segunda-feira, 12 de maio de 2014

CHUVA EM TARUMÃ



por Matheus Jacques

O meu próximo desafio seria a minha estreia em corridas na desafiadora pista de Tarumã. O traçado gaúcho é o mais desafiador do Brasil, é muito rápido, as diferenças entre os tempos dos pilotos geralmente não são grandes, assim, as chances da corrida ser bem disputada eram grandes. Eu estava com saudade do meu mundo, do cheiro de corrida, do barulho e da tensão, mas essa saudade só me dava mais forças para lutar e tentar fazer bonito.
Sexta feira, dia 2 de maio.  Participei de 4 treinos livres pela categoria Formula RS Light e fiz o primeiro tempo em todos os 4, mas não foi uma tarefa nada fácil. Um dos concorrentes ficou perto do meu tempo em todas as 4 sessões e  isso me forçava a melhorar cada vez mais. Meus pneus não estavam em boas condições, mas sabia que quando colocasse os mais novos para a tomada de tempos, que estava programada para o outro dia, conseguiria ser mais rápido e guardava isso como se fosse uma carta na manga. Depois dos 4 treinos, houve a reunião da equipe e lá conversamos sobre tudo o que podíamos melhorar.
A equipe possui um motorhome onde também levam os carros e todos os equipamentos necessários e do seu lado, montam uma tenda, que chamamos de “QG”, com uma grande mesa, fogão e churrasqueira. No fim dos treinos e da reunião, fomos todas para lá e para não perder o costume gaúcho, os mecânicos fizeram um ótimo churrasco.
Sábado, dia 3 de maio.  Tínhamos mais 3 treinos programados antes da tomada de tempo. A equipe decidiu que participaríamos apenas dos dois primeiros com a intenção de poupar o equipamento. Liderei os 2, mas, novamente, sempre com meu concorrente na minha sombra.
Equipamento preparado, eu estava mentalmente pronto e sentado dentro do carro, amarrado pelo cinto de segurança, fazia uma volta completa no traçado pela imaginação. Tinha em mente que contaria com pneus muito mais novos do que os que usei nos treinos e como disse, essa seria a nossa carta na manga. Nos treinos, o meu tempo mais rápido foi de 1.09,7 minutos e eu sabia que esse tempo não era o suficiente para fazer a pole-position. Eu precisava melhorar. Pelo serviço de som do autódromo escutei: “Box aberto, pista liberada”, logo após esse anúncio, saí para a pista. Mais uma vez eu estava lá, desenhando a pista mais desafiadora do Brasil, mas, nesse momento, o desafiante era eu. Dizia-me repetitivamente que a pista não ia me segurar, que o meu tempo seria melhor e assim abri a minha primeira volta. Depois de duas voltas cronometradas, virei 1.09,8 e a equipe me disse no rádio: “Matheus, você precisa melhorar 3 décimos”. Respirei fundo, entrei na reta dos boxes e pensei comigo: “É agora.”. Mergulhei na curva 1 pisando fundo, não tinha certeza se conseguiria contorná-la daquele jeito, mas consegui, mais um mergulho na curva 2 e rumei para a curva do Laço, ponto mais lento do traçado. Ignorei meu ponto de referência para a freada e freei mais dentro. Uma leve bloqueada de roda me mostrou que ali era o limite. Acelerei forte, agora era a curva do Tala-Larga, a contornei como nunca antes, o carro queria escapar de traseira mas eu o puxei de volta e acelerei novamente. Era a curva 9 que estava na minha mira agora, a última do traçado. Entrei forte, contornei-a de forma precisa e rasguei a reta dos boxes. O aparelho no meu volante mostrou o tempo de 1.09.00. Pole-position. A minha segunda na categoria e primeira em Tarumã.
Anunciado em alta voz durante todo o dia, à noite teríamos um “Arroz à Carreteiro” no QG. Ficamos alí na noite fria de Viamão, com muitas estrelas ao céu, os dois pilotos da equipe, mecânicos e o “Professor Noel”, dono e chefe da equipe, saboreando esta ótima comida dos Pampas, jogando conversa fora e ouvindo ótimas histórias. A união da equipe é algo sensacional. A forma com que eles conseguem nos fazer sentir em casa em um lugar tão distante,  é algo que nunca tinha visto antes.
Levantei da cama no domingo, olhei pela janela e vi a chuva. Todos os treinos foram com o tempo seco, o carro foi acertado para pista seca, mas o improvável aconteceu. Correríamos na chuva. O problema é que minha única experiência com um carro de corrida na chuva foi uma tomada de tempo na Formula Vee e mais nada. Nunca tinha corrido, largado ou sequer dado mais de 10 voltas naquelas condições, eu sabia que seria muito difícil.
Foram várias dicas do Noel, chefe da equipe, antes da primeira corrida das duas que estavam programadas. Ele me explicou todo o traçado e eu sabia o que fazer, mas deixou muito claro que eu não tinha obrigação nenhuma e que o objetivo era apenas completar a prova.
