terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

NOVOS DESAFIOS


por Matheus Jacques

Por mais que eu quisesse que aquele momento da conquista do título da Fórmula Vee Brasil durasse para sempre, que aquela explosão de alegria, felicidade e sentimentos na minha cabeça fosse eterna, eu sei que preciso continuar evoluindo e subindo cada degrau dessa longa escada para chegar a ser um piloto profissional no automobilismo. Pensando nisso, dois dias após a conquista do título, aumentei mais ainda a intensidade nos meus exercícios físicos e nos programamos para um teste na Formula RS que é disputada no Rio Grande do Sul. É uma categoria com um motor muito mais forte do que o da Formula Vee, possui pneus slicks e asas nas partes dianteira e traseira. Resumindo, é um carro totalmente diferente. O teste seria no autódromo de Tarumã, o mais rápido do Brasil, na equipe Nafta Motorsports, campeã em 2013 na categoria Light da Fórmula RS. Aprendi muito na Formula Vee Brasil e sei que todo esse aprendizado eu levarei para o resto da minha vida como piloto, mas eu preciso evoluir, andar em carros mais potentes, categorias mais evoluídas, tenho que mais uma vez provar para mim mesmo que consigo  me adaptar a um novo equipamento e ser competitivo.
Devo confessar que a noite anterior ao treino foi muito complicada.  “Como será guiar aquele carro na pista mais desafiadora do Brasil que é Tarumã?”, “Será que eu me adaptarei?”, “Será que a equipe gostará do meu estilo de pilotagem?” Essas perguntas não saíram da minha cabeça até eu conseguir pegar no sono.
Dia vinte e dois de Janeiro, quatro horas da manhã e eu estava levantando da cama. Muitas pessoas reclamam quando acordam cedo, mas quando isso é necessário para fazer o que se ama, parece ser a coisa mais fácil do mundo. Liguei o chuveiro e pela primeira vez eu não sabia o que pensar enquanto a água caía em mim. Não tinha nenhum plano específico. Na verdade, não fazia a menor ideia de como seria a minha adaptação ao carro, mas precisava realmente ser rápida. Esta é a minha mania, sempre cobrar a perfeição. As pessoas mais velhas, mais experientes, dizem que às vezes isso atrapalha, mas como já disse anteriormente, não consigo fazer algo sem dar o melhor de mim.
Na estrada para o aeroporto, via o sol nascendo, realmente o dia estava lindo. Já dentro do avião, em meu caminho para Porto Alegre, eu me lembrava de todos os vídeos que já havia estudado sobre a pista e traçado de Tarumã, mas eu sabia que assistir um vídeo é muito diferente de sentar no carro e virar um bom tempo. Exatamente, eu tinha que virar um bom tempo, tinha que impressionar a equipe. Depois de um pouco mais de uma hora de voo, olhei pela janela do avião e via Porto Alegre me recebendo com um sol forte e calor de 38 graus C°, avisado pelo comandante do avião. Sabia que a alta temperatura atrapalharia um pouco e que exigiria muito mais do meu preparo físico, mas eu estava confiante nos trabalhos físicos que fiz na academia e fora dela, visando esse teste e tinha certeza que por mais que fosse difícil, eu me sairia bem.
A oficina da equipe fica perto do aeroporto, então decidimos passar antes por lá, para conhecer a estrutura, os mecânicos, os carros, etc. Chegando lá, fui muito bem recebido pelo Noel que é o chefe da equipe. Ele logo tratou de me mostrar todos os seus equipamentos.  Contou várias histórias sobre a sua época de piloto, parte da história do automobilismo gaúcho.  Passou várias informações sobre o carro. Para falar a verdade, me senti diante de um “paizão”. A cada segundo ele perguntava se eu tinha alguma dúvida e continuava a me explicar tudo sobre o carro em que eu andaria.
Decidimos ir para o autódromo juntos com a equipe que possui um motorhome enorme, onde transportava dois formulas e todos os equipamentos necessários para uma corrida ou treino.
Não demoramos muito e chegamos ao autódromo de Tarumã. Escolhemos um box e logo o Noel, o chefe da equipe, começou a arrumar a minha posição de pilotagem no carro para que eu ficasse mais confortável. A primeira diferença que senti foi o pequeno espaço. Dentro do carro. Realmente tudo é muito apertado. Os meus braços encostavam-se às laterais do carro, ao passar as marchas, meus cotovelos batiam no chassis do fórmula, meus joelhos enroscavam  na carenagem . Outra coisa que senti, foi a pouca visibilidade. Na Fórmula RS é muito mais difícil enxergar a pista, as curvas, as tangências, as zebrinhas, do que no Formula Vee, mas eu sabia que essa é a realidade nos formulas, temos que aprender a guiar sentindo onde estamos passando e não vendo. É por isso que todos os pilotos treinam tanto a sensibilidade. Não vemos totalmente onde estão as rodas, mas as sentimos e sabemos exatamente onde estamos “passando”.
