classificação e comecei a me aproximar deles. Sentia o carro na mão e o ânimo de ver que estava me aproximando me fazia acelerar mais. A corrida foi encerrada e consegui mais uma vitória na classe Light, mas o mais importante é que cheguei na quarta colocação  e com uma diferença de apenas 1,9 segundos para o 1° colocado da corrida.
 O fim de semana inteiro tinha sido sob sol, mas quando acordei no domingo e abri a janela do quarto do hotel, não pude acreditar no que estava vendo. Chovia bastante e, mesmo eu gostando de chuva, nunca havia guiado em Guaporé com aquela condição. 
Chegando ao autódromo, pedi algumas dicas para o chefe da equipe e comecei a me preparar para a corrida. Teria de ir às escuras mesmo e tinha certeza de que seria uma corrida muito difícil. 
A organização da prova avisou pelo sistema de som que a largada seria com o safety-car por causa das condições da pista e eu sairia na quinta posição mais uma vez. Quando o safety-car saiu da pista aceleramos e foi dada a largada. A pista estava muito molhada e o carro aquaplanava na reta. O piloto que vinha na minha frente passou por uma poça e perdeu o controle do carro. Eu estava a 170 km/h, enxergando quase nada devido ao spray levantado pelos outros e tinha um carro rodando na minha frente. É impressionante como as coisas acontecem extremamente devagar em momentos de risco, tudo fica em câmera lenta e ganhamos tempo para tomar decisões. Consegui desviar, mas um concorrente me ultrapassou, então, mantive a quinta colocação da largada. Sentia-me confortável com aquele tipo de pista e logo comecei a acelerar, passei de 5° para 3° em duas voltas e era o mais rápido da pista, senti a real chance de vencer na categoria A. Enquanto todos se esforçavam para se manter na pista, eu sentia certa facilidade em contornar as curvas e melhorava meu tempo a cada volta. Fiz um plano na minha cabeça onde ultrapassaria os dois primeiros colocados nas próximas cinco voltas e assumiria a liderança. Para pô-lo em prática, eu precisaria aumentar um pouco mais a velocidade e fui atrás disso. Contornei a primeira curva com o carro de lado, mas estava tudo sob o controle, fiz a curva 2 no mesmo ritmo e parti para a curva do Túnel, a mais fechada de Guaporé. Demorei um pouco mais para frear e vi que passei do ponto, as rodas dianteiras bloquearam e, pela primeira vez na corrida senti o carro fora de controle. Soltei o pedal do freio para que as rodas desbloqueassem, mas já era tarde, a barreira de pneus estava muito próxima e eu só tive tempo de tirar as mãos do volante. O impacto foi grande e senti uma forte dor no braço esquerdo.
Fui tomado por uma súbita raiva enquanto ficava sentado no carro. Foi um descontrole emocional que durou alguns minutos e nesse tempo eu me senti frustrado por ter cometido um erro tão bobo e jogado a corrida fora. Não poderia ter errado, não era para aquilo ter acontecido, minha cabeça fervilhava e eu sabia que tudo aquilo aconteceu por culpa exclusiva minha. Tive a chance de vencer a corrida na categoria “A” e a joguei fora. Consegui me acalmar pensando que eu estava no meu limite extremo e os riscos aumentam quando se chega nele. 
Fui resgatado na pista, perguntaram-me se sentia dores, ignorei o desconforto no braço e disse que não, por mais que não estivesse sendo totalmente sincero, sabia que aquela dor não era suficiente para que fosse algo sério. Levaram-me aos boxes e lá consegui me acalmar definitivamente.
Fiquei muito triste pelo erro, não podia deixá-lo acontecer, mas esse é o meu esporte. Automobilismo, “onde a vitória é tirada das garras da derrota”. Já dizia Senna, “O sentimento de chegar quase ao seu limite é fascinante”, mas sucumbir ao risco que esse limite causa é um dos piores sentimentos e eu senti o seu gosto amargo. 
A quarta etapa não terminou como esperávamos, não cumpri totalmente meus objetivos, mas não foi um fim de semana para se esquecer, como muitos dizem, muito pelo contrário, ganhei uma experiência que levarei para o resto da minha carreira, vivi, senti e aprendi coisas que levarei para toda a minha vida e uma delas foi saber lidar com a decepção após ter cometido um erro, que me tirou a chance de uma vitória. 

Um comentário:

  1. Ah, Matheus, essa sua humildade vai levá-lo muito, mas muito longe mesmo. Assumi o erro e aprender com ele. Com certeza você está mais forte na sua caminhada. Graças a Deus você não se machucou. Bola prá frente. Vamos que vamos. Força, foco, fé e humildade.

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