quinta-feira, 2 de janeiro de 2014

LÁGRIMAS DE UM CAMPEÃO


por Matheus Jacques


Carrego comigo uma lembrança que tenho usado como motivação até “aquele” sábado, 21 de Dezembro, data da última etapa do campeonato. Sim, digo “aquele” pois será eternamente um dia especial para mim.  “Aquele” sábado, será diferente de qualquer outro. Essa lembrança vem comigo desde 2004 ou 2005, não me recordo exatamente o ano, mas eu estava em uma corrida na qual meu pai tinha vencido lá em Interlagos. Eu, baixinho como era, cheguei perto dele depois do podium e disse: “Pai, eu quero ser campeão aqui.” Ele, sem dar muita atenção respondeu: “Será, Matheus.”
Quinta feira, dia 19 de Dezembro, treino extra-oficial para a última etapa. Cheguei em Interlagos para o fim de semana em que eu poderia ou não realizar o meu sonho. Eu não treinaria no carro, quem andaria seria o chefe da equipe para ver se existia algum problema com o motor ou no próprio carro. Após 9 corridas sem abrir o motor, a equipe decidiu fazer uma boa revisão. Foram trocadas as bronzinas e uma verificação geral do cabeçote. Ele faria dois dos três treinos possíveis e eu acreditava que seriam todos tranquilos. Bastou uma volta para ele parar no box com o motor vazando bastante óleo. Mantive-me tranquilo, pois teríamos bastante tempo para resolver um problema que parecia simples.  Os mecânicos agiram rápidos e o carro, em pouco tempo, já estava pronto para o segundo treino. Novamente, na primeira volta, o carro estava cheio de óleo e nesse momento, o clima na equipe ficou um pouco mais pesado. Sentia que o problema não era tão pequeno assim, mas todos me diziam que era um coisinha boba e que uma peça trocada resolveria. Eu tentava me segurar e me manter calmo, mas já tinha sido um dia totalmente perdido por causa desse suposto pequeno problema. Entretanto, eu não era o único que enfrentava problemas, meus outros dois concorrentes ao título estavam com seus motores quebrados e deixavam transparecer muito mais nervosismo do que eu.
Sexta-feira, assumiria o comando do cockpit e seria um dia melhor, pelo menos era o que eu e a equipe afirmávamos até eu sentar no carro e chegar no box mais uma vez com o motor cheio de óleo. Mesmo com esse problema, decidimos que seria bom dar uma volta cronometrada para ver se éramos competitivos. Foi o que fiz e cravei o segundo melhor tempo do dia. Um pequeno alívio para mim no meio de tanto sufoco que eu já estava passando.
Sentado sozinho no box eu percebia que o clima ficava mais tenso a cada segundo que passava, mas todos continuavam a sorrir para mim dizendo que estava tudo sob controle. Eu estava começando a ter medo de perder o campeonato por um problema no motor, mas me controlava para passar uma imagem sempre serena. Aprendi nesses anos no kart que a equipe sempre trabalha de acordo com o humor do piloto, se este apresenta-se nervoso e preocupado, a equipe trabalhará da mesma forma e assim, tudo fica mais difícil.
Meus mecânicos e eu, sabíamos que a coisa não estava boa para o nosso lado, mas nos mantínhamos calmos, ou melhor, fazíamos de tudo para não demonstrar qualquer nervosismo ou preocupação.
Saí para o segundo treino rezando para que os ajustes surtissem efeito e que eu não olhasse no retrovisor e visse, mais uma vez, fumaça saindo do meu motor. Então, completei uma volta inteirinha sem nenhum problema e na segundo volta olho no retrovisor e o que vejo? Fumaça. Nesse momento eu fiquei realmente muito nervoso. Era o último treino livre e só sentaria novamente no carro para a tomada de tempos. Via o título ficando distante e o fim de semana ficando dramático. Parei no box e a equipe, juntamente comigo, decidiu por abandonar o treino para outra verificação por onde o óleo estava vazando.
O tempo passou, olhei no relógio, exatamente 23h31min e eu estava lá em Interlagos, sentado dentro do meu carro, aflito e nervoso, quando os mecânicos deram OK, tudo resolvido, pode ir dormir tranquilo. Cheguei ao hotel às 23h55min e fui direto para cama. Foi a noite mais difícil que já tive. Não conseguia dormir de jeito nenhum e tudo o que eu consegui pensar era que precisávamos arrumar o carro. Enfim, o sol decidiu raiar e acabar com o meu sofrimento. Tomei meu banho e não consegui fazer os meus planos para a corrida, pois não sabia nem se a terminaria. Tinha em mente só o resultado que precisaria para levar o título e estava preparado a fazer tudo para tê-lo.
É impossível descrever a sensação de chegar ao box e ver o seu carro ali, limpinho e pronto pra acelerar. Você se sente animado, ansioso, não vê a hora de sentar e afundar o pé direito. Com essa vontade de acelerar, sentei em meu carro e saí para a tomada de tempos. Logo na primeira volta eu já vi fumaça no meu retrovisor. Como seria possível uma coisa dessas? Será que eu perderia mesmo o campeonato por conta de um problema no motor? Dei uma volta cronometrada e entrei para o box. Fui informado que estava em sexto e que o meu principal concorrente ao título estava em segundo. Os mecânicos deram uma nova olhada no motor e o chefe de equipe disse: “Você tem uma volta, Matheus, após entre no box, é só isso o que vai dar para andar”. Entendi o que ele quis dizer. Eu tinha que dar tudo nessa volta e não podia errar se não iria tudo por água a baixo. Saí do box e senti o motor fraco, teria de compensar com a minha pilotagem.
Rasgando a reta dos boxes e abrindo a volta rápida decidi que me arriscaria no S do Senna: freei o mais dentro possível, reduzi e lutei para que o carro não escapasse da tangência certa, consegui. Desci a reta oposta e contornei a curva do Lago com o mesmo pensamento. Subindo para o Laranjinha, olhei para o retrovisor para me certificar que não vinha ninguém atrás de mim e tudo o que consegui ver era fumaça. Ignorei e fiz o Laranjinha como nunca antes, mas ai cometi um pequeno erro no Pinheirinho. Mantive a concentração e desenhei todo o traçado até cruzar a linha de chegada. Chegando ao box, fui informado que tinha feito o segundo tempo, bem perto do pole position.