Estava sentado no carro, alinhado no grid, em primeiro na minha categoria e com um mundo de água caindo sobre a minha cabeça. Mantive-me calmo porque sabia que se deixasse a adrenalina tomar conta não sairia de lá inteiro. As luzes vermelhas se acenderam e muito rapidamente foram apagadas.  A falta de experiência apareceu logo nos primeiros segundos da corrida. Deixei o carro destracionar e caí para segundo na minha categoria. O spray, água levantada pelos outros pilotos, era muito grande e enxergar era quase impossível. As 3 primeiras voltas foram muito difíceis e o meu ritmo era pior do que o do líder, precisava me adaptar mais rápido. A partir da quinta volta eu comecei a melhorar e andar mais rápido do que o líder. Um pequeno incidente fez com que o safety-car entrasse na pista e reagrupasse todos os pilotos. Minha relargada foi boa, me mantive atrás do líder e a partir daí começou a batalha, foram várias voltas tentando ultrapassa-lo sem sucesso, até que a placa de 3 voltas para o final surgiu. Eu precisava agir rápido e estava decidido que seria naquela volta. Fiz a curva do Laço colado nele e na entrada do Tala-Larga eu coloquei de lado, nossas rodas quase se tocaram e eu freei mais tarde, a traseira do carro escapou e eu fiz de tudo para não rodar. Consegui. Agora eu era o líder e só precisava me manter na posição. Meu ritmo era mais forte e eu consegui abrir vantagem. Foram mais duas longas voltas. Entrei na reta dos boxes, desacelerei o carro e recebi a bandeira quadriculada.
Foi um grande alívio saber que tinha conseguido me adaptar e ainda vencer a corrida, mas não tive muito tempo para festejar, ainda tinha mais uma corrida e, por determinação no regulamento, como cheguei em sétimo na geral, largaria em segundo. O problema é que o meu concorrente, por ter chegado em oitavo na geral, largaria em primeiro.  Era uma pressão a mais saber que os carros da categoria “A” largariam atrás de mim, mas pelos meus tempos, eu sabia que poderia dar muito trabalho para eles e até surpreender.
No grid de largada foi dada a placa de 5 minutos para a volta de apresentação, hora de ligar os carros. Chave geral ligada, bomba de combustível também, ignição e... não ligou. Um problema na bateria fez com que o carro não ligasse. Tentamos pegar no tranco e não ligou também. Teria que largar dos boxes. Nesse momento a minha cabeça estava com um milhão de pensamentos. O meu principal concorrente largando em primeiro na geral e eu saindo dos boxes, as chances de vitória eram quase nulas, mas eu não ia desistir, não tinha viajado mais de 1.200 Km de carro, treinado e trabalhado duro para chegar lá e desistir. A largada foi dada, tive de esperar todos os carros passarem para poder sair dos boxes. Arranquei e fui. Concentrado e focado no objetivo eu comecei a andar forte. Virava o mesmo tempo que o líder da geral, que nesse momento não era mais o meu concorrente. Em certo instante eu era o mais rápido da pista e sentia mais confiança a cada volta, até que contornei o Laço e na sua saída vi o meu concorrente com o carro parado na pista. Passei por ele e foi anunciada a entrada do safety-car. Eu já estava em segundo na minha categoria e logo atrás do líder e companheiro de equipe, Guilherme Mezadri. Foram duas voltas lentas pelo circuito até que relargamos. Consegui tracionar melhor que o Guilherme e o passei logo na relargada. Assumi a liderança da minha categoria e comecei a abrir. Era o segundo mais rápido da pista, perdendo só para o líder da “A”. Depois de ter aberto uma distância segura eu comecei a administrar a corrida. Foi dada a placa de 3 voltas para o final, depois 2, ultima volta e mais uma vez eu apontei na reta para vencer. Uma das corridas mais legais que participei, uma das que nunca esquecerei. Dos boxes para a primeira colocação. O sorriso não cabia no meu rosto, desci do carro e logo fui cumprimentado por várias pessoas. Mesmo com chuva e frio, o público no Autódromo de Tarumã foi muito bom e, naquele momento, eu senti esperança no automobilismo brasileiro. Tinha acabado de vencer sob muita chuva e estava sendo cumprimentado por pessoas que deixaram suas casas em um domingo apenas para assistir uma corrida. A sensação era indescritível. A família Nafta Motorsport tinha se superado mais uma vez. Foi mais uma corrida que vencemos juntos. Lembrei de todo o trabalho feito, o esforço, os momentos difíceis em que cheguei a pensar que não conseguiria melhorar e agora eu estava lá. Venci a corrida, mas, acima de tudo, venci a mim mesmo!


4 comentários:

  1. Vou compartilhar isso... poucos conseguem descrever com tanta precisão o que se passa dentro do capacete!!

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  2. Parabens! Belo relato!!!!!! É bom ouvir isto de quem vem de fora, ainda mais falando de amigos tão bons e especiais quanto o Noel Paulista é pra nós!

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  3. Nem preciso dizer que agora conhece Tarumã como a palma da minha mão. Mais uma vez você se superou. Fala sério, nunca correu na chuva e ganha as duas corridas, uma saindo dos boxes. Eita nós. É já estou começando a sentir saudades... você não vai ficar muito tempo por aqui. De São Paulo para o mundo. Parabéns. Força, Foco, Fé e sua humildade, este é o segredo. Beijos.

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