sexta-feira, 2 de maio de 2014

MORTES NA PISTA


por Ialdo Belo

Ontem reproduzi no Facebook uma matéria publicada pelo jornal O Estado de S. Paulo onde Betise Head, assessora de imprensa de Ayrton Senna à época de sua morte, finalmente vem a publico através do seu blog e confirma aquilo que todos já sabiam: tanto Ayrton quanto Ratzenberger morreram na pista.
Além da equipe médica, apenas cinco pessoas em todo o mundo poderiam confirmar isso sem sombra de dúvidas: Bernie Ecclestone, sua então esposa Slavica, o assessor de imprensa da FIA Martin, o irmão de Ayrton Leonardo e Betise. Todos ficaram em silêncio até ontem. Por que então Betise resolveu revelar isso só agora, vinte anos depois? Não sei! Qual o efeito prático disso na história? Nenhum.
Os familiares de Ayrton já tinham tido um encontro com Bernie tempos atrás e este tinha pedido desculpas pela sua atitude de desmentir o que já havia confirmado para Leonardo e quem conhece os Senna da Silva sabem da serenidade com que essa família lida com assuntos assim. Não houve ameaças de processo ou coisas do tipo. Desculpas aceitas, estória encerrada.
Para quem não leu o blog da Betise ou a consequente reportagem do Estadão, aqui vai um resumo:
Bernie teria chamado Leonardo Senna para uma conversa reservada numa sala em Ímola instantes após o acidente. Betise teve que ir junto para servir como intérprete já que Leonardo não era fluente em inglês. Na sala, onde já se encontrava Slavica, Bernie pediu para Betise traduzir que Ayrton estava morto. Leonardo entrou em desespero e correu para o telefone para avisar aos pais no Brasil. Nisso entra na sala o então assessor de imprensa da FIA Martin Whitaker e fala que está soltando um comunicado para os jornalistas de que Senna está com ferimentos graves, mas ainda vivo. Betise contra-argumenta e diz que ela já havia sido informada que ele estava morto, mas Martin finge não escutar e repete laconicamente: "Ele teve ferimentos graves, esta é a versão oficial." Nisso, Bernie se aproxima de Betise e a pede para informar para Leonardo que ele teria que ligar de novo para o Brasil e desmentir o que havia dito. Sem entender direito o que estava acontecendo, Leonardo faz o que foi pedido e é neste ponto que vem a grande polêmica: a família deveria ter sido poupada de receber falsas esperanças? A resposta deixo a cargo de vocês.
Tecnicamente em diversos países do mundo uma pessoa só pode ser declarada oficialmente morta quando o coração para de bater e não responde mais a nenhum estímulo para que volte a funcionar. É assim no Brasil, nos EUA e também na Itália. A Formula 1 se vale deste artifício legal para driblar outro também vigente em muitos países: se um piloto morrer na pista, a corrida será cancelada.
Nos casos específicos de Ratzenberger e Ayrton, eles estavam mortos na pista. Entretanto, tudo o que a equipe médica precisava fazer para evitar que o GP não fosse cancelado era trazer a pulsação de volta, mesmo sabendo que não haveria nenhuma chance de sobrevivência. Se o coração volta a bater na pista, o piloto passa a ser considerado "vivo" e isso, legalmente, já basta para não atrapalhar o show.
Ratzenberger com o pescoço quebrado e Senna com rompimento da artéria femural e perda constante da massa encefálica não tinham nenhuma chance, mas ainda assim a artimanha foi utilizada por causa dos motivos expostos acima.
Já no caso dos acidentes de Michael Schumacher em Silverstone, 1999 e Rubens Barrichello em Ímola, 1994, o procedimento funcionou: Schumacher teve parada cardíaca por cerca de dois minutos, portanto, estava tecnicamente "morto" na pista. As manobras de ressuscitação o trouxeram de volta. O mesmo aconteceu com Rubinho: seu coração parou por cerca de seis minutos. Isso foi amplamente noticiado à época na Europa e nos EUA, mas algumas pessoas me inscreveram dizendo que no Brasil não foi divulgado. Não sei, não estava no país, mas posso citar uma fonte segura em português: o jornalista Ernesto Rodrigues em seu excelente livro "Ayrton, o herói revelado". Cabe destacar que o mesmo Rodrigues foi o diretor da série de reportagens especiais exibidas pelo Esporte Espetacular em lembrança aos 20 anos da morte de Senna. Para os que dominam o inglês, basta uma rápida busca nos arquivos da internet do jornal inglês Daily Mirror. Ali o próprio Schumacher confirma a estória, retratada na foto acima.
Voltando ao blog da Betise, Celso Melo, outro assessor de Senna à época, afirma na sessão de comentários que possui um bilhete do próprio Martin Whitaker sobre o assunto e que isto corrobora a versão da Sra. Head.
Ela também promete novas revelações sobre o assunto para breve.
A ver.


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