Antes de começar a corrida, descobrimos a principal causa do vazamento de óleo e não teríamos mais tempo para corrigir este problema ou trocar de motor. Aí entrou a experiência da equipe para amenizar o vazamento com a utilização de uma cola especial e foi-me dito para correr tranquilo, que o motor aguentaria até o final da corrida.  Eu sabia que a prova seria difícil, mas agora tinha um pouco de esperança de que poderia terminá-la.
Me arrumei pela última vez na temporada, entrei no carro e fechei os olhos. Não tenho a mínima noção do tempo em que permaneci assim, mas desenhei todo o traçado na minha cabeça, visualizei os meus pontos de referência para as freadas e pensei em tudo o que precisaria fazer para sair da pista com o título. Abri os olhos e deixei o box dizendo: “Só volto aqui se for como campeão.”
Momentos antes da volta de apresentação, um grande amigo veio ao encontro do meu carro e disse para mim: “Tem muito óleo no Laranjinha, cuidado na primeira volta”. Logo depois disso ele saiu. Meu mecânico, o Magrão, veio até mim, apertou minha mão e olhando nos meus olhos disse: “Eu nunca vou deixar de acreditar em você, Matheus. Nunca.” Depois dele dizer isso, eu estava sozinho a momentos da largada para a corrida mais importante da minha vida.
Os sinais se acenderam, eu já havia errado a largada duas vezes e isso não poderia acontecer novamente. Meu motor gritava e os segundos pareciam horas. Luzes apagadas e largada dada. Meu carro saltou para frente e eu pisei fundo no acelerador. Assumi a liderança e desci o S do Senna em primeiro com mais 28 pilotos atrás de mim. Logo na reta oposta eu senti como o motor estava fraco. Caí para a quarta posição e na curva do Lago eu já era o quinto colocado. Na subida do Laranjinha, o meu principal concorrente ao título colocou o seu carro ao meu lado na tentativa de ultrapassagem, mas ai tive um flashback: “Tem muito óleo no Laranjinha...” . Tirei o pé e deixei o meu concorrente contornar a curva na minha frente, para a minha surpresa ele passou exatamente na grande faixa de óleo e rodou. Eu era o líder do campeonato isolado nesse momento. Eu normalmente estaria nervoso nessa hora. Perdendo posições rapidamente e sem um carro perfeito. Mas sim, eu disse estaria... Trabalhei muito o meu psicológico nesse intervalo sem corridas e nessa hora eu me agradeci por isso. Respirei fundo e segui em frente. Na segunda volta já tinha caído pra oitava posição. No rádio, a equipe perguntou se havia algum problema e eu respondi que o motor estava fraco. Por conta de um acidente, na terceira volta, o safety-car estrou na pista. Usei esse tempo para pensar. Precisava subir de posições e encontrar uma forma de pilotar que compensasse a falta de potência do motor. Relargada dada e logo na primeira volta depois da intervenção eu já estava em sexto. Nenhum sinal de fumaça saindo do motor, então segui em frente. Em três voltas, avancei da oitava para a quarta posição. Os três primeiros estavam mais para frente e eu estava me distanciando dos demais pilotos. Pelo rádio, a equipe me informava da posição do meu concorrente pelo título. Era só administrar, só manter a concentração que seria o campeão. Ultrapassei mais um concorrente e na última volta me aproximei dos 2 líderes.
Devo confessar que nenhuma volta na minha vida demorou tanto quanto a última, mas finalmente, depois de 10 corridas, eu contornei a junção para ser o campeão. Subi para o Café, entrei na reta Emerson Fittipaldi, olhei para cima e vi a quadriculada preta e branca. Meus olhos se encheram de lágrimas e eu finalmente cruzei a linha de chegada. Gritei como nunca. Não sabia o que estava sentindo, apenas erguia os braços e gritava. Todo o trabalho, todo o esforço, todo o suor, todo o cansaço... Tudo foi feito para aquele momento, fizemos de tudo para sermos campeões e conseguimos o objetivo. Eu sorria dentro do capacete e sentia que todo o drama do fim de semana, toda a tensão só me mostrou que vale a pena lutar por tudo.
Meus gritos foram substituídos por soluços, meus olhos iam deixando cair aquelas lágrimas que representavam todo a dificuldade que tive para chegar ali. Eu queria encontrar o meu pai. Ver como ele estava e dar um abraço, igual ao da minha primeira vitória. Cheguei no parque fechado e antes de descer do carro, lá veio o Magrão chorando, me abraçou e falou: “Eu disse, Matheus, nunca deixei de acreditar em você.” Isso só me fez chorar mais ainda. Saí do carro e não sabia nem o que fazer. Tantas pessoas batendo palmas para mim e eu ali, apenas chorando e sorrindo. Comecei a procurar meu pai e depois de um tempo o vi correndo em minha direção chorando. Foi um abraço diferente de qualquer outro, nós dois chorando e ele me disse :“Obrigado, filhão”. Nesse momento surgiu aquela lembrança na minha cabeça de quando eu era apenas uma criança de 8 anos dizendo ao meu pai que seria campeão em Interlagos. Ele tornou isso possível. A luta dele, a vontade de me ver vencendo e todo o apoio me fizeram ser campeão naquele dia. Eu tinha Ayrton Senna como ídolo, mas agora se alguém me perguntar eu respondo sem o menor receio que o meu ídolo e meu herói, é o meu pai. Realizei meu sonho, mas não fiz isso sozinho.  Disse aqui nessa coluna que minha equipe era a LF Competições, mas errei. A LF não é a minha equipe, é a minha família. O Nenê Finotti, chefe da equipe, se tornou um pai para mim, o Magrão... ah, esse Magrão..., ganhei um irmão! Os demais mecânicos, uma união incrível.
 Foi difícil vencer esse título, mas afirmo com a maior certeza do mundo, sem essa “família”, seria impossível!