Geralmente a hora em que um piloto fica nervoso é enquanto se arruma para sentar no carro, mas eu não me sentia nervoso, mantive a calma o tempo todo e isso me ajudou muito a ouvir as instruções que o Noel me passava. O mais curioso é que logo antes de sair com o carro para a pista eu o chamei e perguntei: “Noel, com quantos giros eu preciso trocar de marcha?” ele olhou para mim, sorriu e disse: “Converse com o motor, Matheus, ele irá te dizer a hora certa”. Por mais que pareça um absurdo, nós pilotos realmente sabemos conversar com o motor, aprendemos a ouvi-lo e interpretar cada som que ele emite. Desde o kart venho sendo treinado para entender os pedidos que os motores nos fazem e quando o Noel me disse isso, senti uma injeção de adrenalina e disse para mim mesmo: “É agora que a brincadeira começa, vamos conversar com este motorzão”. Olhei para o lado, o Noel piscou para mim e disse: “Vai lá, garoto, se divirta”, liguei o carro e saí pelo box. Finalmente meu ano começara e eu estava de volta ao lugar que mais amo, uma pista de competição e agora, no autódromo mais rápido do Brasil. Dei uma volta devagar para ver se estava tudo certo com o carro e logo depois disso acelerei. Era impressionante a “pegada” do motor, quando pisei fundo o meu corpo grudou no banco do carro e o motor gritava forte. Era impossível segurar o sorriso enquanto sentia a força do motor e contornava as curvas do autódromo mais desafiador do Brasil. Tentei aprender o máximo que pude a cada volta e isso se refletia nos meus tempos caindo cada vez mais indicando que eu estava melhorando. O carro era fantástico, contornava as curvas com uma velocidade altíssima sem mesmo ameaçar escorregar.  Eu conseguia colocá-lo aonde eu queria e me sentia totalmente no controle da situação.
Infelizmente o calor estava grande, uma das mais altas temperaturas em Porto Alegre, a temperatura na pista, medida pela equipe, estava em  51 C° e isso tornava difícil ficar na pista por mais de 7 voltas seguidas. A cada vez que eu parava no box, o Noel me dava várias dicas e ensinava tudo o que eu precisava para ser mais rápido, eu tentava fazer tudo o que ele me dizia e podíamos ver o resultado nos tempos.
Depois de quatro horas de treino eu consegui virar um tempo que me colocaria entre os cinco primeiros na última corrida realizada lá em 2013 e isso me deixou muito satisfeito. No final do dia, realmente cansados, retornamos à oficina. Fizemos um balanço geral sobre o teste e conversamos muito sobre as expectativas desse ano que promete ser excelente. O fato: testei em uma equipe fantástica; com um “paizão” que é o Noel e toda a sabedoria que ele possui nesse esporte. Fiquei muito satisfeito, virei um bom tempo, tive a certeza que subi mais um degrau na minha escada nesse dia. Ainda faltam muitos, mas com a persistência e dedicação que temos, tenho certeza que de degrau em degrau, chegaremos longe. Acredito fielmente que se corrermos esse ano de 2014 na Formula RS, subirei vários degraus para a minha formação como piloto profissional de automobilismo. Adorei o carro, me senti confortável na pista. Percebi facilmente que vou ser muito competitivo nesta categoria. Senti uma enorme vontade de voltar a acelerar o Formula RS.
Bom, tenho plena consciência, antes de mais nada temos que correr atrás de parceiros e patrocinadores, a temporada começa em Março. Vamos em busca de novos desafios. 

Um comentário:

  1. Matheus, quero esclarecer que não estou fazendo nenhuma comparação entre você e o Senna. Dito isto, vamos lá. Você me lembra muito ele. Sua determinação, humildade, generosidade, vontade de aprender. Garra, foco nos novos desafios. Confiança em você. Caráter excepcional. Foram coisas que sempre admirei nele. Lhe agradeço muito por poder estar acompanhando sua caminhada rumo a vitória, torcendo muito para que tudo de certo (claro que vai dar), e pedindo a Deus que lhe abençoe e proteja, Um beijo, Você está sempre nas minhas orações.

    ResponderExcluir