5 comentários:

  1. Matheus, absolutamente fantástica a visão do antes, durante e depois da vitória! E eu ali, fotografando você e os outros pilotos, vendo a conquista do campeonato. Parabéns Champ!

    Abração

    Marcus Pavan

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  2. Obrigado meu filho pelo relato. Muito lindo o que você escreveu.Te digo que com certeza, foi um dos melhores momentos da minha vida. A expressão dos seus olhos na linda foto do Rodrigo Ruiz, expressa toda a sua emoção logo ao chegar ao parque fechado. Lembre: garra, luta, perseverança, estratégia, confiança na equipe, humildade e principalmente, a vontade de vencer, levam ao sucesso. Busque sempre estes princípios que você será sempre um vencedor!

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  3. Muito lindo e emocionante. Nunca esquecerei o dia em que vi vc guiando e perguntei: Quem é este menino? Tem olhos de águia para enxergar novos talentos. E foi assim que conheci vc. Continue sendo esta pessoa humilde e carismática. Vc é um cara do bem. Siga sempre estes princípios. Sempre torcerei por vc. Parabéns!!!!Abraços Carlão Gorski

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  4. Exatamente como esperava, tinha certeza, que ao ler sua coluna, me sentiria dentro do seu carro em Interlagos. Fiz a volta da tomada de tempo junto com você. Mas o mais importante é ver que você não mudou em nada. Humildade, generosidade, confiança, foco e fé, os mesmos sentimentos que identifiquei na sua primeira coluna. Obrigada Matheus, por nos mostrar que vale a pena lutar por nossos sonhos. Parabéns para você e para o seu "Paizão", que também aprendi a admirar. Que venha 2014, com novos sonhos para serem realizados. E vamos que vamos.

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  5. Matheus, parabens pelo texto, não é sempre que conseguimos traduzir em palavras nossos sentimentos, mas vc de forma brilhante conseguiu e melhor com emoção!, parabéns também a LF, pois também não a considero uma equipe, mas como falo é a "Famiglia Finotti", só quem faz parte e que sabe, e em relação ao seu pai, realmente ele é muito forte emocionalmente, porque no lugar dele, minhas lagrimas já teriam secado, pois a emoção como pai realmente é indescritível, parabéns mais uma vez, e 2014 espero que consiga mais vitórias e textos brilhantes pra nos alegrar. Grande abraço!

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